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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Menu Contos: Zumbi (Parte 05)

Era uma noite de lua, o que facilitava as coisas. Wilson acelerava o jipe em meio a estrada, desviando de carros capotados e batidos. Havia até um avião caído na estrada.
-Temos que dar a volta. Entra por ali, perto daquela mata, depois faremos o retorno e vamos na contra-mão pela rodovia. – Disse David, mostrando o caminho ao jovem.
-Deixa comigo, David!

Enquanto dirigia, David contava a Wilson suas descobertas, o mecanismo do virus e por que os zumbis querem tanto comer carne. Contou a ele sobre Alice e sobre ter escutado que os guardas tentaram abusar dela no ponto zero.
-Ela é boa de briga, David. Esses caras passaram maus bocados.
-Tomara, meu amigo.
-Eu tenho certeza que ela está viva… Vamos achá-la.
-Vamos Wilson, acelera esta joça.

O jipe sumiu na estrada escura, iluminada parcialmente pela fraca luz do luar.
Eventualmente eles paravam o jipe. David abria os vidros e ficava escutando. Mas só havia os barulhos da noite, o coaxar dos sapos, os grilos e as aves da escuridão gritando das copas das árvores.

-Vamos em frente! É em direção ao norte. Olha na bússola aí.
-É pra lá, ó.
-Bora!

O carro já tinha viajado cerca de cem quilômetros quando eles viram faróis vindo na direção contrária na estrada em que estavam.

-Olha lá.
-Eu acho que é um dos caminhões, cara.
-Desliga o farol! Rápido.
Wilson desligou o farol e jogou o carro pelo acostamento, subindo no gramado. Em seguida, desligou o carro.
-Será que eles nos viram?
-Duvido. Certamente não estão esperando nenhum carro por aqui. – Disse David empunhando um fuzil e dando o outro ao Wilson.
Os dois ficaram esperando e momentos depois, um caminhão todo branco passou por eles na estrada.
- Eu aposto com você que esta merda está cheia de zumbis. – Disse Wilson.
-Com certeza. E se a Alice estiver lá?
-Só tem um jeito de saber.
-Pé na tábua!
Wilson acelerou o carro, retornando a estrada. Ele e David combinaram o plano de ação.

Mais à frente, o motorista do caminhão fumava um cigarro de maconha, ouvindo rock no último volume quando notou o jipe emparelhado que buzinava freneticamente.
-Mas que porra é essa? – Perguntou abrindo o vidro.
Do outro lado, no jipe, estavam dois soldados de roupa branca, com as máscaras, fazendo sinal para que o caminhão reduzisse.
O homem do jipe diminuiu o volume. Colocou a cabeça para fora da janela e gritou.
-O que foi?
Os dois soldados não responderam. Apenas abriram fogo contra ele. O motorista levou um tiro na cabeça e o pára-brisa se estilhaçou. O caminhão que viajava em grande velocidade, começou a andar em zigue-zague e finalmente colidiu contra a coluna de um viaduto. Acabou virando de lado na pista. Na pancada, o semi-reboque se partiu, jogando uma centena de corpos na via. Logo atrás, vinha o Hummer.
-Freia! Freia! – Gritava David Carlyle.
Wilson meteu o pé no freio o mais fundo que pôde. O 4X4 derrapou. Eles finalmente conseguiram estancar o veículo a poucos metros do caminhão. Um monte de corpos jazia no asfalto. Mas alguns já estavam levantando.

-Me dá cobertura! – Disse David saltando do carro.
-Ok, mas vai rápido, porra! – Gritou Wilson.
David correu até a cabine do caminhão. Ele estava tentando abrir a porta do caminhão, mas ela estava trancada ou emperrada. Viu o corpo do motorista, o cigarro ainda fumegava no colo dele. A cabeça parecia um pedaço de carne moída. Tinha restos de miolos ainda quentes, espalhados pela cabine inteira.
-Porra, que nojo. – Disse David.
-Anda logo, cara. Os mortos estão vindo. – Gritou Wilson do jipe, enquanto abria fogo contra alguns dos mortos.
-Calma. Estou quase pegando o radio. – Disse David, enquanto se esgueirava pela janela, para alcançar o radio do caminhão. David conseguiu finalmente pegar o radio.

-Alô? Jack? Alô??- Alguém disse no radio.
-Alô, aqui é o Jack! – Disse David.
-Onde você está, Jack?
-Eu… Tive uns problemas aqui. Mas está tudo bem. Onde vocês estão?
-Nós estamos aqui ainda, em Belleview, ué. Que pergunta retardada é essa? Jack, larga esta porra desse cigarro, cara. Eu te disse que isso afeta a memória, porra.
-Ah, é. Hahahaha. Eu me esqueci mesmo… Estou indo lá, levar… A carga.
-Ok, Jack. Vai logo e volta. A cidade está lotada desses bichos. Eles estão especialmente animados com a lua cheia.
-Mais tarde nos falamos. Até mais!
-Ei, Jack?
-Sim?
-Esse barulho aí, são tiros?
-Não, não. É a musica. Vou desligar. – Disse David.

Lá fora o tiro comia solto. Wilson estava atirando nos mortos que se arrastavam na direção da cabine do caminhão.
-Anda logo, David. Porra! A munição está no fim!
David veio correndo, atirando nos mortos.
-Descobriu onde ela está?
-Eles estão em Belleview.
-Onde que é essa merda?
-Vai, dirige. Eu acho que vi uma placa dizendo que Belleview está a uns 50, talvez 60 km mais ao norte.
-Bora! – Disse Wilson, pisando fundo. O jipe acelerou e atropelou um zumbi. A roda do jipe passou sobre a cabeça do defunto, que estourou como uma melancia, jogando miolos para todos os lados.

Algum tempo depois, os dois amigos chegavam na cidade de Belleview. Pararam junto a uma placa enferrujada em que se podia ler “Bem vindo a Belleview” e abaixo dela, alguém havia pixado: “Vá embora!”

David e Wilson desceram do carro e ficaram escutando.
-Ei, eu acho que ouvi os gritos vindo daquela direção.
-Então vamos que vamos! – Disse Wilson.

Algumas ruas à frente, havia um caminhão branco.
-Olha lá. Lá estão eles! – Gritou Wilson, apontando.
-Rápido, entra nesta rua. – Disse David. Wilson estacionou o jipe numa rua lateral.

Do alto-falante no teto do caminhão, uma série de gritos pavorosos ecoava pela cidade.
David e Wilson desceram do carro e viram que aquele som atraía uma multidão de mortos que cambaleavam em busca do som.
-Como vamos fazer, David? – Perguntou Wilson. – Estou com pouca munição, cara.
-Vamos fazer o seguinte: Pega a minha arma e me dá a sua. Eu vou cercar o caminhão, vou liquidar o motorista. Aí nós damos a volta e pegamos o motorista do outro caminhão, na rua em frente.
-Ok. Toma.
Os dois trocaram de armas e correram pelos jardins das casas, tentando passar despercebidos da multidão de zumbis que andava pelas ruas.
Eles chegaram até o caminhão. Ele estava enfiado num beco estreito e sem saída. O baú da carroceria, estava fechado. David fez sinal para que Wilson contornasse o veículo.
Os dois esgueiraram-se entre a parede de tijolos e o caminhão. Deram a volta.
Chegaram na frente do caminhão. Ali estava um homem de barba, usando o macacão branco. Ele parecia um pirata. Tinha até um tapa-olho. O motorista estava vendo coisas num monitor no painel. Ele falava ao radio.
-…Ok Bob, liberar a isca! Estou abrindo a gaiola, câmbio.
David bateu na lataria do caminhão.
-Ei!
-Mas que diabos está acontecendo? A operação já começou. Você estão loucos? – Perguntou o homem, abrindo a porta. – Quem são vocês?
Wilson Metralhou o caminhão pelo outro lado. Matando o motorista.
-Menos um! – Disse ele.
-Pois é! Agora vamos lá para o outro.
-Este foi fácil!
-Esta porra vai ferver de zumbi, cara. – Disse David. Os dois estavam saindo do beco quando Wilson gritou.
-Olha lá! – Wilson apontou para a esquina.
Quando David olhou, ele viu Alice. Ela vinha correndo, esbaforida, e atrás dela, uma multidão de mais de cem mortos ferozes, correndo aos gritos.
-Caraca!
Alice veio correndo direto na direção do caminhão.
-Eles vão alcançar ela, cara! – Gritou Wilson.
-Abre fogo! – Berrou David. Os dois socaram o dedo nas metralhadoras e os tiros pipocaram no ar. Alice se jogou no chão, enquanto as balas espocavam nas cabeças dos zumbis, explodindo cérebros gosmentos no ar.
David arrancou a máscara.
-Alice! Por aqui. – Gritou ele, acenando.
Alice olhou para ele e sorriu. Ela correu na direção de David. Mas subitamente reduziu a velocidade.
-Cuidado, David! – Ela gritou apontando pra ele.
David olhou para trás assustado e viu que uma outra horda de mortos vinha correndo em sentido contrário.
Agora eram os três, que corriam na direção do beco, empurrados por duas hordas. Aquele era um beco sem saída, onde estava o caminhão.
Eles correram até o veículo, mas ele estava trancado. A porta do baú não estava aberta.
-Oh meu Deus! Estamos fodidos! – Berrou Alice.
-Já estou quase sem balas, David. – Gritou Wilson, atirando nos mortos, na tentativa de contê-los.
-As minhas balas acabaram! – Constatou David quando puxou o gatilho e a arma não atirou.
-Corre, vai, por baixo do caminhão! – Gritou Wilson apontando.
Os dois saltaram para debaixo do caminhão, e esgueiraram-se por baixo dos eixos. Os mortos começavam a entrar no beco. David arrastava-se o mais rápido que podia, seguido de Alice. Eles escutavam os gritos de Wilson, disparando os últimos tiros. Finalmente os tiros cessaram, e só restaram os gritos de Wilson.
-Ahhhhhhrg! Nãããããããão* – Os mortos agora saltavam sobre ele com fúria assassina.
-Wilson! Não! – Gritou Alice, chorando. Ela fez menção de voltar.
-Venha, não há nada que possamos fazer. Ele se sacrificou por nós!- Gritou David, puxando a moça pelo braço.
Eles se arrastaram para a frente da carreta. Alice subitamente gritou. Ela olhou para trás e viu que um monte de corpos estavam se arrastando sob o caminhão, vindo atrás deles. mais atrás, uma montanha de defuntos famintos se empilhava ao redor do corpo de Wilson, obstruindo a passagem lateral.
-Não olha pra trás. Vamos. Nós vamos conseguir! Falta pouco!- Disse David, encorajando a moça.
-Alice saiu sob o motor do cavalo mecânico. Ela rapidamente entrou na carreta. Jogou o corpo sem vida do homem que parecia um pirata no chão. Em seguida saltou e bateu a porta. David saiu por baixo da carreta. As mãos brancas quase o alcançando.
Ele estava entrando no caminhão quando uma coisa o puxou pela perna.
-Socorro. Eles me agarraram! – Seus olhos eram de pavor. Alice procurou no painel uma arma, alguma coisa, mas não achou nada.
David olhou para baixo e lá estava um zumbi jovem, que parecia ter menos doze anos, agarrado na perna dele.
David começou a sacudir a perna de todo jeito.
-Sai, filho da puta! Saaaai!
Mas a criatura era feroz e se agarrava com força na perna dele.
Alice ligou o caminhão, engatou a ré do monstro e pisou fundo. A porta do caminhão começou a raspar na parede do beco. Centenas de corpos começaram a ser esmagados. As enormes rodas passavam em cima de carne e ossos produzindo toda sorte de estalos e explosões de sangue escuro que inundaram o beco.
O jovem zumbi agarrado na perna de David começou a ser esmagado contra a parede.
A criatura meteu os dentes na perna dele.
-Aaaaaaaaah! – Gritou David.
Desesperada, Alice acelerou o caminhão de ré e ele entrou com tudo na vitrine da frente de uma loja.Em seguida ela passou a primeira marcha e acelerou. O caminhão patinou as rodas na lama de cadáveres, ossos, sangue e carne pútrida da calçada e em seguida, disparou em direção à avenida.
David puxou as pernas para dentro do caminhão.

-O filho da puta… O filho da puta me mordeu!
-Ah, não. Essa não! – Disse a moça ao volante. Ela sabia o que aquilo significava.


Era uma loura que havia se mudado para o sétimo andar, de frente para a casa dele. Ela era bonita e tinha um irmãozinho pequeno. Certo dia, ela apareceu na varanda usando apenas calcinha e acenou para ele. David mal podia acreditar no seus olhos quando viu aquela loura escultural do sétimo andar só de calcinha na varanda. Era tarde da noite e aquele tinha sido um dia de muito calor. David chegou na varanda e ficou olhando. A moça parecia hipnotizá-lo com o belo movimento dos quadris. Ao fundo ele escutou uma musica abafada que era a que ela estava dançando. Ela não tirava os olhos dele e movendo-se languidamente,  e enfiando os polegares nas laterais da calcinha, começou lentamente a baixá-la…

-Ei! Acorda! – David era violentamente sacudido.

-Hã? Quê? – Ele esfregou os olhos. O dia estava amanhecendo.

-Acho que você estava tendo um pesadelo. – Disse Alice enquanto dirigia o caminhão.

-Ung, minhas costas estão doendo.

-Acho que você está com febre… – Disse ela colocando as costas da mão na testa dele. – Nossa, você está pelando!

-O que aconteceu? Eu nem me lembro de ter dormido…

-Não lembra de nada? Nós estávamos viajando, seguindo para o leste. Você tinha me contado do aperto que passou na base dos homens de branco. Do nada você pegou no sono e eu fiquei com pena de te acordar.

-Ah, sim… Ai… – David esbarrou a perna na poltrona. E uma forte dor surgiu. Ele levantou a barra da calça para olhar melhor o ferimento.

-Como que está? – Perguntou Alice sem desgrudar os olhos da estrada.

Estava uma mancha escura, que já havia se espalhado por mais de cinco centímetros ao redor da área da mordida.

-Pelo menos ele não arrancou o pedaço. – Ele disse tentando sorrir.

-Nossa, está feio! Tá doendo muito?

-Até que não. Só quando aperto assim:  Ai!

-Me sinto mal por isso, David. Sei que você acabou mordido porque foi me ajudar.

-Não pense isso. É besteira. Eu fui mordido porque dei mole.

-Mas se você não tivesse vindo atrás de mim… Não estaria ferido e o Wilson… Pobre Wil. -Alice limpava as lagrimas que teimavam em descer pelo seu rosto.

-Ele fez o que achava que era certo. Se sacrificou por nós.

-É. – Disse ela. Fez se um longo silêncio na cabine do caminhão. Foi Alice que rompeu o silêncio ao perguntar.

-Você acha que eles virão atrás de nós?

-Eu duvido. – Disse David. – Talvez eles até tenham escutado os tiros, mas o caminhão terá sumido, e haverá um monte de restos de corpos de gente e zumbis pelo chão. Eu acharia que o caminhão saiu para a entrega… Eles não tentaram contato pelo radio enquanto eu dormia?

-Eu desliguei o radio.

-Humm. Tudo bem. Nossa, que frio. Estou tremendo.

-É a febre. Nós temos que achar algum abrigo, algum lugar seguro. Temos que trocar esta lata velha.- Disse Alice, olhando pelo retrovisor.

-Concordo. O caminhão é muito grande, ele atrapalha nossa mobilidade. Pode dar uma encostadinha?

-Hã?

-Para aí.

-Ok. – Alice pisou no freio e logo depois o caminhão parou.

David desceu e ela desceu atrás. Eles estavam numa estrada bonita com um bosque ao redor. O sol já brilhava forte no céu, e os passarinhos faziam algazarra nas árvores.  O vento atiçava as flores do campo que nasciam na beira do acostamento.

-Nossa, que lindo. Nem parece que o mundo acabou. – Alice olhava ao redor e se espreguiçava ao sol. -David? Cadê você?

Alice se deu conta que David havia sumido. Ela olhou na cabine do caminhão, mas ele não estava lá.

Alice então deu a volta no veículo enquanto chamava por ele, mas não havia sinal de David.

-David? Onde você está?

Alice ficou olhando ao redor, tentando ver algum sinal de David, quando finalmente viu um pedaço da roupa dele perto de uma árvore, no bosque.

Ela foi até lá.

Ao se aproximar, viu que David estava apoiado numa árvore, com a cabeça baixa. Ele estava tremendo.

-David?

-… – Ele não respondia.

Alice tocou seu ombro devagar.

-Ei.

-David olhou subitamente para ela. Estava pálido. Suava muito e tremia feito uma vara verde. Sua aparência havia piorado substancialmente.

-Estou mal… – Disse ele. Em seguida vomitou.

-Oh, meu Deus! David!

Alice arrastou David Calryle para a beira da estrada.

-Senta aqui. Isso. Assim.

-Alice. Eu acho que estou virando um zumbi.

-Besteira David. Você me disse que eles disseram que você não poderia virar um zumbi.

-Mas e se eles estivessem errados?

-David, eu já vi as pessoas sendo contaminadas com esta merda. Não demora assim. Você não vai virar zumbi, David.

-Olha pra mim, Alice. Estou amarelo, todo meu corpo dói. Estou vomitando sem parar. E agora tudo está rodando. Eu acho que vou virar um zumbi.

-… – Alice não encontrava nada de bom para dizer a ele.

-Alice?

-Sim, David.

-Se eu virar um zumbi, eu quero que você me mate.

-Não fala merda.

-Não é merda, Alice. Eu sei que zumbis não tem controle. Se eu virar irei te atacar. Se eu virar um zumbi, promete que me mata?

-…

-Anda, prometa!

-Ok.

-Promete?

-Sim, David.  – Disse ela olhando para a estrada deserta que sumia no horizonte. Alice respirou fundo e disse:  -Calma, David. Você vai ficar bem. Diga-me a quanto tempo não come nada?

-Nem sei qual foi a última vez que comi.

-Espere aqui que eu vou no caminhão ver se tem alguma coisa.

Alice deixou David sentado no asfalto e foi até o caminhão. Minutos depois ela voltou com um saco de biscoitos.

-Veja, achei uns biscoitos. – Disse ela toda animada. Mas David estava deitado no sol. Parecia desacordado.

-David? David!

Ele parecia desmaiado. Alice o sacudiu violentamente, mas David não acordou.

Alice pegou o corpo desfalecido de David e levou para o caminhão. Ligou o motor e disparou em busca de socorro.

De tempos em tempos, Alice colocava a mão no corpo de David, para ver como ele estava. Se antes ele estava queimando em febre, agora estava frio. Era como se estivesse morto.

Horas depois, o caminhão entrava numa pequena cidade do interior. Os carros capotados e as carcaças esturricadas de veículos que pegaram fogo eram testemunhos do apocalipse zumbi que se abatera sobre aquela cidade. O caminhão andava devagar pelas ruas estreitas.

Cerca de cem metros à frente, Alice viu os mortos parados ao sol.

“São como estátuas de cera”. – Ela pensou.

Alice estacionou o caminhão perto de um mercadinho. As portas estavam arrombadas e uma série de produtos espalhados pela entrada. O mercadinho parecia ter sido saqueado quando a confusão se abateu naquela pequena cidade.

“Esta porra deve estar cheia de mortos. Mas eu preciso entrar lá.” – Pensou Alice. Ela tentou sacudir David, mas ele estava desacordado e frio. Alice mediu o pulso de David, mas era tão lento que mal podia sentir seus batimentos.

Não havia nenhuma arma no caminhão.

Alice olhou cuidadosamente pelos retrovisores, para se certificar de que não havia nenhum morto nas proximidades que pudesse vê-la.

Ela abriu com cuidado a porta e correu para o mercadinho.

Ali dentro tudo estava bagunçado. O balcão estava caído e toda sorte de produtos estavam espalhados pelo chão.

Alice pegou uma sacola e encheu com isotônicos, biscoitos, salsicha em lata, e outros enlatados diversos. Foi até a porta do mercadinho e olhou lá pra fora. Então correu até o caminhão e colocou as sacolas lá dentro.

Tornou a correr até o mercadinho.

“Tem que ter uma arma por aqui em algum lugar” – Pensou.

Ela andou em meio à bagunça até chegar na caixa registradora. Viu num display perto do caixa um kit de facas para churrasco. Pegou um daqueles facões.

Alice adentrou o balcão e começou a procurar nas prateleiras, pra ver se achava um revólver. Ela sabia que geralmente mercadinhos como aquele costumam ter armas de fogo para afugentar os assaltantes de beira de estrada.

Ela estava abaixada sob o balcão quando escutou um barulho de vidro se quebrando.

Alice congelou. Ficou parada apenas escutando.

Lentamente o barulho de passos sobre cacos de vidro ficou mais nítido.

“Droga, algum zumbi entrou aqui!” – Pensou ela.

Alice tentou olhar pela greta do balcão, mas não conseguia ver direito. Ela então colocou a cabeça para fora .

E deu de cara com um zumbi. A criatura era uma velha gorda, com a boca toda cagada de sangue seco.  Mal a velha bateu os olhos em Alice, desatou a gemer e cambaleou na direção dela.

Alice sacou a faca de churrasco e preparou-se para lutar. A velha gorda veio pra cima dela e Alice viu que atrás do balcão não haveria espaço para fugir. Ela tentou saltar o balcão, mas acabou caindo. A velha se aproximou com a boca escancarada, babando. Alice espetou-lhe a faca no bucho e cortou como manteiga. A velha não era muito ágil e as tripas fétidas saíram pelo buraco que Alice abriu com a primeira estocada. A velha saltou sobre ela. A boca nojenta tentando morder o pescoço de Alice. A idosa era pesada. Alice tentava segurar o pescoço da morta com as mãos e tentou enforcar a maldita, que se debatia como louca. Quanto mais a morta se debatia, mais as tripas iam caindo por sobre Alice.

Alice começou a perder as forças. A velha em frenesi não parecia se cansar e enforcar a desgraçada não fazia nenhum efeito.

Então, uma coisa atingiu a cabeça da velha com um fortíssimo impacto, que a fez rolar para o lado.

A velha soltou um gemido gutural. E um segundo impacto esfacelou-lhe a cabeça, afundando-lhe a testa. Alice se assustou ao ver David empunhando um cano de ferro.

-David!

-Você está bem? Esse sangue é seu ou dela?

-È dela.

-Ufa, que bom.

-Como você está?

-Estou sentindo uma enorme dor no corpo. Como uma gripe. E uma vontade danada de vomitar. -Disse ele, apoiando-se no cano de ferro enferrujado, manchado de miolos e sangue. – Acordei no caminhão, e vi que você não estava lá… Resolvi te procurar.

-Ung, essa foi por pouco. – Disse ela enquanto se levantava.

-Temos que arranjar armas de fogo.

-Eu estava justamente tentando fazer isso, mas não achei nenhuma. – Alice apontou a caixa registradora.

- Olhou em baixo?

-Sim. Mas não tem nada. Só uma pochete cheia de tralhas.

-Hummm. Deixa eu ver. – Disse David, indo para trás do balcão. Menos de um minuto depois, ele levantava um revólver.

-Tcharãããnn!

-Onde achou isso?

-Estava sob o banquinho. Eles costumam guardar as armas sob os banquinhos.

-Como sabia disso, David?

-Quando eu era mais novo, já roubei mercadinhos como este e já me botaram para correr com revólveres assim.

-Ah.

-Venha, vamos dar no pé. De onde veio essa aí pode vir mais.

Os dois saíram apressados para o caminhão. Alice ainda recolheu algumas coisas do chão, que jogou num saco plástico.

Eles entraram no caminhão e agora era David que dirigia.

-Você acha que está bem para dirigir, David? -Perguntou Alice, conferindo as coisas na sacola.

-Acho que sim. Só estou um pouco tonto.

-E a febre? Vem cá, deixa eu ver. -Disse ela, colocando a mão na testa de David.

-E aí?

-Parece que melhorou. Graças a Deus!

-Acho que o velhote estava certo, hein? Sabe, acho que estou me sentindo bem melhor agora.

O caminhão acelerou para a estrada, deixando a pequena cidade para trás.

-Ei, olha isso! – Disse Alice, mostrando um Cd do Dire Straits.

-Mete bronca… Gata! – Riu David, apontando o cd player do caminhão.

-Até que o sujeito tinha bom gosto, apesar de ser um filho da puta, né?

A musica tocou em alto volume.

O caminhão percorria estradas vazias entremeadas de bosques. O sistema de audio já tocava Sultans of Swing pela sexta vez quando David notou que Alice estava fazendo guitarrinha imaginária no meio da musica.

-É impossível evitar de fazer guitarrinha imaginária com o Dire Straits, né?

-Nunca consegui evitar. – Disse ela sorrindo como uma criança.

-Sabe tocar guitarra?

-Sempre quis aprender. Mas sabe como é, “a filha do pastor”… Nunca consegui comprar uma.

-Um dia eu te ensino.

-Vou cobrar, hein?

-Pode cobrar!

David e Alice percorreram cerca de cem quilômetros com o caminhão, quando a luz da gasolina acendeu.

-Ops! Olha só. – David mostrou o painel a ela.

-Quanto tempo você ainda acha que temos?

-Hummm. Sei lá. Esse alerta deve informar que dá pra andar um bom pedaço até um posto de combustível.

-Acho que o melhor seria trocar de veículo.

-Também acho. Fica de olho na estrada aí. Se achar algo que preste, me avise.

-Ok…Gato! – Alice ria da piadinha.

Alguns minutos depois, após uma curva na estrada, eles se depararam com um carro jogado no canteiro que separava as duas pistas da auto-estrada. Ele estava todo aberto, com as quatro portas arreganhadas, como se os passageiros tivessem saído correndo. O carro era um modelo SUV, o que indicava que tinha tração 4X4.

-Olha lá aquele! -Alice apontou.

-Humm. Parece promissor. Me dá a arma e passa aqui pro banco do motorista.

-Ok. Cuidado, David.

O caminhão encostou na estrada. David saiu sorrateiramente, empunhando o revólver.

Olhou para os lados e não havia nenhum sinal de movimento.

David correu pelo gramado até o carro. Olhou em volta, e não havia ninguém dentro. A chave ainda estava na ignição.

David percebeu que o carro estava atolado. A lama fresca já tinha solidificado.

-Vamos ver… – Ele disse entrando no veículo.

David ligou o carro e ele parecia preso. Ele ativou o modo de tração e num solavanco, o carro saltou do buraco.

-Aê! – Chorou, mas saiu.

David deu uma olhada no combustível e marcava mais de meio tanque.

-Alice, vem! – Gritou para a moça.

Alice saltou do caminhão com as sacolas.

David acelerou o carro.

-Ah, não. Para, espera. -Disse Alice com um tom de angústia na voz.

-Que foi?

-Dá ré, dá ré!

-Que foi, caralho?

-Eu esqueci o Cd no caminhão.

-Porra, quer me matar de susto?

David jogou a ré e disparou a toda pela estrada, até parar perto do caminhão.

-Vai lá.

Alice saltou do carro e correu até o caminhão. Ela entrou no veículo e apertou o eject no aparelho de som da cabine. O Cd saiu, ela pegou e enfiou no bolso da jaqueta. Alice desceu do caminhão e deu de cara com um zumbi.

Era um tipo estranho, alto com a barba por fazer. Tinha os olhos revirados e vermelhos. O cabelo desengonçado e vestia um macacão sujo de lama, graxa e sangue.

O zumbi estava muito perto dela e agarrou a morena pelos cabelos. Alice deu o melhor soco que pôde na cara do zumbi, que cambaleou para trás, e largou do cabelo dela.

Alice tentou correr, mas o zumbi era mais rápido. Alice corria na direção do carro e o zumbi em seu encalço. Quando ela percebeu o que se passava, Alice saltou de lado. E no segundo seguinte, o SUV 4X4 estourou de ré na cara do zumbi à toda velocidade. O morto foi lançado a cerca de dez metros.  David abriu a porta.

-”Vambora”?

-Nossa, você demorou!

-Pegou o CD?

-Tá aqui. -Disse ela, tirando o disco de dentro do bolso da jaqueta blusa e colocando no Cd player.

David acelerou o carro e os dois viram o zumbi pelo buraco no vidro traseiro. O morto  que já se levantava no meio da estrada  foi ficando para trás até sumir.

-Você tem alguma idéia de que lugar é este? – Perguntou David.

-Não. Nunca vi para esses lados. Mas parece tranquilo.

-Acho que o melhor é seguir por esta estrada aqui, eu vi uma placa ali atrás que diz que mais à frente iremos entrar num parque florestal. Vamos na direção daquelas montanhas lá em baixo.

-Você acha que é seguro?

-Se há um lugar seguro, certamente não é um parque florestal. Ele deve estar cheio de ursos, coiotes, lobos, cobras e toda sorte de criaturas selvagens, mas como é remoto, a chance de ter um zumbi lá é mínima, né?

-É, David. Faz sentido. Até que você não é bobo não, hein?

-Nada, eu sou bobaço. – Riu David.

-E como você está se sentindo?

-Estranho, parece que estou sonhando, sabe? É como se eu fosse acordar a qualquer momento.

-Sonhando? Como sabe que é um sonho e não um pesadelo?

-Simples, porque você está nele. -Disse David olhando nos olhos de Alice por um breve segundo antes de tornar a se concentrar na estrada. A moça enrubesceu.

-Que cantadinha de pedreiro hein David?

-Eu disse que eu era bobaço. – Ele falou sorrindo. Ela riu e olhou pela janela tentando disfarçar a vergonha.

Algumas horas depois, os dois estavam numa clareira, em meio a floresta. Havia uma estreita estrada sem pavimentação, que conduzia ao lago, onde as pessoas acampavam. A floresta crescia rápido, e partes da trilha já estavam bem fechadas pelo mato. O carro passava, arranhando em galhos e gravetos.

Passaram por uma placa que apontava em três direções, onde a estrada se bifurcava. Seguindo reto eles iriam para a administração do parque. À esquerda, o caminho conduziria ao camping e a direita às trilhas.

-Nós vamos para o camping?

-Não, nós vamos parar no estacionamento do camping, lá perto da administração, mas vamos subir pelas trilhas e acampar no pé da montanha, porque quanto mais longe do acesso, mais seguro vai ser.

-Mas por que não vamos direto para as trilhas?

-Deve haver mapas na administração. Se formos de cara para as trilhas poderemos nos perder. É loucura.

-Olha lá. Acho que é aquela construção ali.

A construção era um enorme chalé, todo de madeira. David passou com o carro devagar. Parecia fechado.

Eles contornaram o enorme chalé e estacionaram no acampamento. Havia apenas um carro lá, o que era um bom sinal. David fez sinal para Alice passar para o banco do motorista.

-Fica preparada para fugir. – Disse ele empunhando o revólver.

-Ok.

David Carlyle desceu com a arma em punho e foi até o carro que estava parado na beira do lago. Ele estava vazio. A porta do veículo estava aberta. No interior, havia alguns mapas da região, um pacote grande que David identificou imediatamente que era uma barraca de camping. Havia caixas vazias com balas de rifle. Mas não havia arma.

David identificou também um estojo com material de pesca no porta-malas do carro.

Ele recolheu os mapas, o estojo de pesca e o pacotão da barraca. Enquanto pegava as tralhas, David escutou um assobio estranho.

Ele olhou para trás e não teve tempo de reagir. Foi atingido na cabeça por algo metálico e tudo se apagou.

Quando David abriu os olhos, estava numa cadeira, acorrentado, no interior da administração do Chalé.

-Ung… Minha cabeça.

-Olha lá Don, ele acordou. – Disse uma voz rouca de mulher.

-Tire suas mãos de mim, filho da puta! -David reconheceu aquela voz. Vinha de trás dele. Era a voz de Alice, profundamente aflita.

-Cala a boca aí, Vadia! Ou vai levar um tiro nessa cara bonita. – Disse a outra mulher, fora do ângulo de visão.

Um homem forte que tinha apenas um tufinho de barba sob a boca, mas que ostentava uma bela cicatriz no rosto surgiu. Ele usava uma camisa florida estilo Havaí e tinha costeletas enormes no melhor estilo Elvis Presley. Usava uns óculos escuros de vidro espelhado enorme, tipo Ray Ban. E mascava chiclete de modo vulgar. Ele estava usando calças camufladas escuras, botas de escalar, jaqueta de couro de aviador e boné de baseball. Nada daquilo combinava muito bem, mas a conjuntura da obra lhe conferia um ar ameaçador. O cara se posicionou na frente de David Carlyle, enquanto segurava uma enxada.  (continua...)

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