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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Menu Contos: Zumbi (Parte 02)

David estranhou aquilo. Ele segurou no braço dela com delicadeza e sentiu que estava frio. Lentamente ela virou a cabeça na direção dele, e David se horrorizou ao ver que seu rosto estava esfacelado.

David Carlyle notou que o corpo de Camila ou Camélia abriu os olhos e arregalou aquelas bolotas opacas ao dar de cara com ele. Foi aí que aquela porra começou a gemer, e mal os gemidos começaram, todo aquele monte de estátuas pareceu ganhar vida e se mexer lentamente. Parecia um monte de gente acordando. Camila ou Camélia começou a vir na direção dele, os braços esticados tentando agarrá-lo.

E como qualquer pessoa que se preze numa hora dessas, David Carlyle resolveu dar no pé. Disparou a correr, mas aí a multidão já começava a vir atrás dele, todos gemendo alto. Até aquele momento, David não tinha conhecimento do que realmente era aquele monte de corpos pútridos vindo atrás dele. David Carlyle não conhecia os mecanismos básicos de um zumbi. Ele levou algum tempo para descobrir como eles funcionavam.

Os zumbis começaram cambaleando devagar atrás dele, mas em pouco tempo, já estavam correndo com seu modo estranho de se mover. David olhou para trás enquanto fugia pela primeira vez de uma horda. No início eram só cinco, mas como todos eles começaram a gemer alto e vocalizar, não demorou para começar a sair corpos por tudo que era canto. Saíam dos prédios, de dentro de carros e de ônibus batidos. Mal eles começavam a andar para o meio da multidão, já ganhavam outra  reação corporal. Eles seguiam a “manada”.

Por sorte, David estava perto do cais do porto, e correu esbaforido e desesperado em direção ao mar. A multidão o seguia, gemendo, urrando e babando, entretanto, correndo um pouco mais devagar. David chegou ao píer e não pensou duas vezes quando viu que os zumbis se aproximavam velozmente. Ele saltou no mar e nadou debaixo d´água para baixo do Píer.
Enquanto era violentamente jogado pelas ondas na direção da praia, ele tentou desviar dos pilares. Acabou se cortando nos mariscos aderidos ao grosso pilar de madeira. Mas aquilo era apenas um arranhão perto dos ferimentos horrendos que viu naquelas coisas que o perseguiram. David bateu na praia em meio a uma espuma branca que ferveu ao seu redor. O gosto de sal na boca e a vontade de tossir eram enormes. Seu peito ardia. Ele arrastou-se para a areia seca e sentou-se ali sob o pier. De onde estava, viu por entre as gretas do piso que os corpos estavam parados lá na ponta. Nenhum pulou atrás dele. Ali eles pararam, ali eles ficaram.

David, exausto, deitou na areia e sentiu a dor em todos os seus músculos. O sol já brilhava forte no céu. Sua cabeça era uma confusão de sentimentos primitivos. Medo, fúria, raiva, angústia, horror.

Parou para pensar naquele monte de gente morta, que mais parecia viva. Ele não entendia como aquilo era possível. Como a decomposição dos corpos não impedia que eles se movessem. Não pareciam, muito inteligentes, e David nem fazia ideia porque estavam parados como estátuas no meio da rua.

Ficou ali descansando. De vez em quando, olhava para cima em busca de ver algum movimento, mas todos estavam rigidamente parados lá no alto. É como se um poder invisível os tivesse desligado. David sentiu que estava batendo uma fissura, uma vontade louca de dar uma viajada. Fugir daquela porra toda. Meteu a mão no bolso e tirou uma seringa.No bolso da jaqueta tirou o elástico.Puxou a manga da jaqueta de couro pra trás e apertou o garrote.

“Que se foda o mundo.” Sussurrou enquanto injetava o líquido leitoso na veia. Deitou na areia e esperou.



Mas não aconteceu nada. Absolutamente nada. David Carlyle estranhou.

“Mas que merda é essa?” – Pensou ele.

Era pra já estar no paraíso, mas aquela porcaria não estava funcionando. David meteu a mão no bolso e tirou outras duas seringas. Eram as últimas. Apertou o garrote novamente e meteu as duas pra dentro. Agora, ou viajava ou morria.  Deitou novamente na areia a espera de afundar. Mas não afundou. Ao contrário, parecia ainda mais lúcido.

Certamente que naquela altura dos acontecimentos, meter duas doses de heroína pra dentro e não viajar parecia muito mais estranho que ser perseguido pelo cachorro do diabo e por um monte de gente morta.

“Puta que pariu, porra do caralho!” Disse jogando as ampolas no mar.

David não entendeu como que era possível aquilo, mas o fato era que seu corpo, por alguma razão não estava sendo mais afetado pela droga. Ele pensou que talvez tenha sido aquela maldita superdose que tomara na obra.

Resolveu esperar, pois podia rolar algum efeito retardado. Então, ele deitou-se novamente na areia a espera de que a droga eventualmente fizesse algum efeito. Só que nada aconteceu. Ele ficou olhando pra cima, lá no alto, os zumbis parados como estátuas de cera.

Enquanto esperava, David pensou naquilo tudo. Nos efeitos da droga terem sumido. Percebeu que a fissura que ele pensou sentir era muito mais uma vontade de largar aquele mundo para trás, de fugir, de se esconder dos problemas do que realmente a loucura que sentia antes. Antes era impossível de pensar. A vontade tomava conta dele, e ela vinha derrepente, sem aviso. Surgia do nada e controlava todo o seu corpo. Se ele não metesse a droga pra dentro, dava um tremelique ferrado, uma vontade de vomitar as tripas, de sair do corpo, de se rasgar. O sangue parecia ferver dentro das veias e tudo começava a rodar. O enjôo era incontrolável. Mas agora não. Ele não sentia nada daquilo. Nem enjôo, nem tremelique, nem tosse e nem a coceira absurda que dava. E então ele sentiu um certo alívio. Olhou para cima, viu as solas dos sapatos dos mortos por entre as frestas. Estava seguro ali. Sentiu a solidão profunda de estar naquele mundo decrépito. E dormiu.



Quando David abriu os olhos, a água do mar estava batendo nas pernas dele. A maré tinha subido e já estava escurecendo. Ele percebeu que dormira o dia todo. Sentia uma fome absurda. Talvez tivesse acordado de fome. As calças empapadas de água do mar causavam-lhe um frio desgraçado. David olhou para cima e viu o céu por entre as frestas do píer. Os zumbis tinham saído de lá.

Levantou-se com alguma dificuldade e procurou uma forma de sair dali. Caminhou pela praia vendo os últimos suspiros do sol ocultando-se no mar. A noite galopava velozmente escurecendo o céu, repleto de estrelas.

David andou pela praia até ter uma ideia súbita de que talvez ele ali, andando sozinho naquela praia aberta, fosse uma presa fácil, que seria vista de longe pelos mortos-vivos.

A ideia de meter-se novamente no meio dos prédios não lhe agradava muito, mas ele estava sentindo um frio desgraçado e o vento que vinha do mar era forte, o que aumentava a sensação de frio. Além disso a fome era tamanha que ele comeria até um defunto.

Pensou nesta ideia e riu.

Caminhou apressado na direção dos prédios. Esgueirou-se como um soldado por entre as bancas de jornal, os quiosques  e os carros estacionados e batidos.  Uma padaria estava aberta. David se aproximou com cautela. Pisava de leve para não fazer barulho. Olhou lá pra dentro, forçando os olhos. Estava muito escuro, e não tinha nenhuma luz para ajudar. Ele andou devagar para dentro da padaria. Sobre o balcão tinha um tabulçeiro coberto com uma manta plastica. Ele levantou amanta e meteu a mão. Sentiu que era algo mole. Pegou um pedaço e cheirou.

Era pizza de forno. David começou a comer a pizza sofregamente, e mesmo sentindo que ela não estava lá muito boa, não quis saber. Comeu com vontade na escuridão até se sentir saciado. Saiu da padaria tentando desviar do monte de coisas caídas pelo chão. As gôndolas de produtos tinham sido derrubadas e havia muita coisa no chão. A roupa encharcada o incomodava bastante. David não conseguia ver nada e para piorar, aquela era uma noite sem luar.

Olhou para a avenida, tentando ver se sob algum daqueles prédios havia uma boutique, loja ou algo assim.

E foi então que ele viu, ao longe, no alto de um prédio, uma luz fraca, de cor âmbar a iluminar uma janela.

“Caralho! Tem gente lá!” – Pensou aliviado.

David Carlyle correu cautelosamente por entre os destroços da rua. Os olhos sempre fixos na fraca luz âmbar que surgia e bruxulheava dentro daquele apartamento ao longe.
Sabia que eram velas. E se havia velas, certamente havia gente normal escondida lá dentro, em algum lugar.
David correu pela rua, pois a chance de enxergar alguma coisa na escuridão era maior. Se ao menos ele tivesse um isqueiro ou algo assim, tudo seria mais facil. Mas ele não tinha. O odor fétido da cidade se espalhava por todo lado, deixando difícil de respirar. Era como um gás de amoníaco. David sabia que o cheiro era pior no lugar em que os mortos se acumulavam.

Subitamente ele tropeçou um pedaço de lata sem querer e a lata bateu em alguma coisa, fazendo um barulhão danado. O barulho ecoou nas ruas vazias.

“Porra!” – Pensou, jogando-se no chão. Ficou ali, imóvel por algum tempo.
Temeu que o barulho talvez tivesse denunciado sua presença. O frio era cortante. O vento uma constante a lembrar-lhe que sua vida corria risco.
David ficou ouvindo. Não escutou nada.
Percebeu que deitado, com o peito no asfalto, ele conseguia ver fracamente o contorno da cidade escura contra o céu absurdamente estrelado. Ele nunca antes tinha notado o quão estrelado era o céu. Milhões de pequenos pontos perdiam-se no infinito. Era lindo. David contemplou a imensidão do cosmos, que o lembrava o quão insignificante tudo aquilo era.

Ele passou a andar e deitar no chão, de tempos em tempos, para conseguir saber onde estava indo. Subitamente enquanto andava ele escutou um barulho conhecido ao longe. Eram os gemidos. Gemidos cada vez mais altos. E ouviu um grito. David estava no meio da avenida, numa posição vulnerável. Com o silêncio da cidade deserta, o vazio escuro ao seu redor, o som ecoava nos prédios e era difícil determinar de onde vinham certos ruídos. O medo tomou conta dele. O som da horda aumentava. Talvez estivessem vindo em sua direção. David correu com os braços à frente em direção à calçada. Tinha medo de abraçar um zumbi, mas o medo da horda era maior. Bateu com a mão em alguma coisa.
Era fria. Era uma parede. Sentiu com os dedos o metal ondulado da porta do que parecia ser uma garagem. O som da horda era cada vez mais alto. Seu coração parecia querer sair pela boca. Ele estava em pânico.
Ouviu passadas estourando numa poça. O som estava agora bem perto dele.
Correu no escuro com a mão na parede para se guiar. Ia com uma mão na frente, varrendo de um lado a outro, andando rápido, meio abaixado e a outra mão na parede para se guiar. Todos os sentidos focados em sobreviver. Os gemidos vinham atrás dele. Cada vez piores. Cada vez mais altos.
David Carlyle sentiu que talvez as criaturas estivessem sentindo o cheiro dele. Subitamente a mão da parede passou num espaço vazio. David esticou o braço afim de determinar o quão profundo era aquele vão. Encostou em algo gelado. Era um vidro ou algo assim. David forçou um pouco e percebeu que era uma porta de vidro. Talvez a entrada de uma loja. Ele não teve tempo de examinar melhor. Empurrou a porta e jogou-se lá dentro. Em seguida fechou a mesma e forçou com o pé a entrada.
Agora tudo era silêncio. A escuridão era completa. Ele não sabia onde estava, mas pelo menos não era na rua. Ele ainda podia ouvir os sons lá do outro lado.
Lá fora, um ruido assustador de passos, gemidos e gente correndo.
David ficou imóvel. Tinha medo de esbarrar em algo e revelar sua presença, ou pior, despertar qualquer coisa que estivesse ali com ele.
Ficou atento e viu que os sons ficavam mais altos. A horda se aproximava. Ele quis chorar, quis sumir. Acordar daquele pesadelo terrível. Manteve-se deitado no chão. Os pés segurando fortemente a porta de vidro temperado.

Nessa hora, ele viu uma luz passar rápido perto dele. Era uma luz fraca, um facho azulado, que entrou vindo de cima. O facho percorreu rapidamente o interior da loja. Foi uma fração de segundos, mas como ele estava com as pupilas dilatadas para ver no escuro, parecia um sol penetrando no lugar. David inclinou-se e olhou pelo vidro. O que ele viu lá fora era confuso, mas parecia alguém com uma lanterna, correndo pela avenida. Ele levantou-se para ver melhor. Parecia realmente uma pessoa correndo. Não dava pra ver direito quem era, mas ele via perfeitamente os carros quebrados e os destroços da avenida sendo iluminados pela lanterna. Então ele ouviu um tiro e seu coração pareceu que ia pular pela boca. A pessoa saiu correndo, balançando aquele facho de luz. E então surgiu uma grande movimentação na porta da loja.
Aquilo deu um susto medonho em David Carlyle. Parecia uma procissão maldita de corpos decompostos, correndo desconjuntadamente a poucos centímetros de onde ele estava.
David tremia de medo e de frio. Segurava firme a porta. Mentalmente, ele, que não acreditava em Deus começou a rezar e a pedir para que tudo aquilo acabasse logo.

Nessa hora, algo agarrou-se na porta e começou a empurrar. Mas David ficou firme, segurando com as pernas, fazendo a maior força que podia. E então, a coisa do outro lado desistiu de empurrar a porta. O movimento de corpos passando do outro lado gradualmente diminuiu até que o silêncio tornou a reinar absoluto.
Só aí ele percebeu que estava sem respirar fazia um tempão. Quase sem fôlego, caiu de joelhos. Fraco. O braço ferido latejando.
Onde será que ele estava? Que lugar era aquele?

David moveu-se em busca de descobrir. Foi pelo canto da parede, tateando devagar e com cuidado. Sentiu algo fino e gelado. Era metal. Seguiu com a mão e percebeu que era uma poltrona. Continuou tateando. Encostou em algo que lhe pareceu ser uma cortina. Mas era fino demais. Gradualmente ele sentiu com a mão que parecia ser um vestido. Percebeu que era uma roupa pendurada. Talvez aquilo fosse uma lavanderia, ou uma boutique. Não tinha luz. David foi tateando as roupas, tentando perceber qualquer movimento suspeito. Talvez houvesse mais alguma coisa ali e tinha medo de despertar a atenção do “inquilino”.
Sem querer, chutou alguma coisa. E o ambiente todo se iluminou num brilho fantasmagórico. David olhou no chão e viu um celular. Estava com a tela acesa. A tela iluminou tudo ao seu redor. Ele tampou a luz fraca do aparelho com a mão. E se tivesse um zumbi ali? Talvez tivesse visto a luz.
David esperou. Segurou o aparelho contra o peito até que ele apagou.
Ficou parado, escutando. Mas não tinha som.
David abriu o aparelho. A luz tornou a surgir. Ele controlou sua intensidade regulando uma fresta com a palma da mão. Olhou em volta e viu que era um pequeno magazine. Havia araras de roupas caídas por toda parte.
Ele olhou ao redor, aumentando a intensidade da luz. Não havia nenhum zumbi. O ambiente tinha cheiro de poeira, de lixo, mas nada de podre.

David usou a luz para vasculhar a loja em busca de roupas secas. Achou calças de veludo. Eram femininas, mas naquele estagio das coisas, isso pouco importava. Tirou a roupa molhada e vestiu as calças. Couberam nele perfeitamente. Achou uma camisa preta. David Carlyle teve o insight de escolher apenas roupas escuras, que o ajudariam a se ocultar na escuridão. Viu nos fundos da loja um sobretudo de couro preto. Era perfeito. Vestiu as roupas quentes e se agasalhou do frio. Embora o braço ainda latejasse, ardendo como fogo. Aquilo o fez parar de tremer como uma vara verde.
Abriu o celular e viu que não tinha sinal. Na tela, a foto de uma criança com a cara toda melecada de chocolate e o nome “Patrícia”. O aparelho marcava apenas um traço da bateria.

David viu que o aparelho conseguia sintonizar radio e Tv. Ele buscou pelo dial alguma estação de radio, mas só ouviu estática. E não havia anergia para pegar Tv. Fosse o que fosse que tivesse acontecido naquele lugar, o estrago tinha sido gigante.
Pensou se não seria melhor passar a noite na segurança da loja. Com a luz do aparelho, viu que nos fundos, perto do caixa havia uma escada rolante desativada. Ele subiu por ali. Desligou o aparelho e esperou até que seus olhos se acostumassem com a escuridão novamente.

Ao chegar no andar de cima, repetiu a operação com cautela. Ia abrindo o espaço com a mão e iluminando o interior da loja. Não havia nada que lhe parecesse um morto-vivo. Tinha muitas caixas, muita roupa empilhada. Mas então ele escutou um barulho. Tratou de cobrir o celular.
“Tem mais alguém aqui”. – Pensou. ” O lugar não é seguro. Não vai dar pra dormir aqui”. – Constatou David.
Resolveu descer pela a escada rolante e fugir para a rua. Lentamente, ele desceu em direção da parte do térreo. Mas então escutou um barulho lá em baixo. Era um barulho seco, como algo que cai. Foi um ruido rápido, como alguém se escondendo, tentando ocultar sua presença.
Agora ali em baixo, tudo estava quieto.
Ele iluminou a loja de cima, com o celular. Mas mal acendeu o aparelho, viu uma figura, parada no meio da loja. Porém, o celular apagou com um bip fraco. Ele se assustou.
David estava no meio da escada rolante, e tinha acabado de ver uma “coisa” parada no andar de baixo. Num lugar onde não se lembrava de ter visto nada antes.
Talvez uma das criaturas tivesse sentido o cheiro dele e entrado.
Agora ele estava sem saber se subia para o andar de cima onde tinha ouvido um barulho suspeito e o andar abaixo, que poderia ter um zumbi. David pensou em como tinha sido burro de não colocar alguma coisa para bloquear a porta da loja.

Agora era tarde para se culpar pelos erros. David escolheu descer. Por pior que fosse a perspectiva de dar de cara com um morto, pelo menos ali ele teria acesso rápido à saída. O celular já não funcionava mais.
Ele desceu com cuidado. Os ouvidos tentando identificar qualquer som que indicasse perigo. David sentia os pelinhos da nuca se arrepiando. Estava trêmulo. O medo era grande.

Ele andou abaixado, tentando se manter distante do lugar onde viu a figura parada.
Ela estava bem perto da porta. O medo era sufocante.
Arrastou-se até o ponto em que achou suas roupas molhadas. Pela posição em que havia deixado as roupas, ele tinha mentalmente um mapa da parte debaixo da loja. Tentou sentir o cheiro. Não havia cheiro de cadáver ou coisa assim. Mas isso não dizia muita coisa. Talvez fosse um morto fresco.
David buscou coragem do fundo de sua alma para andar na direção da figura. Ele sabia que se fosse um morto, certamente ele gemeria ou se moveria quando tocado. David foi lentamente com a mão na direção de onde deveria estar o corpo. Muito sutilmente se aproximou. Sentiu cabelos.
Todo o seu corpo se contraiu de pavor e tudo lhe dizia para sair, para fugir, mas alguma coisa nele fazia ir em frente. Ele tocou de leve nos cabelos do morto, e estimou que o zumbi estava de costas. Talvez fosse uma vendedora da loja, já morta.
David Planejou o ataque com cuidado. Lentamente posicionou-se para agarrar o morto num mata-leão. Flexionou os joelhos afim de melhorar sua base de apoio. Contou mentalmente até três. Era agora ou nunca.
1…
2…
3!
Agarrou a coisa com toda sua força e caiu no chão sobre ela. David deu um berro de pavor quando a cabeça do morto saiu nas suas mãos. Ele jogou a cabeça no chão e ouviu um “clock!”. A cabeça rolou de lado. Com o tato, ele percebeu que tinha atacado um manequim de fibra de vido.

“Puta, puta, puta que pariu!” – Resmungou arfante. O coração quase saindo pela boca. Mas com o barulho, o ruído no andar de cima tornou-se mais alto e ele ouviu um gemido vindo das escadas.
David levantou-se rapidamente e tateou pela parede até a porta. Abriu com cuidado a porta da loja e sentiu o vento frio da noite trazer de volta o desagradável cheiro de amoníaco e gases da decomposição.
Antes de sair, ele ouvia o som de passos na escada rolante.
Saiu para a rua e fechou com cuidado a porta da loja.
Uma vez na rua, com as roupas secas, já não sentia tanto frio. Ainda estava uma escuridão dos diabos, mas era bem mais claro que o breu da loja.
David correu para o outro lado da rua. Observou contra as estrelas suas opções. Estava perto de um cruzamento de avenida. Seguindo em frente, estava o prédio onde ele tinha visto a luz da vela. Mas ainda era longe.
Não havia sinal da horda e muito menos do infeliz da lanterna.
O problema de fugir da horda é que no desespero de escapar, a vitima acaba não raciocinando para onde deve fugir e entra em armadilhas. Alguns dos mortos da horda vocalizam alto, para que outros mortos venham ao seu encontro. As vítimas nem imaginam que como o som viaja a 340,29 metros por segundo, isso faz com que rapidamente surjam mortos logo à frente. Não demora, o vivo se vê cercado e é subjugado pela multidão de dentes, ossos e músculos putrefatos.
Esta parte é interessante, porque se ele for ferido e escapar, gradualmente acabará contaminado e se tornará um zumbi. Mas se for capturado pela horda, não terá nem tempo pra isso. Será comido inteiro numa fúria canibal horrenda que só terá fim quando restarem apenas os ossos.
A madrugada já ia alta quando ele finalmente chegou na frente do prédio com a luz da vela. David Carlyle pensou em gritar, mas o ambiente indicava que o silêncio era seu melhor amigo.
A portaria estava bloqueada por uma grande barricada. Duas enormes caçambas de lixo. Sacos de areia e entulho bloqueavam a outra entrada.
“É um bunker”. Pensou.
Se havia um lugar naquele bairro onde se esconder de defuntos famintos, aquele parecia um bom lugar. David não conseguia ver bem como entrar no lugar. Olhou à diante, no fim da rua, tinha o que parecia ser um jardim ou praça, onde ele conseguiu ver, à distância, alguma movimentação. Ele sabia que eram os mortos.

O homem andou cautelosamente até o prédio do lado. Ele precisava encontrar uma entrada, algum lugar para se esconder até que o dia amanhecesse. O prédio lateral também estava bloqueado, mas David notou que havia uma tampa de esgoto mal posicionada, bem à frente do prédio. Então ele foi até lá e com algum esforço, conseguiu puxar a pesada tampa de metal para o lado. Ele puxava devagar, para que ela fizesse pouco barulho. Arrastou a tampa com o máximo de cuidado e colocou a cabeça para dentro. Ficou ali, ouvindo e sentindo o bafo quente com cheiro de barata que subia dali de dentro. Apenas som de pingos e o eco de água caindo ao longe. Parecia uma sauna. O ambiente era hostil, mas ele sabia que dificilmente um morto conseguiria entrar naquele local. David sentiu com as pernas o interior do buraco e descobriu as escadas chumbadas na parede de concreto. Lentamente, ele puxou a tampa do esgoto sobre sua cabeça.

Agora a escuridão voltava a ser absoluta. O medo que isso causava era terrível. O som dos pingos e o bafo quente do ambiente atrapalhavam a sentir tanto cheiro dos mortos quanto a ouvir o som de gemidos que eles produziam quando andavam.
Seu maior medo era de cair em um buraco, machucar-se, quebrar um braço ou perna ou até mesmo pior que isso, encontrar um morto parado em meio a escuridão.
Andar pelo esgoto sem luz é insanidade. Ele sabia. Desceu pelo subterrâneo tateando a parede. A parede do esgoto era quente. O sol iluminava fortemente a cidade durante o dia, e o interior das redes de galerias de água e esgoto mantinham durante muito tempo aquele calor aprisionado em meio ao ar quente.

David mentalizou a direção do prédio. Ele pensava que talvez fosse possível entrar seguindo por uma rota subterrânea, direto para a construção. O problema era fazer isso no escuro, e sem uma arma.
Ele desceu pela tubulação, seguindo em frente. O som da água caindo estava ficando cada vez mais forte.
Era um processo lento e perigoso. A cada passo, David jogava seu peso para trás e ia com um braço e uma perna, movendo-os de um lado a outro, em busca de bater em um obstáculo. Quando batia, movia a mão delicadamente pelo mesmo, até conseguir fazer um mapa mental do que era aquilo. às vezes era um cano, outras vezes uma passagem fechada com grade de ferro, em outra, pilares de concreto. Assim foi, durante tanto tempo que parecia não terminar, até que chegou numa pequena câmara. Ela parecia não ter saída. O túnel de águas pluviais levava diretamente até ela. David tentou sentir o cheiro. Havia qualquer coisa de óleo diesel no ar, em meio ao cheiro de poeira e cimento.

David tateou as paredes da câmara. Mediu-a mentalmente e calculou que tinha cerca de dois metros quadrados. Sem saída ou conexão em nenhum dos lados além do caminho por onde ele veio, o mais provável é que a saída fosse por cima. Ele então tratou de tatear as paredes em busca de algum sinal de escada. Mas não achou nada. Era estranho. David não desistiu. Continuou a tatear com as duas mãos pela parede, até que sentiu uma depressão áspera bem na frente de seu rosto. Imediatamente ele soube que haviam arrancado os degraus. David começou a pular com as mãos para cima, em busca de saber se haviam tirado todos os degraus.
E então, a mão dele bateu num ferro. Havia um degrau mais acima. Mas sem enxergar nada, era impossível saber exatamente onde estava o degrau. Ele começou então a pular feito louco, e a cada pulo dava uma segurada para mapear mentalmente a forma do degrau. Não seria nada fácil. O degrau estava a cerca de dois metros de altura.
David concentrou-se imaginou o degrau à sua frente. Retesou os músculos e deu seu melhor salto. Agarrou-se com os dois braços no ferro. O braço esquerdo, ferido pelos mariscos, estava doendo e ardendo muito. Mas usando as pernas, ele empurrou o tronco para cima, buscando encontrar algum outro degrau com a outra mão. Felizmente, ele estava lá. E assim, após algum sacrifício, David conseguiu escalar a tubulação. Chegou até o alto do tubo. Ali estava uma grade vazada. Ele empurrou a grade e com muita força, conseguiu movê-la pelo chão. Estava agora dentro do que parecia uma garagem. O cheiro de combustível era muito forte. Algum carro certamente tinha vazado gasolina.
Como sempre fazia, ele ficou vários minutos apenas escutando, tentando perceber qualquer coisa que indicasse a presença de mortos. Mas não havia nada.
Dessa forma, David Carlyle seguiu em frente, tateando nos carros. Lentamente ele foi de um em um, forçando as maçanetas, na esperança de encontrar algum que estivesse destrancado. Seu medo é que algum carro disparasse o alarme de segurança.
Lá pelo sexto veículo que tentou, a porta abriu.
Foi um alívio. David arrastou-se para dentro do carro e vagarosamente encostou a porta até ouvir o “click”. Ele trancou o veículo e abriu o porta-luvas. Uma fraca luz âmbar iluminou o interior do carro. Era um modelo clássico, bastante espaçoso. No interior do porta-luvas, achou um inesperado prêmio. Uma barra de chocolate. Também estavam ali, uma flanela, um maço de cigarros, um isqueiro, um ioiô, uma chave de fenda e um terço.
David olhou no banco de trás. Ali tinha um casaco esportivo tamanho pequeno. Ele levantou o para-sol do carro na esperança de achar as chaves. Mas não tinha nada.
“Droga, por que que isso sempre funciona nos filmes?” – Pensou.
Pulou para o banco de trás do carro e viu que pressionando o botão do encosto, ele conseguia deitar o banco. Deitou o banco e assim obteve acesso ao porta-malas. Ali no porta-malas, ele achou um pacote pesado, fechado com papel. Removeu com esforço o pacote para a parte da frente do carro. O espaço era estreito e difícil de se mover. Rasgou o invólucro e descobriu que era um pacote de livros de culinária. Voltou-se para o porta-malas, onde conseguiu puxar uma pequena alça, o que revelou o fundo da mala traseira. Sob a tampa da mala, no meio do estepe, estava uma pequena caixa. Tirou a caixa ali de dentro e abriu na luz do porta-luvas. Uma lanterna! Num pacotinho, duas pilhas grandes, alicates, chave de fenda, de roda, etc. Era um kit de emergência.
Rapidamente ele colocou as pilhas na lanterna. Funcionavam perfeitamente.
Em anexo, um pequeno envelope plastico revelou conter esparadrapo, um vidrinho com álcool gel e algumas gazes. Ele tirou o sobretudo, desabotoou a camisa e passou com força o álcool em suas feridas. O braço latejava. Ardeu tanto que a vontade era de gritar. Ele sabia que isso significava uma infecção brava causada pelos mariscos do píer. Cobriu com a gaze. Prendeu o esparadrapo sobre ela e tornou a vestir as roupas.
Ali estava um bom lugar para dormir.
David fechou o porta-luvas, apagando a luz do carro. Meteu-se com cuidado dentro do porta-malas e encostou o banco traseiro, deixando apenas uma greta de respiração. Novamente dentro de uma caixa, na segurança de uma garagem escura, iluminando o interior com a lanterna, ele saboreou o chocolate com volúpia. Nunca encontrara tamanho prazer em toda sua vida.
“Heroína é o caralho, o bom mesmo é chocolate”. Sussurrou.
Carlyle apagou a lanterna e finalmente dormiu.



Quando acordou, ainda estava escuro. No porta-malas era impossível de saber que horas eram. Olhou pela greta e viu uma tênue luz azulada adentrar o carro.
Rapidamente ele afastou o banco. Olhou em volta. A garagem estava quieta. Muitos carros parados. Certamente que o sol lá fora brilhava forte, pois a luz entrava por uma greta fina e horizontal, no alto da parede, clareando a garagem.
David vestiu o sobretudo e saiu do carro. Pegou a lanterna, a faca, a chave de fenda, enfiou tudo nos bolsos do sobretudo. Olhou-se no espelho retrovisor e viu como parecia velho e abatido. A barba por fazer dava-lhe uma aparência tão feia que nem nos seus piores momentos de drogado tinha chegado naquele ponto. Estava sujo, despenteado. Mais parecia um mendigo. Mas estava vivo. O machucado no braço tinha doído a noite inteira. Mas agora já não doía tanto.
David conseguia enxergar perfeitamente e notou como isso fazia toda a diferença. Correu pela garagem até o elevador, mas obviamente estava desligado. Ele tentou acessar a porta da garagem, mas ela estava amarrada com varias voltas de arame.
“Alguém trancou esta porra aqui.” – Pensou.
Lembrou-se do alicate e com ele, começou pacientemente a cortar o arame, afim de liberar a porta.
Quando finalmente conseguiu acessar a escada, percebeu que havia uma montanha de detritos empilhados no caminho, impedindo a subida. Segurando a lanterna com a boca, David removeu os detritos maiores com cuidado, sempre tentando manter o maior silêncio possível. Agora ele sabia e percebia o quanto tinha sido idiota de gritar no meio da cidade.
Enquanto gradualmente removia gaiolas, balaios, sacos de lixo, carrinhos de mercado e latões de lixo, ele pensava em toda a sequencia de acontecimentos que o levou a estar ali, inteiro, e principalmente vivo.

Aquela pessoa desvairada que tinha corrido pelo meio da cidade em plena madrugada, atirando e fugindo da montanha de mortos vivos tinha que ter vindo de algum lugar. Talvez aquela fosse uma das entradas para o local onde estavam os humanos saudáveis.
David liberou a passagem e subiu os degraus. Cada andar estava trancado com uma grossa corrente e cadeado. Ele subiu andar por andar até chegar no ultimo. Estava esbaforido quando chegou o décimo nono andar. Dali para cima, a porta que dava no terraço estava trancada com correntes e cadeados. Para baixo, idem. A única passagem aberta estava no décimo nono andar. Ele abriu com cuidado a porta corta-fogo. Era uma sala enorme, um prédio de escritórios vazio. Mesas com computadores desligados. Um cheiro de cigarro velho empesteava o ambiente. Lentamente ele andou pelo escritório. Numa mão levava a lanterna desligada, já que o sol iluminava o interior do prédio com uma agradável e morna luz amarelada. Na outra, a faca encontrada no carro.

David Carlyle foi até a janela e olhou lá de cima. Na rua, viu ao longe as “estátuas”. Os mortos parados. Eventualmente via um andando com movimentos cambaleantes cruzar a avenida.
Estava morto de sede. Vasculhou tudo em busca de um bebadouro, mas não havia nada. Só encontrou garrafões de água vazios empilhados perto da escada. Andou pelo escritório até achar uma porta que estava escrito “Gerência geral”. A porta estava trancada.

David Meteu a chave de fenda na fechadura e desmontou. Após alguns minutos, forçando a mesma, ela destrancou e o que ele viu foi um lindo frigobar, imaculadamente branco ao lado de uma mesa bonita de vidro. Ali dentro, encontrou latinhas de refrigerantes, água e até umas garrafas de uísque. Bebeu duas garrafas d´água. Sentou na poltrona confortável da empresa e imaginou como seria se tudo estivesse normal. Abriu uma latinha de refrigerante e escutou o indefectível barulhinho do gás escapando pela fresta de alumínio. Ele ficou ali, relaxando, pensando no fax tocando, as secretarias, possivelmente gostosas, andando de cá pra lá e de lá pra cá, com papéis nas mãos. Os jovens entregando cartas e executivos engravatados falando de números em bem decoradas salas de reunião.

Aquela era a imagem mental de um mundo cosmopolita de pessoas do jet-set ao qual sempre desprezou, mas nunca tinha parado para notar o quão importante aquela mediocridade urbana poderia ser.

Mas não havia gente. Só silêncio. David pensou que certamente haveria um bom motivo para aquele andar estar destrancado e os demais lacrados. Soltou um arroto gutural que ecoou pelo andar.
Certamente que aquela sala estava sendo usada por alguém. Dado o posicionamento do prédio e a altura do mesmo, aquele poderia ser um ponto de observação. Se houvesse realmente humanos no prédio do lado, eles estavam chegando ali.
David arrombou a gaveta da mesa do executivo. Ali só tinha papéis inúteis. Num envelope no fundo da gaveta, achou um maço grosso de notas de dinheiro. O suficiente para um bom tempo de gandaia.
“Ah se fosse em outro momento…” Pensou.
David arrombou outra gaveta, encontrou charutos. Na última gaveta, achou um papelzinho com números. Parecia um telefone, mas faltava um dígito. Então, ele percebeu que talvez aquilo não fosse realmente um numero de telefone. David suspeitou quando olhou em frente e viu um belo quadro na parede. Foi até o quadro e atrás dele estava um cofre antigo do tipo embutido.

David Carlyle girou o botão central para os números do papelzinho. Ao fim, sentiu um click. Empurrou a alavanca e abriu o cofre. Ali encontrou vários maços de dinheiro. O suficiente para fazer dele um homem riquíssimo. Dava e sobrava para construir sua vida de astro do rock.
Ao fundo, envolto numa flanela ocre, estava um revólver. E duas caixas de bala.
Ele carregou a arma, jogou as balas nos bolsos do sobretudo e enfiou o revolver na cintura.

David olhou da janela os prédios em frente. Não havia nenhum sinal de movimentação.

Foi andando pelo prédio, até chegar na porta da escada. Ali, perto do corredor do hall dos elevadores, viu uma porta de vidro na parede. Dentro dela, estava um machado.
Ele não pensou duas vezes. Quebrou o vidro e tirou o machado dos bombeiros. Era bem pesado.
David foi até o andar de baixo e mirando bem no cadeado, desferiu uma violenta machadada, que partiu a corrente. Ele abriu a porta e se deparou com uma sala aberta, gigantesca, repleta de mesas. A maioria estava com muita comida em lata estocada. Montanhas de latas de tudo que se poderia imaginar. Pêssego, ervilhas, carne, atum, sardinhas. Garrafões e mais garrafões de água empilhados. Era tanta comida que parecia ter arrombado um mercadinho.
Havia também um numero enorme de armas. Rifles, pistolas, caixas de munição, ele viu pelo chão algumas cápsulas eram tão grandes que pareciam de artilharia antiaérea.
David começou a olhar tudo que tinha. Barracas, cobertores, colchões de acampamento, medicamentos, soro, material de pesca…
Uma mesa estava repleta de caixas de isopor. Dentro delas, estavam vacinas, em outra, pilhas de sacos de chocolate. Ele abriu um saco e começou a comer uma daquelas deliciosas barras.

Estava absorto em abir mais uma embalagem quando escutou um “click” e sentiu uma coisa gelada encostar na nuca.


David ficou parado, não ousou olhar para trás. Ficou ali, olhando a barra de chocolate na mão.Então escutou uma voz vindo das costas, que disse:
- Quem é você, ladrão filho da puta?

David fez menção de olhar para trás, mas a pessoa socou o cano da arma na nuca dele, machucando-o. Antes que David ousasse dizer qualquer coisa, a pessoa tornou a falar.

- O gato comeu sua língua, seu rato? Coloque as mãos onde eu possa ver.

David jogou o chocolate no chão e abriu os braços para cima. A pessoa puxou pela gola do sobretudo, tirando-o da mesa e empurrou contra a parede.

Nisso, ele ouviu a voz de mais duas pessoas. Uma era de uma pessoa mais jovem, e a outra de um senhor.

“Quem é ele, Sam?”


“Já olhamos tudo, Sam. Não tem  ninguém com ele. O cara está sozinho.”

-Quem são vocês? – Perguntou David Carlyle, tentando falar com a cara na parede.

-Essa pergunta é minha, seu folgado. O que você está fazendo aqui? Como entrou aqui? Como encontrou a gente?

David ia começar a responder, quando sentiu que estava sendo revistado.

-Opa! Olha só isso aqui! – Disse o homem mais velho.

-Uau, esse troço abre um buraco numa pessoa! – Disse o jovem.

O tal do Sam parecia o mais forte e o mais valente. Sem dúvida era o líder. Falava pouco, mas sempre num tom autoritário. Os outros pareciam querer agradar ao Sam.

- Olha aqui, Sam… Lanterna, chave de fenda… Alicate… Ei, o que é isso? Seringas. Será remédio?

-Que porra é essa, meu?

-Olha, eu… Eu não… – David tentava se explicar. Sabia que eles tinham achado uma das ampolas da droga do Mr. Big, que ele enfiara nos bolsos.

Sam o virou com violência. E aquela foi a primeira vez que David viu a cara dele. Era um homem forte, alto, completamente careca, com um grande bigodão de motociclista. Ele parecia ter quase dois metros de altura, e usava uma calça jeans surrada e uma camisa florida estilo havaiano.  No meio do peito cabeludo, uns dois cordões de ouro grossos. Usava botas de motociclista. Sam Colocou a ampola bem no meio da cara dele.

-Eu sei que que é isso. Você também sabe, né doidão?  -Disse ele com a ampola tão perto dos olhos de David que o fez ficar vesgo. Depois jogou longe. Então virou-se para o idoso:

-Clarck, puxa a manga da camisa dele aí. Assim, isso, pra trás.

Os homens arrancaram o sobretudo de David. Esticaram-lhe a manga e ficaram olhando o braço de David. As marcas dos picos denunciavam sua natureza de viciado.

-Era só o que faltava, né Sam?

-E agora Sam? O que a gente faz com ele?

Sam estava quieto. Não dizia nada. Apenas olhava para a camisa e para o estado geral de David.

-E então, Sam? – Perguntou o jovem. O mais velho o interrompeu.

-Cala a boca, garoto. Deixa o Sam pensar.

-O que é isso aqui? – Perguntou Sam espetando com o dedo de forma agressiva no braço de David. Aquilo doeu muito.

-Ung… – Gemeu David.

-Puta merda, Sam. Ele foi mordido cara. Ele foi mordido! -Assustou-se o jovem. Agora todos olhavam para David como se estivessem diante de um fantasma. Menos Sam, que segurava o pescoço dele com uma mão. Na outra uma escopeta de cano cerrado. E na cintura dois revólveres.

-Calma garoto. – Depois virou-se para David – E então, arrombado? Você foi mesmo mordido por uma daquelas coisas?

-Não senhor. – Disse David. Ele sabia que a coisa não estava boa. Até aquele momento, David não entendia a razão para todos terem medo dele ter sido mordido. Mas o tom daqueles homens deixava claro que não estavam de brincadeira. A chance dele acabar com um tiro de escopeta na cara era grande. Dessa forma, David se esforçou para explicar tudo.

-Olha, desculpa eu ter invadido. Não vi ninguém, eu procurei e…

-Foi mordido ou não foi, porra?

-Nâo, não senhor. Eu me feri quando estava fugindo daqueles… Daquelas coisas mortas.

-Eles te viram?

-Viram, claro.

-Puta merda! Viram como você entrou aqui?

-Ah, não. Não. Isso não viram não senhor. É que eu entrei de madrugada.

-E como você entrou? Senta ali.  – Apontou Sam com a escopeta para uma cadeira.

David sentou-se e os homens ficaram de pé ao redor dele. Durante um longo tempo ele explicou como acordou dentro de um armário, sem saber onde estava. E como fugiu pela cidade sendo perseguido por um cão bravo e por um monte de gente morta. Contou que entrou pelo esgoto, que dormiu no porta-malas de um carro e que abrira caminho na barricada até chegar ao alto do prédio. Disse aos homens que estava tentando encontrar uma passagem que levasse ao predio do lado, onde ele tinha visto a luz das velas. Nisso ele foi interrompido.

-Porra, Clarck! Tá vendo? Eu não disse? Eu não falei? – Reagiu Sam, socando a mesa.

-Desculpa Sam. Mas… Era o Velório da Mimi. Eu achei que ninguém veria.

-Olha a merda aí. – Disse Sam apontando para David.

O tal Clarck baixou a cabeça como uma criança pega em plena peraltice.

-Foi mal, Sam.

-Tinha mais alguém com você lá? – Interrogou Sam. Puxando David pela camisa.

-Não. Não. Eu estava sozinho… Mas eu não entendo. Até agora eu não sei o que está acontecendo.

O jovem começou a rir. Sam olhou pra ele e ele pareceu nervoso, preocupado. Tentou ficar sério.

-Não sabe? – Questionou Sam.

-Eu… Eu realmente era viciado. Eu estava doido demais pra saber. Eu acordei dentro do armário. E aí já estava tudo assim.

Sam andou em silêncio até a beirada da sala e pegou uma cadeira. Trouxe ela até o lugar onde eles estavam. Virou a cadeira e sentou de frente para o espaldar.

-Olha… Seu nome?

-David Carlyle.

-Olha, David. Nós também não sabemos o que aconteceu. Cada pessoa diz que é uma coisa. Uns dizem que é coisa do governo. Outros que foi uma doença. Tem gente que diz até que isso veio num meteoro. Muita gente diz que é coisa dos illuminatis para reduzir a população do planeta.  Cada um fala e pensa a merda que quiser. Foda-se.  Não estou nem aí.

O que eu sei é o que eu vi. E o que eu vi foi minha casa ser invadida por um bando de gente morta, que pularam pela janela, correram para cima dos meus filhos… Não deu pra fazer nada. Foi de madrugada.  Eu tive que fugir pelo telhado. Larguei mulher e crianças para trás. Eram eles ou eu.

No início eram poucos, mas o socorro demorou a chegar. Em poucos dias eram milhares andando pelas ruas, correndo atrás das pessoas, mordendo e gritando como bichos. As pessoas tentaram se esconder, escapar, mas as estradas não deram conta. As ruas engarrafaram e a cada hora que passava, sobrava menos gente viva e tinha cada vez mais gente morta. Foi quando vieram os helicópteros. Jogaram produtos químicos, mas isso não adiantou. Então Surgiram mais e mais mortos, em um numero tão gigantesco que as ruas se tornaram praças de guerra. O exército desembarcou homens vestindo trajes estranhos. Queimaram carros, metralharam os mortos e os vivos. Mas os mortos eram muitos. Os militares recuaram. Não sei pra onde foram.  Fomos abandonados aqui à nossa própria sorte. Tem gente que diz que é no mundo todo. Mas eu prefiro pensar que exista ainda algum lugar sem essa merda.

A coisa espalhou como uma doença. Não tínhamos para onde ir. Os vivos se esconderam onde puderam, mas gradualmente as comunicações saíram do ar e os abrigos foram se reduzindo. Então começou a guerra pela comida. Agora não sabemos mais quantos são. A cada dia temos menos gente viva e mais gente morta.

-Mas então existem outros. Quantas pessoas tem no seu grupo?

-Nosso grupo é de vinte pessoas.

-E este lugar? – Perguntou David olhando ao redor.

-Aqui é nosso centro de provisões. Nós temos pessoas que se arriscam lá em baixo para abastecer as reservas. Eles trazem a comida pra cá. O prédio do lado é onde está o abrigo. Nós vamos e voltamos com o que é necessário. – Disse mostrando as mochilas enormes, cheias de itens. Cada um deles tinha uma daquelas mochilas de acampamento, paradas ao lado da porta.

-Eu posso me juntar a vocês?  -Perguntou David.

Clarck e o garoto olharam para Sam. Ninguém ousava dizer nada.

-Não. – Sam foi enfático e duro.  – Tudo que não precisamos agora é um viciado para surtar e fragilizar nossa posição.

-Mas eu não tenho pra onde ir. Lá em baixo está cheio de… de…

-Não é problema meu. Você invadiu nossa área. Agora vai dar o fora daqui e procurar seu próprio abrigo. O nosso grupo é fechado. -Respondeu Sam, alisando a escopeta.

-Mas eu posso ser útil, Eu posso ajudar. Eu faço qualquer coisa. Olha, eu não uso mais essas coisas, cara.

Sam sorriu e disse apenas:  – É o que todos os viciados dizem.

David olhou para Clarck e para o jovem. Pediu ajuda.

-Por Favor…

Mas os dois olharam para o chão. Ali, a palavra final era do Sam.

Venha, vamos levar ele lá pra baixo. A gente solta ele lá no esgoto e ele dá no pé. Tu vai dar no pé, né doidão? Ou é isso ou vai conhecer a Deolinda.

Clarck e o garoto começaram a rir.

-Quem?

-A arma. -Sussurrou Clarck, apontando para a escopeta de cano serrado na mão de Sam.

-Ah. Tô ligado. – Disse David, sem graça.

Todos colocaram suas mochilas nas costas. Inclusive o velho.

Os homens desciam pelas escadas. O jovem iluminava com a lanterna o caminho à frente. O idoso ia no fim, iluminando com outra lanterna. No meio, iam David e Sam.

Nisso o som de um radio ecoou nas escadas. Clarck pegou o walkie-talkie. Todos pararam. Havia muita estática, mas era possível entender a comunicação.

-Clarck… – Perguntava a voz mecanizada do aparelho.- … Estão por aí? Câmbio.

-Aqui fala Clark. Positivo, cambio.

-Venham depressa pra cá. Temos uma emergência. Cambio.

Sam tomou o aparelho das mãos do idoso.

-Aqui fala Sam, cambio.

-Oi Sam. Onde vocês estão?

-O que aconteceu? Estamos no depósito. Cambio.

-Tivemos problema com o águia de fogo. Cambio.

- Ele caiu? Cambio.

-Negativo, Sam. Problemas mecânicos. Venham pra cá. E o invasor? Era zumbi? Cambio.

-Negativo. O invasor era humano. Estamos nos livrando dele. Cambio.

-Aguarde um minuto, Sam. Cambio.

Sam e os outros sentaram-se nas escadas. O radio agora apenas chiava a estática, que ecoava nas escadas escuras.

Quando o radio interrompeu a estática, voltou com novas ordens.

-Sam. Está aí? Cambio.

-Positivo.

-Sam, última forma… Não se livre do invasor. Traga-o pra cá. Cambio.

-Porra! – Resmungou Sam baixando o radio. Em seguida tentou argumentar.

-Caleb, está aí? Cambio.

-Positivo Sam. Cambio.

-Caleb, quem disse que era pra levar o invasor? Cambio.

-Ordens do reverendo, Sam. Cambio.

Sam baixou a cabeça. Olhou para os dois que iluminavam os arredores com as lanternas. Ninguém falava nada.

- Caleb, estamos voltando com ele. Cambio. – Disse ele, levantando-se do degrau.

-Positivo, Sam. Cambio desligo.  -Disse o aparelho, retornando ao modo de estática.  Sam desligou o equipamento e entregou-o de volta ao velho.

-Vamos, vocês ouviram a ordem. -Sam apontou com a arma o caminho de volta escada acima.

Os quatro subiram pelas escadas escuras de volta ao depósito. Passaram pelo décimo nono andar e chegaram ao vigésimo. No vigésimo andar, Sam pegou um monte de chaves do bolso. Pediu que o rapaz iluminasse melhor e após alguns minutos encontrou a chave que abria o grosso cadeado.

Era o andar da presidência. O andar era finamente decorado, com mármores verdes, piso de granito preto  e detalhes de madeira escura. Os quatro entraram e trancaram a porta.

Eles foram andando até a copa. Nos fundos da copa, havia uma passagem estreita que dava para um enorme aparelho de ar condicionado industrial da marca Hitashi. O aparelho estava todo empoeirado e com fiações penduradas. Na lateral do aparelho tinha três degraus metálicos que deveriam servir para a manutenção. Eles subiram com cuidado e sobre o enorme equipamento, havia um pequeno vão que dava para o lado de fora do prédio. Ali, diante deles, estava uma ponte improvisada com cordas. A ponte se estendia por uns trinta metros, ligando um predio ao outro.

-Tá de sacanagem que eu vou ter que atravessar nisso aí, né?  – Disse David olhando aquilo.

Todos riram.

-É o único jeito, doidão. – Disse Sam.

O jovem foi o primeiro a se aventurar. Ventava muito naquele dia. A ponte de cordas balançava de um lado para outro.

Mas ele parecia não ter medo, ou talvez nem mesmo tivesse consciência do perigo. Adentrou a ponte e com inacreditável agilidade, e mesmo com a enorme mochila preta amarrada nas costas, venceu o percurso rapidamente, chegando ao outro prédio.  David não gostava muito de altura. Nunca gostou. A altura lhe dava náuseas. Saber que teria que enfrentar uma ponte feita precariamente com cordas ligando dois edifícios, a quase setenta metros de altura não era o que ele considerava uma boa experiência.  (continua...)

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