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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Menu Contos: Zumbi (Parte 09)

-Vem David!
Eles correram pela escuridão do beco. David sabia que em poucos minutos haveria tantos mortos se acotovelando naquele beco que os primeiros iriam virar uma horrenda escada de carne podre para que os outros saltassem o alambrado e viessem atrás deles.
-Temos que achar uma saída. – Gritou Alice, iluminando as portas com a lanterna.
Todas as portas estavam fechadas. Menos a última. Mas a porta se revelou uma espécie de pequeno armário embutido, de 2X2 metros, onde os funcionários da limpeza estocavam material. Havia um monte de vassouras, baldes, escovões, e produtos de limpeza geral.
David e Alice entraram ali. David bateu a porta e usou uma vassoura quebrada ao meio para servir de tranca.
-Isso não vai segurar! – Alice estava assustada. Sentia-se acuada.
David agarrou dois vidros de desinfetante cor de rosa.
-O que você vai fazer com isso?
David apenas abriu o desinfetante e jogou pelas paredes, e pelo chão.
- O que você está fazendo, porra? Precisamos sair daqui. – Ela disse aflita.

Em seguida, ele olhou para cima. O teto era branco. Mas havia um recorte quadrado no alto.
Alice iluminou com a lanterna.
-Acho que é uma passagem, David!
David não disse nada. Ele subiu num carrinho de supermercado que havia ali dentro. Foi quando começaram as primeiras batidas na porta.
-Ai meu Deus! Eles já saltaram o alambrado! – Alice estava desesperada.
David estava agora sobre o carrinho de mercado. Ele agarrou Alice pela cintura e levantou a moça até perto do teto.
A porta de metal estva sendo esmurrada violentamente.
Alice empurrou o recorte do teto e ele levantou, revelando um par de dobradiças que refletiram a luz da lanterna.
Alice iluminou lá pra cima. Havia uma escada embutida na parede. Não dava para ver onde aquilo levava.

Alice agarrou os degraus embutidos na parede e começou a subir. Então ela parou e viu que David não alcançava a escada. A frágil porta metálica do quartinho já começava a ceder. Pelo barulho parecia haver uns dois mil zumbis do lado de fora, urrando, gemendo e babando.
Alice desceu dois degraus e esticou a perna.
-Agarra na minha perna, David.
O zumbi saltou e agarrou na perna dela. Alice fez um esforço descomunal para subir os degraus, com David agarrado em sua perna. Ela sentiu a dor Achou que David fosse deslocar o osso da perna dela. Alice fez todo o esforço que podia para subir de modo que David conseguisse alcançar pelo menos o primeiro degrau.
Quando ele finalmente alcançou, ela sentiu o peso na perna desaparecer como magica.
Alice começou a subir. Ela levava a lanterna amarrada no pulso pela alça.
Olhou para baixo e viu David baixando a tampa do teto.
No segundo seguinte, houve um estrondo e uma confusão de ruídos estranhos.
Os dois ficaram agarrados nas escadas, em silêncio. Apenas ouvindo. A gritaria gradualmente começou a rarear.
Só então Alice entendeu que David havia jogado o desinfetante para mascarar o cheiro deles. Para os zumbis e sua mentalidade inferior a de um macaco com um ano de idade, os dois haviam simplesmente sumido.
Alice começou a subir as escadas. E chegou num platô de laje, que dava acesso a uma porta corta-fogo.
-É uma saída de incêndio. – Ela disse.
David subiu logo atrás.
Os dois passaram pela porta e abriram uma greta com cuidado. Estava tudo escuro. Alice iluminou com a lanterna. Era um corredor que tinha paredes brancas.Eles ficaram algum tempo ouvindo, na esperança de detectar algum ruído que indicasse a presença de mortos no andar, mas não ouviram nada.
David fez sinal para que Alice esperasse. Ela concordou. Ele saiu para o corredor e ela encostou a porta.
Ele andou pelo corredor. Alice podia ouvir os passos dele contra o mármore branco do piso.
Algum tempo depois, ele voltou.
Fez sinal para que ela o seguisse.
Alice saiu da segurança da porta corta-fogo e seguiu David. Ele foi até uma sala que estava aberta. David tomou a lanterna dela e desligou. Foi até a janela e apontou para baixo. Alice olhou lá para baixo. A princípio ela não conseguiu entender o que viu. Parecia água. Então, à medida em que seus olhos se acostumaram com a escuridão, viu que eram milhares de cabeças. O prédio estava cercado por uma multidão sem fim de mortos-vivos.
-Oh, meu Deus!


Já era o terceiro dia que David e Alice estavam naquele prédio. Eles estavam limitados a apenas dois andares, pois uma porta grossa trancada impedia o acesso aos andares superiores.
A única saída possível era uma porta que dava para a escada de serviço, e levava ao saguão, mas certamente o saguão havia sido invadido pelos mortos, pois as laterais eram de vidro.
Por sorte, uma grade fechava a passagem da escada para o saguão. Eles podiam ouvir os mortos gemendo e pisando nos estilhaços de vidro no andar de baixo. O som ecoava pelo interior do prédio.
Alice estava bebendo água na torneira. David continuava sentado numa mesa, com a visão perdida na multidão de corpos que se movia ao redor do prédio em que eles se abrigaram e das ruas adjacentes.

David estava pensativo. Enquanto olhava a paisagem do prédio, refletia sobre a ousadia de Alice nas noites anteriores. Era uma mulher de coragem admirável. Havia enfrentado zumbis, tarados, assassinos de todo tipo, havia sido estuprada, chicoteada, sofrera acidente de carro, mas o maior risco que ela correu e vinha correndo era o de beijá-lo daquele jeito toda noite.

David lembrou-se das palavras do cientista, em que bastaria uma gota de saliva contaminada de zumbi para infectar uma pessoa. Mas como Alice estava imune? David então pensou se o cientista estava mesmo certo ou se estava exagerando. Talvez a mesma característica misteriosa que o tornou um zumbi consciente estivesse impedindo que ele disseminasse a doença. Do contrario era para Alice ter se transformado.  David se perguntava mentalmente se até que ponto não era isso que estava buscando, numa forma inconsciente e bastante peculiar de suicídio.


Alice molhou os cabelos na pia do banheiro. Fazia calor. Ela foi até onde David estava.

-Dá pra ver a antena da radio lá, ó. – Ela disse apontando na janela.
David assentiu com a cabeça. Ele interrompeu seus pensamentos distantes. David passava as horas tentando se manter quieto, sem se mover, pois a dor aumentava terrivelmente a cada dia, e voltava como um fantasma, a assombrar-lhe a alma, a cada movimento.

“Se eu não tivesse comido o neném, a esta hora já teria voado nela”. – Pensou.

-Porra, que saco. Será que eles não vão embora? Não tem nada pra fazer aqui… O calor é de matar. Malditas caixas de vidro. Estamos fodidos, David.

O zumbi continuava quieto, olhando pela janela. Lá em baixo a multidão se acotovelava ao redor do prédio.

“O tempo está contra mim. A cada segundo que passa, eu sou menos humano e mais zumbi. Se continuarmos aqui, eu acabarei sucumbindo”. – Pensou. Alice continuava alheia aos pensamentos dele. Agora ela falava sobre sua teoria dos sobreviventes.
-…Será que eles vão ouvir a sirene? Ela ainda está tocando, tá ouvindo? David? Tá ouvindo? Ei, estou falando com você!
O zumbi olhou pra ela. David já começava a ver as coisas embaçadas e confusas. A voz de Alice de vez em quando parecia sair de dentro de um caixão. A cabeça latejava. Mas a enxaqueca ainda estava suportável.
David pegou o papel do bolso e escreveu:

Estou ouvindo. A dor está aumentando. Precisamos sair daqui.

Mostrou para Alice. Ela concordou em silêncio. Olhou lá para baixo. O numero de zumbis havia diminuído um pouco na última noite.
-Eles estão indo embora, parece. – Ela disse.
David voltou a escrever.

Eles sabem que estamos aqui. Nunca irão abandonar os arredores. Muitos estão saindo para caçar. Mas eles voltam.

-Você sabe o que está dizendo, David. Tem dois dias e noites inteiros que não sai dessa janela. Minha preocupação é a fome.

David olhou pra ela de um jeito estranho.
-Que?
O zumbi não disse nada.
-Ah, tá. A sua, claro. Mas eu também sinto fome, tá lembrado?
David fez sinal de positivo com o polegar. Ele notou o quanto estava trêmulo. Alice também. Ela teve medo e ficou em silêncio. Depois de alguns minutos, ela socou o vidro da janela.

-… Porra, viu?
David tirou os olhos da multidão e olhou pra ela.
-Eu não quero morrer aqui, David. – Ela estava chorando. David sentiu um aperto no peito, pois não podia fazer nada.

A sensação de impotência só cresceu dentro dele. Escreveu no bloco:

Não posso [ilegível] aqui sem fazer nada. Preciso[ilegível] coisa. Vou descer. Você fica. Vou buscar ajuda.

David arrancou a folha e estendeu a mesma para Alice. A moça estava aflita e assustada. Ela relutou mas concordou que David poderia descer, afinal ele já era um zumbi.

David levantou com dificuldade da mesa de frente para a janela em que estava sentado.

Ele foi até a porta. Alice foi até lá com ele.

Alice abraçou David apertado. David sabia que aquele era um abraço de despedida. O ambiente hostil do lado de fora representava grandes perigos. Havia uma possibilidade real de ele não conseguir voltar.

David virou-se e agarrou o rolo da mangueira de incêndio.

Ele desfez o rolo e enrolou a mangueira novamente, enfiando um braço pelo meio do rolo, prendendo como uma corda nos ombros. Alice ficou em silêncio, vendo o corpo trêmulo de David Carlyle Descer os degraus chumbados na parede em direção à escuridão.Antes de desaparecer da vista dela, David fez um sinal de adeus.

-Vá com Deus, meu amor. – Ela deixou escapar quando ele finalmente sumiu na escuridão.

David desceu as escadas tateando. Sentia-se tonto e seus braços pareciam enferrujados. Quando chegou enfim ao último degrau, ele viu a fraca luz surgindo pelo recorte quadrado no forro de gesso. David amarrou fortemente a mangueira de incêndio no degrau. E desenrolou a mesma, até em baixo. David abriu a tampa de acesso ao quartinho. Ele abriu com cuidado uma greta e olhou lá para baixo. Já não havia nenhum zumbi. Os produtos estavam todos bagunçados e os carrinhos retorcidos. Havia vassouras espalhadas pelo chão, poças de desinfetante e baldes capotados para tudo que era canto. David prendeu a ponta da mangueira junto ao recorte no forro. E então saltou lá de cima.

Ele caiu pesadamente no meio da poça de desinfetante. Levantou-se sentindo as pernas doendo.

Cambaleou para fora do beco. David ficou feliz quando viu que os zumbis haviam destruído completamente o alambrado. Era menos um dolorido obstáculo para escalar.

Não tardou para que David cruzasse com o primeiro zumbi. Era uma coisa horrenda, sem a metade do rosto. Ele estava parado junto ao muro. Quando David se aproximou, reticente, estava preparado para soltar um murro na cara daquela coisa e sair correndo. Mas o zumbi sem rosto não fez menção de atacá-lo. Passou ao lado dele, cambaleando e gemendo devagar. Ele babava.

David sentiu-se mais confiante quando o terceiro e o quarto zumbis passaram bem perto dele sem fazer nada. De alguma forma eles sabiam que David não era comida.

David saltou a barreira de concretos e carros empilhados. Do outro lado, estava o mar de zumbis. Devia ter pelo menos uns dois mil deles ali. A metade estava parada, mas muitos mexiam-se devagar indo de um lado para o outro. Todos gemiam baixinho. Era um fedor insuportável de carne pútrida. O som das moscas varejeiras era uma constante.

David parou e olhou para cima. Lá no alto ele viu Alice olhando na janela. Ela acenou para ele. David retribuiu.

Alice estava com o rosto colado na ampla janela de vidro. Ela via David lá em baixo, cambaelando entre os mortos. Daquela distância ele parecia só mais um. Só mais um ser insignificante que desapareceria do mapa frente a primeira dificuldade.

Alice pensou que não poderia desistir. Não poderia esmorecer. David encontraria um jeito de tirar ela dali. Ela não havia lutado tanto para nada. Sabia que seu destino era apenas um: Sobreviver.

Lá em baixo, David passeava pela cidade, olhando as coisas de uma outra perspectiva. Ele ficava parado de vez em quando, tentando recuperar uma migalha qualquer de energia. Estava muito fraco. Zonzo. Seus olhos tendiam a revirar nas órbitas, como os de uma pessoa que passa muito tempo sem dormir. A dor nas pernas aumentava. Ele sentia que a doença estava queimando seus ossos por dentro.

David viu os zumbis agrupados em pequenos bolinhos. Nem a morte podia separar a necessidade humana de se agrupar. Havia alguns mortos sentados na calçada, chupando ossos, tentando extrair migalhas de tutano.

O vento carregava consigo restos de jornal, papeis velhos e toda sorte de detritos. As ruas estavam imundas, repletas de lixos e os ratos passeavam sem a menor preocupação por entre os corpos. Eventualmente David via um zumbi tentando agarrar um rato, mas enquanto os pequenos animais eram ágeis, os zumbis ficavam cada vez mais letárgicos e sonolentos.

David ficou parado junto a um muro apenas olhando a cena. Pensou nos ratos e em como eles sobreviveram aos dinossauros. Como eles se espalharam pelo mundo à bordo de caravelas e navios de madeira e como eles eram superiores por serem sobreviventes natos. A humanidade e toda sua empáfia tecnológica, todo seu dinheiro e poder, havia finalmente dado lugar a uma morte lenta e miserável, espalhada entre os homens por seus próprios pares. E os ratos permaneceriam como já estavam há mil, dez mil, trocentos mil anos…

David desencostou do muro e num esforço enorme cambaleou pela rua. Olhava os prédios, todos destruídos. Centenas de marcas de corpos pelo chão contavam com tristeza a história das pessoas que vendo-se sem saída, quando a doença se espalhou pela cidade, lançaram-se no espaço, na esperança de uma morte súbita e menos sofrida. De uma certa forma, David Carlyle sentia alguma  inveja dos que tiveram a coragem de buscar uma morte instantânea. O fardo de ser um morto consciente, não era para qualquer um.

Enquanto andava sem rumo, tinha os olhos cada vez mais nublados, e olhava em direção às lojas e pelo chão em busca de algo que pudesse ajudá-lo a derrubar a porta do prédio e levar Alice para outros andares.  Procurava também por comida, mas eram poucas as opções. As coisas de comer estavam quase todas mofadas ou repletas de bichos.

Uma coisa chamou sua atenção.

No fim da rua David escutou ecos de gritos. Ele reconhecia aqueles gritos eram os gritos dos zumbis quando localizam uma presa. David forçou seu corpo fragilizado a um esforço além dos limites na tentativa de chegar a esquina e ver o que se passava.

Quando ele chegou na esquina, viu uma horda correndo atrás de dois caras, que estavam numa motocicleta de cross. Eles passaram a mil por hora perto de David. E logo atrás veio uma horda de seis ou sete zumbis que ainda aguentavam correr.

David conseguiu dar uma boa olhada nos dois caras da moto. Um era careca e parecia ter uma bandana azul com  estrelas brancas na cabeça. Usava camiseta branca, e era bem fortão. Ele estava segurando uma Kalashnikov AK 47.

Este era o carona. Na direção da moto de cross estava um outro cara, mais gordo, com um bigode que lembrava o de uma morsa. Ele tinha vários cordões de ouro no pescoço e usava óculos escuros, embora o sol daquela tarde já não estivesse mais tão forte. Os dois passaram e o carona atirou em alguns zumbis que surgiram da rua mais à frente.

O jovem zumbi ficou parado, tentando anotar mentalmente o numero de quadras que a moto percorreu na avenida. Ele contou sete ruas até a moto virar a esquerda.

David Carlyle olhou para trás e viu que havia umas duzentas figuras decrépitas cambaleando, seguindo como uma procissão silenciosa e triste na direção de onde a moto foi.

David se juntou a eles. Todos cambaleavam em silêncio e nenhum parecia demonstrar cansaço ou qualquer coisa que mesmo de longe parecesse um pensamento ou reflexo de humanidade.

“São como bonecos controlados por meros impulsos” – Pensou.

Os zumbis andavam muito devagar. Mas eram incansáveis. David sentia tudo doer terrivelmente. Enquanto andava, cada passo era um martírio. Pensou que talvez fosse boa aquela ausência de consciência. Os zumbis não podiam pensar e por isso não saberiam mensurar a dor. David sentiu-se mais realizado quando finalmente entrou na rua em que a moto virou.

Ele andava lentamente. Contava até trinta a cada novo passo, pois seu corpo parecia ficar mais e mais pesado a cada hora.

Nisso, David escutou um estalo alto. E a cabeça do zumbi que estava a menos de meio metro dele explodiu. O corpo caiu duro como um boneco.

David olhou para cima. Não viu nada. Em seguida, outro estalo. Outro zumbi caiu ao lado dele.

“Sniper!” – Pensou.

David colocou as mãos sobre a cabeça, reuniu toda a força que ainda lhe restava e  correu na direção de uma marquise. De lá ele viu que os zumbis cambaelavam, passando por cima dos zumbis mortos como se eles não estivessem ali. A cada minuto mais e mais disparos e as cabeças de zumbi iam estourando, melando o asfalto.

Então, os tiros cessaram. Restavam agora pouco mais de uma dezena de zumbis andando pela rua. David ouviu o som estranho de uma microfonia.

E o som da voz humana ecoou pelos prédios:

- Ei, você! Ô maluco? Aparece aí!

David teve medo. Era alguém com um megafone. Uma voz de homem.

David andou alguns passos e olhou para cima. Viu que o som do megafone vinha de uma janela aberta num dos prédios.

-Ou!  Alá! Alá!  E aí cara? Tudo beleza?  – Gritou o sujeito com o megafone. Ele estava longe.

David acenou para ele. Alguém que David não conseguiu ver direito, tomou o aparelho do primeiro sujeito e uma voz de homem mais jovem ecoou pela rua:

-Ei, você aí que está se fingindo de zumbi… Tá precisando de alguma coisa cara? Temos um abrigo aqui! Chega mais mermão!

David andou na direção da rua. Seu primeiro impulso foi o de ir na direção do prédio, mas então se conteve. Ele não era humano. Os atiradores estavam pensando que ele era um humano coberto com aquela gosma nojenta de zumbis para evitar ser perseguido. David avançava devagar e pensava sobre como aqueles homens haviam tido aquela ideia. Então ele se lembrou que os zumbis nunca tem o senso de autoproteção.  Um zumbi não se oculta de um atirador, ele anda diretamente para o ponto de visão do atirador. Quando David Carlyle correu para a marquise, os homens devem ter se assustado.

-Ô meu! Pode sair do personagem. – gritou o sujeito do megafone.

David esforçou-se ao limite de sua capacidade para andar mais normalmente. Ele fez um sinal negativo com a mão e virou de costas, na esperança que os homens da janela interpretassem aquilo positivamente. David sabia que se os atiradores desconfiassem que ele era um zumbi, seus miolos estariam no chão e seu rosto viraria carne moída em questão de segundos.

-Tudo bem, meu camarada. Bom passeio! Boa sorte! – Eles gritaram do aparelho.

David estava sozinho na rua. Ele agora estava longe do alcance dos atiradores. David pensou que aquele talvez fosse um bom lugar para trazer Alice. Ele precisava levá-la a um abrigo, onde outros sobreviventes poderiam cuidar dela.  E então ele estaria livre para partir.



No prédio, Alice olhava fixamente pela janela, na esperança de encontrar David andando lá em baixo. Mas tudo que ela via era uma multidão de corpos vestidos com farrapos sujos, cambaleando devagar como baratas tontas.

Subitamente, Alice escutou um barulho na porta. Seu coração quase saiu pela boca com o susto. Alice temeu que os mortos tivessem conseguido invadir o prédio.

Após o primeiro estalo, as trancas foram lentamente sendo abertas, uma a uma. Alice teve certeza que não eram zumbis, dada a dificuldade envolvida em destrancar uma porta. Ela agarrou a caneta e o papel sobre a mesa. Correu e se escondeu atrás da porta da sala. Alice prendeu a respiração quando a dobradiça rangeu preguiçosamente.

A porta do corredor finalmente  se abriu e ela ouviu passos vindo na direção da sala.

David encostou no muro afim de recuperar suas forças.
De onde ele estava, a cerca de uns cem metros, David viu um zumbi que estava atravessando a rua. Era o zumbi de um negro, que andava pesadamente. Ele era magro, esquálido, seus membros pareciam tão finos e frágeis que David tinha a sensação que aquele ser ia se quebrar. Mas não era a magreza de faquir o que mais lhe chamou a atenção, e sim uma “alegoria” que o zumbi carregava nas costas. No meio das costas do zumbi estava um machado. O zumbi estava com o machado cravado nas costas e devido a isso, andava meio curvado para frente.  David Carlyle imediatamente pensou que se conseguisse alcançar aquele zumbi e retirar o machado das costas dele, a arma poderia ser usada para derrubar a porta. Era uma arma de curto alcance e até aquele momento, David não tivera ainda a necessidade de usar uma arma, mas quem sabe?

David largou o muro para trás e avançou na direção do zumbi. Tudo queimando. Todos os seus músculos ardendo e a dor de cabeça começou a chegar no nível insuportável. A tonteira que ele sentia fazia parecer que o mundo estava dançando e girando loucamente. De vez em quando a vista nublava e David só conseguia enxergar borrões.

Por sorte, o zumbi da machadada andava muito devagar. David apertou o passo o quanto pôde e finalmente chegou perto o suficiente para alcançá-lo. David acompanhou o zumbi negro bem de perto para pensar como faria para tirar o machado dele.

Imaginou como aquele machado havia parado ali. Certamente que em algum momento, quando as primeiras barreiras criadas pelas pessoas sãs caíram, algumas delas tentaram se proteger atacando os mortos. Obviamente que a maioria preferia combates com distância entre elas e os mortos. Dada a virulência do ataque de um morto-vivo, era o mais inteligente a fazer. Mas as hordas aumentavam dramaticamente e David imaginou que no desespero para defender suas casas, as pessoas usaram o que havia por perto. O machado quando bem utilizado é uma arma formidável, mas como ele estava enfiado nas costas do zumbi, aquilo provavelmente indicava que a pessoa tentou surpreender a criatura. Talvez um pai, que ao chegar em casa se deparou com o morto comendo um de seus filhos.  Ou ainda, um grupo de amigos, que atacados por uma horda, ao perderem um de seus membros para a multidão tentaram acertar as criaturas, e libertar o amigo ferido. Como o zumbi sempre ataca de frente, era certo que aquela machadada fora dada enquanto ele atacava outra pessoa. Do jeito que o machado se encontrava fincado nas costas do morto-vivo a explicação mais provável é que ao atacar o zumbi com cara de faquir, o sujeito não se precaveu e acabou sendo atacado por outros zumbis, e o machado ficou enterrado naquela criatura decrépita, aquela carcaça tenebrosamente animada, tornando-se parte dela.

David olhou em volta e tudo que viu eram mortos parados ou cambaleando sem rumo pelas ruas da cidade.

O zumbi da machadada finalmente parou. David viu ali a sua oportunidade perfeita. Colocando a perna bem na frente do morto, ele empurrou o zumbi com toda sua força. O sujeito magro caiu de cara no chão com imensa facilidade, expondo o machado para o alto. Ele começou a gemer e espernear no chão. Tentava se levantar. David meteu o pé nas costas dele e agarrou o machado com as duas mãos. Tentou puxar mas a arma estava fortemente agarrada na pele pútrida do morto. David reuniu as forças e tentou mais uma vez. E então o machado se soltou com um som úmido. Estava repleto de larvas e bichos que haviam se ploriferado na ferida. O buraco da machadada nas costas do zumbi era enorme. David segurou o mesmo e afastou-se. O morto ficou no chão, se debatendo, tentando levantar daquele jeito desconjuntado.

David virou as costas e saiu andando com o machado. Ao redor deles, nenhum zumbi parecia se importar com a cena. Todos eles andavam com o olhar perdido e vazio. O rosto sem expressão, à espera da derradeira morte que nunca veio.

David espantou-se de ver como o machado era pesado. Mas depois de alguns minutos compreendeu que não era a arma que tinha um peso fora do comum, e sim ele que estava fraco demais, tão fraco que já mal conseguia andar. Ele estava longe, em meio aos prédios queimados e abandonados da cidade grande. As forças diminuíam rapidamente. David parava para descansar a cada dois passos. O enjôo era uma constante. Seu peito ardia. Começou a se perguntar se conseguiria realmente retornar ao prédio.



Alice estava atrás da porta, com medo. Ouvia os passos sem saber o que esperar. Ela viu pela greta da dobradiça uma pessoa magra, cheia de tatuagens.  O sujeito era um homem e estava sem camisa. Usava apenas uma bermuda com aparência militar, camuflada, e botas de escalar.

O sujeito parecia nervoso. Alice ficou no mesmo lugar prendendo a respiração. Ele veio direto na sala em que ela estava.

Passou por ela sem notar que Alice estava atrás da porta. E então ela pôde dar uma boa olhada nele. Parecia ter uns vinte e oito, talvez trinta anos. Era bem magro. E tinha muitas tatuagens.

Começou a mexer nas gavetas da sala. O sujeito parecia meio maluco. Usava  um óculos de armação preta grande, lentes fundo de garrafa. Ele tinha uma barbinha rala que aumentava o tamanho do queixo. Os cabelos eram poucos, e todos para cima. A testa avançava com entradas pronunciadas do início da calvície dos trinta anos.

Ele ficou mexendo nas gavetas e quando falou sozinho, sua voz era estranhamente frágil. Meio engraçada.

-Porra, tem que estar aqui em algum lugar. Que merda cara! Cadê? Cadê, porra?

Alice ficou olhando para ele. Teve vontade de sair de trás da porta e pedir socorro, mas os lanhos em suas costas ainda ardiam, e eles lhe lembravam a dura lição que ela aprendera: Não confie em humanos. Principalmente nos armados.

E o sujeito magro que futucava nas gavetas tinha justamente uma arma enfiada na bermuda. Alice viu a coronha surgindo nas costas do cara.

Subitamente Alice se dá conta de que ela não está sozinha com o desconhecido naquela sala.

Bem na frente dela, parada, com a língua para fora estava um pequeno cão. Um buldogue francês, gordinho com aquele sorriso debilóide que só os buldogues franceses tem. As orelhas em pé. O animal olhava com os olhos esbugalhados direto para ela. Sem fazer nenhum som. Ele era todo branco e tinha apenas uma pequena mancha preta na cabeça.

Alice temeu que o animal latisse, mas o pequeno cão apenas olhava para ela com uma expressão amistosa. Não emitia nenhum som. Mas subitamente o temperamento do cachorro começou a mudar e ela começou a rosnar baixinho.

Alice colocou o dedo na boca: – Shhhhhh!

Aquilo teve efeito contrário ao que ela esperava. O cão tomou a posição de ataque e começou a latir olhando pra ela.

O sujeito magrelo deu um pulo pra trás. E sacou a arma.

Ele ficou em silêncio, olhando para ela. Alice levantou as mãos, na esperança de não ser baleada ali mesmo.

O cachorro latia freneticamente ao lado do cara armado.

-Calma, calma, moço!

O sujeito estava impávido. Segurava a arma com firmeza. Ele sabia segurar uma arma. Alice notou que o cara fazia a base correta. Segurava a arma com uma mão e a outra firmava o pulso, apoiando-se por baixo da coronha. Os joelhos levemente flexionados. Ele devia ter feito curso de tiro. Finalmente o sujeito tatuado e magro sorriu enigmaticamente e quebrou o silêncio na sala.

-Oi. Como vai você? – Ele disse, de forma mecânica.

-Calma, moço. Baixa isso. Estou desramada.

-Quem é você? O que está fazendo aqui? Como você entrou aqui? E que roupa estranha é essa?- Ele perguntou de uma só vez. O cão continuava a latir esganiçadamente. Então o cara virou-se para o animal e berrou:

-Cala a boca, Lolita!

O pequeno cão estancou ao lado dele, em silêncio.

O sujeito não baixou a arma.

Alice olhou nos olhos do homem tatuado. Ele tinha um olhar incomum.

-Eu entrei pela escada de emergência?

-Impossível. Ela é bloqueada com a grade.  – Ele disse.

-Não essa do fim do corredor, mas uma outra, que tem chumbada na parede perto da escada de emergência.

-Escada? Na parede?

-Isso mesmo. Parece uma rota de fuga ou algo assim, Vai dar dentro do quartinho de limpeza, lá em baixo.

-Poxa vida… Esse prédio é cheio dessas coisas. Achei que tinha isolado totalmente o edifício.Tem mais alguém aqui?

-Não… – Alice hesitou. Ela sabia qual seria a próxima pergunta do magrelo tatuado.

-Está sozinha ou tem mais alguém aqui?

-Sozinha.

-Hummm. Sai daí. Vem mais pra cá. – Ele disse com a arma na mão. O cão voltou a rosnar. Ele olhou para o animal:

-Shhhh! Quieta! – E o cão tornou a se calar.

Alice notou pelo sotaque dele que ele era estrangeiro. Parecia francês ou espanhol. Ele não perguntou, mas ela achou melhor se apresentar.

-Oi, meu nome é Alice.

-Eu sou o Paul. Esta é a Lolita.  Fala oi pra moça, Lolita.  – O cão ficou parado com a expressão de sorriso ingóbil. Aquilo irritou Paul. – Fala oi, porra!

-Pode deixar. Pode deixar, Paul. – Alice apressou-se em dizer.

-Ela é meio mal educada mesmo, viu? Não esquenta não.- Ele disse, apontando a arma para o cão. Imediatamente o animal saiu correndo e escondeu-se debaixo da mesa.

Alice riu. O animal parecia saber que o dono não batia muito bem do pino.

- Paul Cezar. – Ele disse, com o inglês meio macarrônico.  Guardou a arma na cintura e estendeu a mão osssuda para ela.

-Prazer.

-Como vai você?- Ele repetiu.

-Vou bem. Quer dizer, vou mal. Estou acampada aqui tem três dias. Essas coisas me cercaram. Consegui me abrigar aqui, mas a porta lá do final do corredor estava trancada. Não dava pra sair desse andar nem voltar pra rua. Estou morrendo de fome e tenho bebido a água da torneira do banheirinho ali da sala do lado pra me hidratar.

-Nossa. Essa água tem gosto de ferrugem.

-Tem mesmo.

-É que o encanamento aqui é antigo. De ferro. Sabe como é.

-Pois é. Mas o que você estava procurando, Paul?

-Eu estava procurando um ferro de solda que vi por aqui em algum lugar. Você viu?

-Não, não. Eu já vasculhei tudo por aqui em busca de comida. Não tem ferro de solta nesse andar. – Ela disse.

-Droga. Maldição. Deve estar em algum outro lugar então. Tá uma bagunça isso aqui.

-E você? Está com mais alguém? Tem outros sobreviventes aqui com você? – Ela perguntou.

-Não. Só a Lolita.

-Ahm. – Alice concordou, olhando o cão branco, que estava mastigando a perna da mesa. -Mas como você sobrevive aqui?

-Eu… Eu dou meu jeito.  – Ele disse, olhando pela janela. – …Agora entendi porque essas merdas cercaram o prédio. Você trouxe eles pra cá.

-Desculpe.

-Tudo bem. Já passei por isso outras vezes. Eles ficam, por aí uma semana, e depois dão o fora. São meio insistentes.

-É, eu sei. Estou tentando escapar deles tem vários dias.

-Você teve sorte. – Ele disse. E completou: – Quer comer?

-Sim, por favor! Estou faminta.

-Bom, estou acampado lá na cobertura. É uma subidinha meio ingrata, tá?

-Tá… Espere um minuto? Vou no banheiro rapidinho. – Alice falou já fechando a porta. Não esperou que Paul dissesse qualquer coisa.



Longe dali, lá em baixo, a noite caía sobre a cidade. O aspecto assustador e desolado do dia dava lugar a um visual macabro e soturno, com os prédios fracamente iluminados pela luz da lua, projetando suas sombras escuras e opressivas pelas calçadas repletas de ossos, detritos e sangue seco.

No meio da escuridão, David Carlyle  arrastava o machado. Subitamente, uma pequena confusão chamou sua atenção. Havia uma horda de zumbis que corria  pela rua, perseguindo um sujeito.

David levantou-se do estado de penúria, e tentou acompanhar o grupo. Eles eram mais rápidos. David ficou para trás.

O sujeito passou correndo esbaforido, desviando dos zumbis que surgiam de todos os cantos tentando agarrá-lo. Era bastante ágil.

David forçava seus músculos para tentar acompanhar. Certamente os mortos iriam pegá-lo e com sorte, sobraria algum pedaço da carne daquele infeliz para David. O sujeito tinha  uma escopeta na mão e uma mochila nas costas. Ele correu até a entrada de um mercadinho. Os zumbis vinham logo atrás.

David percebeu o que está se passando. Ele correu na direção do mercadinho. Os músculos queimando. A tremedeira quase não permitia que ele se mantivesse de pé. O machado parecia pesar duas toneladas.

Ao invés de seguir direto para a entrada do mercadinho, David entrou no beco lateral. Correu pela escuridão em direção ao pátio dos fundos. Ali ele se escondeu atrás de um enorme latão de lixo.

David escuta os estalos da escopeta disparando. Subitamente a porta mal iluminada pela fraca luz da lua se abre e o sujeito cai. Ele atira várias vezes lá pra dentro. Dispara até a arma estalar, sem balas.

David escutou o eco dos gemidos dos mortos dentro do mercadinho.

David viu o cara, que tinha cabelos loiros encaracolados e barba tirar alguma coisa que pareceu um charuto de dentro do casaco. Em seguida, ele acendeu alguma coisa.

“Porra, tá de sacanagem! O cara vai fumar?” – David vê o sujeito acendendo a coisa. Os zumbis quase o alcançando.

O cara jogou aquilo no interior do mercadinho e meteu o pé na porta, trancando-a. Na paulada, a porta decepou os dedos de um zumbi. Os mortos começaram a bater e forçar a porta. O sujeito usava as costas para forçar a porta a não abrir. Os mortos começaram a desferir pancadas na porta.

-Vai, vai, vai! – O sujeito de barba começou a gritar sozinho do outro lado do pátio. David estava abaixado, escondido perto do latão.

E então aconteceu a explosão. Do outro lado da rua, uma bola de fogo enorme emergiu pela vitrine estourada do mercadinho e pedaços de zumbis voaram para todos os lados.

Na explosão, a porta dos fundos  foi ejetada sobre o cara e ele voou uns dois metros pra trás. A escopeta quicou no chão. E se deu um súbito silêncio. David saiu de trás do latão. O cara louro dos cabelos cacheados estava caído no chão. Ele tinha um belo cachecol ao redor do pescoço, e vestia uma roupa que parecia ser de alpinista. Um casaco grosso, laranja e calças de cor cáqui.

David ergueu o machado e desferiu o golpe sem piedade. Ele sabia que precisava ser rápido. Machadada após machadada, David foi abrindo buracos no casaco, o sangue emergindo em profusão formou uma poça ao redor do corpo. David abaixava-se e mordia com violência as tripas. Bebe o sangue do morto. Sentiu o corpo reagir de imediato. Quanto mais tempo sem a carne, maior o prazer ao ingeri-la.

David comeu com fúria, mastigando as entranhas no corpo ainda quente.

Seus sentidos se aguçaram rapidamente. A tremedeira passou como que por mágica. Ele já podia ouvir ao longe, o som de outros mortos vindo. David Carlyle sabia que a explosão os atrairia.

O cheiro do sangue fresco se espalhou rápido. Os mortos surgiriam em uma gigantesca legião em menos de um minuto.

David levantou-se,  pegou o machado que agora parecia incrivelmente leve. Levantou sobre a cabeça e começou a esquartejar o corpo do “alpinista” como David preferiu pensar naquele infeliz. Enquanto atingia o corpo com as machadadas, David mentalmente pedia perdão por fazer aquilo. Tirou a mochila das costas do sujeito. Espalhou as coisas dela pelo chão. Eram caixas de remédio. David percebeu que ele certamente era um batedor dos sobreviventes, que fez uma incursão mal sucedida para buscar medicamentos.

Os mortos estavam cada vez mais perto. Revigorado, o zumbi já escutava o som deles vindo pelo interior fumegante do mercadinho.

David pegou pedaços de carne do morto e jogou na mochila. Cortou um pedaço da coxa do sujeito com mais machadadas e arrancou grandes nacos de músculo, e o fígado, que jogou na mochila. Os mortos estavam vindo. Não havia mais tempo.

David colocou a mochila do morto nas costas. Pegou o machado e correu para o beco escuro.  Ele sabia que se os mortos sentissem o cheiro da carne fresca na mochila, correriam para cima dele. David fugiu, deixando para trás a montanha de zumbis que pulava sobre o corpo.



Paul, Lolita a e Alice estavam subindo as escadas.

-Pra que o ferro de solda?

-É que eu gosto de eletrônica. Não entendo muito, mas sei alguma coisa. Tenho feito alguns hacks no prédio.

-Hacks?

-Sim. Alterei algumas coisas. Eu vou te mostrara quando chegarmos lá. Só que meu ferro de solda queimou e não esquenta mais. Preciso achar outro para retomar o trabalho.

Dez minutos depois, os três chegaram ao último andar do edifício.

-É aqui?

-Não, é por ali. – Disse Paul, apontando com a lanterna a placa que dizia “Heliporto”.

-Você está acampado no heliporto?

-Não exatamente. Estou acampado ao lado da cisterna. É que em dias de tempo bom, eu vou lá pra cima. Se chove, eu trago tudo aqui pra baixo e fico na sala de reuniões.

Ao chegar no topo do prédio, Alice se deu conta da quantidade enorme de fios e cabos de energia espalhados desordenadamente pelo chão.

-O que é isso?

-Bem… Como eu disse, eu dei umas mexidas aqui no prédio. Veja ali em cima. Tá vendo aquelas placas? São painéis fotovoltaicos. Eles recolhem energia do sol e transformam em energia. O outro lado do prédio, que pega sol a maior parte do dia, é recoberto totalmente com eles.

-Nossa.

-Pois é. O prédio era desses ecologicamente corretos, sabe? Então ele capta também a água da chuva. Na parte interna tem uma sala enorme lotada de grandes baterias. O prédio era usado por duas empresas. Uma de quadrinhos, que era onde eu trabalhava e a outra era uma empresa de computação. Os servidores não podiam ficar sem energia então eles instalaram o sistema redundante que supria a necessidade elétrica de todo o prédio.

-Que legal, Paul.

-Então o que eu fiz foi mexer nos circuitos e separar algumas baterias. Levei um tempão para conseguir, mas olha só que legal… – Paul acionou uma chave elétrica perto de onde estava a cama king size.

Uma série de trinta e oito spots se acenderam numa poderosa luz branca, que subia do alto do prédio para o céu, formando uma espécie de cone de luz que se perdia no infinito.

-Caramba!

-Sabe, estou montando isso aqui para ser resgatado. Sei que os aviões irão passar, e se eles passarem durante a noite eu deixo isso aceso para que eles saibam que tem gente aqui.

-Ah… – Alice assentiu com a cabeça. Ela sabia que Paul era muito jovem, um pouco maluquinho e que as esperanças dele ser resgatado eram fantasias inocentes de quem não viu a barbárie em que o mundo havia se tornado.

- E aqueles freezers ali? – Alice perguntou, indo na direção deles.

Paul saltou na frente dela.

-Ali é onde eu estoco a comida, ué.

-Comida?

-Sim. Antes dessa merda toda começar, nos primeiros dias, ocorreram os saques. Eu não sou bobo nem nada, né?  Achei uma van e invadi um açougue. Roubei toda a carne do açougue. Tem carne congelada aí pra vários meses.O freezer amarelo não está muito bom. O motor dele tem dado umas rateadas, e a carne ficou meio verde, mas ainda dá pra comer. E ali, ó. Ali está o meu fogão. É um fogão elétrico que tinha na copa da diretoria. Eu trouxe pra cá.

E aqui… Tchanããã! É minha televisão de cinquenta polegadas e meu videogame!

-Videogame?

-Sim, eu não vivo sem isso, ué. A Tv tirei da sala de reunião. Não passa nada, então só serve para jogar joguinho. A merda é que eu já zerei todos, então tenho jogado na dificuldade máxima. Minha meta é zerar tudo no hard até o fim da semana que vem.

-Mas não é muito solitário, Paul?

-Sabe, eu me acostumei com a solidão. Além disso, eu tenho a Lolita. Né Lolita? Porra, Lolita! Não come o fio, caralho! Sai. Saaai! Sai sua pilantra!  – Ele gritou, e o cão parou de morder o fio e correu para debaixo da cama.

Paul sentou-se na beira da cama. Olhou a cidade lá fora. Alice sentiu o vento no rosto.

-Nem parece que o mundo acabou, né?

-É… – Respondeu Alice. Ela pensava em David. Onde ele estaria na cidade escura?

-Como você conseguiu chegar aqui? Deve ter sido foda, né?

Alice pensou se contava ou não a verdade sobre David para o sujeito tatuado. Resolveu omitir certos detalhes.

-Eu não estava sozinha.

-Não?

-Não. Eu estava com um… Amigo.

-E ele?

-Ele… foi mordido. Então… Resolveu partir.

-Que merda, cara.- Disse Paul, olhando pra ela.

-É… Que merda. – Alice concordou e tornou a olhar para o céu. A lua brilhava entre as estrelas. Era uma noite sem lua.

Houve um silêncio breve. E Paul tentou animar a moça.

-Mas sabe de uma coisa? Minha vida até que melhorou com essa merda aí fora.

-Melhorou? Tá brincando, né?

-Não… Não. Minha vida melhorou mesmo depois de que o mundo acabou. Sabe, eu era colorista… Ganhava mal pra caramba. Eu morava num muquifo apertado e quente pra caralho… Agora veja só. Eu moro no alto de um dos prédios mais altos da cidade com vista de 360 graus!  Jogo videogame o dia todo… E não tenho mais patrão, nem prazos. Quando estou com saco eu fico aqui desenhando, escuto musica… Tomo um banho…

-Banho? Você disse banho? – Alice abriu um sorriso.

-Isso mesmo, moça. Banho… E o melhor, é quente!

-Ah, tá brincando! – Ela disse, sorrindo.

-Sabia que você tem um sorriso lindo?

-Obrigada. – Ela agradeceu sem graça. O garoto parecia gente boa.

-Mas então quer dizer que a Lolita é sua única família?

-Agora é, né? – Disse ele brincando de agarrar a boca do cachorro que tentava lamber a cara dele.

Houve um minuto de silêncio. Alice perguntou:

-Mas e as pessoas que trabalhavam aqui com você?

-Quando a merda começou, eu estava aqui com a Lolita. Eu sempre ficava depois do expediente, porque o ar condicionado daqui era bom, e o meu quarto e sala onde eu morava era muito quente. Além disso, eu ganhava uma graninha extra. Então eu estava aqui na madrugada em que a confusão se espalhou.

-Sozinho no prédio?

-Não, eu estava com o Ney, o cara da xerox. O Ney era um brother meu lá do Brasil. A gente veio junto.

-E cadê ele?

-Ah, é uma longa história.

-Acho que nós temos tempo. – Alice riu.

Paul empurrou o cão para longe da cama.

-Sai Lolita. Esse lençol é de algodão egípcio, sabia?

-Não quer falar sobre o Ney?

-Eu falo. Tudo bem. Curiosa você, hein meu? Bom, o Ney estava aqui comigo e no prédio lá em baixo estavam os seguranças e os caras do suporte da empresa de computação. Era pouca gente. Umas vinte no total. Quando começou a confusão, a maioria foi embora, porque tinham medo dos saques. As pessoas nem imaginavam a merda que ia dar. No início, todo mundo só se preocupava com as coisas mais banais, como roubarem os carros delas, invadirem as casas, comprar comida para estocar ou proteger as crianças. Foi embora quase todo mundo.

O Rony, que era o vigia perguntou se eu e o Ney íamos embora, mas nós resolvemos ficar. Então o Rony trancou o prédio. E nós ficamos alguns dias aqui. A coisa foi só piorando e quando os canais saíram do ar, só nos restou aquele radio ali, ó. Ele é de ondas curtas, e a gente usava para saber notícias, mas gradualmente as estações acabaram. A luz falhou logo no dia seguinte e não voltou mais. Eu e o Ney começamos a mexer na aparelhagem do prédio para desviar a energia das salas aqui pra cima. Ele que me ajudou a trazer os freezeres, a Tv e o fogão…

No início a gente achou que ia levar um mês, mas então começamos a ver que a coisa estava ficando cada vez mais séria. Os helicópteros militares jogaram bombas, tanques andavam atirando pelas ruas. E tinha cada vez mais gente morta andando lá em baixo… – Enquanto Paul contava, Alice ouvia em silêncio. Ela lembrava da madrugada em que a casa tinha sido invadida. A fuga, a confusão, as pessoas gritando na escuridão…

- E como vocês aguentaram tanto tempo aqui?

-Ah, essa foi a parte fácil. Aqui é bem melhor que lá em baixo, né? Mas teve uns momentos bem ruins. Muitas pessoas tentaram entrar no prédio, buscando refúgio. Mas nós não deixamos elas entrarem.

-Que isso, cara!

-Não, você não faz ideia no que as pessoas se transformaram, Alice. Agora é cada um por si. Nós tínhamos medo que as pessoas entrassem aqui e nos expulsassem. Trazer gente de fora era um risco porque elas podiam estar contaminadas. O Ney era chato pra caramba com isso. Se ele estivesse aqui ele teria te matado lá mesmo, no quinto andar.

-Mas e o tal Ney? O que aconteceu?

- Porra… É triste pra caralho. A gente descobriu que tinha uma saída pela garagem. Então de vez em quando nós fazíamos umas saídas rápidas, pra pegar comida, e coisas úteis, saca?

-Lençol de algodão egípcio, né?

-Isso. Essas coisas.Numa dessas incursões lá fora, eu e o Ney ajudamos umas moças que estavam presas num elevador de uma loja de departamentos. Coitadas. O Ney não queria, mas eu insisti para trazermos elas com a gente. Então onde estavam dois acabou ficando quatro. Só que uma delas era muito gata. E a outra era meio assim, mais ou menos, sabe?

-E… – Falou Alice, curiosa para ouvir a história.

-E aí, nós ficamos aqui uns quatro dias, só que elas eram meio frescas, sabe?

-Frescas?

-É… Tipo, nada podia. Cheias de vergonha e tal.

-Vergonha?

-É, tipo… A gente queria que elas dormissem peladas aqui com a gente, mas elas não ficavam peladas nem pelo cacete.

-… – Alice estava espantada vendo Paul explicar com naturalidade sua ideologia de vida. Ele continuou:

-Então, depois de muito insistir, o Ney perdeu a cabeça. Ele agarrou a mais gatinha e tentou fazer sexo à força com ela.

-E você?

-Eu… Eu estava… Eu estava tomando banho. Sei lá. Eu só corri pra cá quando ouvi os tiros.

-Tiros?

-Pois é. A outra moça, uma tal de Caroline, ela achou uma das armas que pegamos na sala da segurança. Ela meteu tiro do Ney. Só que acabou matando também a Samantha.

Eu me assustei e quando ela apontou a arma pra mim, não pensei duas vezes e matei a Caroline.

-Nossa que tragédia. Coitadas.

-Coitadas? Coitado do Ney, porra! O cara tem suas necessidades, pô. A mulher quer vir pra cá, quer ter segurança, banho quente, comida boa, vista sensacional, e não dar nada em troca? Vai se foder, né?

Alice ficou em silêncio. Ela sabia que aquilo era um recado.

-Eu posso tomar um banho então? – Ela perguntou.

Pode, claro. O chuveiro fica no andar de baixo, no banheiro da diretoria. Vem comigo. Tem toalha e roupão lá.Vem comigo. É por aqui. Vem, Lolita.



David se esgueirava pelos cantos escuros, sempre tentado observar nos jornais que voavam pelas ruas qual a direção do vento. Ele temia que os mortos sentissem o cheiro da carne na mochila. Sua força voltava rapidamente.

David encontrou uma loja de produtos baratos “made in china”. Ao loado dela, havia uma espécie de delicatessen, toda destruída. David se aproximou.Procurou comida no meio dos entulhos e detritos. Achou carne enlatada, vulgo SPAM.

David pegou algumas latas que encontrou pelo chão e colocou na mochila. Então ele viu que no fim da rua tinham uns três zumbis que vinham rápido na direção dele.

“Merda! Eles sentiram o cheiro!” – Pensou.

David colocou a mochila nas costas. Pensou em correr, mas sabia que se corresse, os zumbis iriam disparara a gritar e isso atrairia uma turba cada vez maior. David então cambaleou como se fosse um zumbi para dentro da delicatessen. E esperou.

O primeiro zumbi a chegar veio farejando como um cão. David subiu no balcão, Levantou alto o machado e desferiu um golpe só, que partiu o crânio do zumbi em duas partes. O morto caiu no chão no ato. David ergueu o machado, O segundo zumbi se aproximava, acompanhado de um gordão fedorento. Era um zumbi mulher com os cabelos todos para o alto, como se tivesse levado um susto.  David acertou-lhe um golpe e a cabeça de cabeços espetados caiu no chão. O corpo sem cabeça ainda deu dois passos antes de tombar sobre o corpo do primeiro zumbi que teve o rosto dividido em dois.

Mas antes que David pudesse se preparar para uma nova machadada, gordão pulou sobre ele, e o derrubou. Era uma massa pesada de carne podre e banha. David tentou lutar, mas o zumbi era forte demais. Estava cheirando David em busca da carne. David rolou no chão da loja tentando manter a mochila contra o chão. Ao serem pressionados, os órgãos liberaram grande quantidade de sangue. O sangue começou a escorrer da mochila e aquilo deixou o gordão num frenesi maior ainda.

David tateou com a mão em busca de alguma coisa. Sentiu a boca gelada de uma garrafa. Ele agarrou a carraga e acertou uma garrafada na cara do gordão, que caiu de lado, embebido em champanhe. David aproveitou para saltar do chão. O gordão estava se levantando, mas como era muito gordo, tinha dificuldade. David agarrou o machado do chão e acertou o gordão bem no meio da testa, abrindo um talho de onde escorreu um sangue escuro. O gordão caiu de braços abertos no chão da loja.

David foi até a porta e viu que lá do final da rua, vinham mais e mais zumbis na direção da loja.

“Maldição! O sangue está atraindo. ”

David correu para os fundos da loja e meteu o machado na porta. Na segunda machadada a porta cedeu. David correu para os fundos e saltou uma cerca de madeira. Correu pelo estacionamento de um comércio e chegou na outra rua. Ele sabia que não poderia perder tempo, ou os mortos iriam alcançá-lo.

“Preciso dar o fora daqui e chegar no prédio logo.” – Pensou.

David correu pelas ruas, tentando ser o mais ágil e discreto possível.



-Então aqui é o nosso banheiro master… – Disse Paul, orgulhoso apresentando o banheiro lindíssimo todo em mármore branco e verde.

-É lindo mesmo. – Respondeu Alice olhando em volta.

-O chuveiro é aqui. E este mármore, dizem que vem lá da África, sabia? Ah, aqui está o roupão, e as toalhas, tá?

-Tudo bem, obrigado. – Ela disse, mas o sujeito não saiu do banheiro. Isso forçou Alice a repetir.

-Ok, obrigado. Agora pode ir.

-… – Ele não disse nada. Ficou olhando para ela com um olhar estranho. Então ele disse:

- Por uma questão de segurança, aqui não tomamos banho sozinhos. Eu tenho que ficar aqui. – Disse, sacando a arma das costas da bermuda.

Alice começou a sentir medo. Pensou novamente em David. Havia muitas horas que ele tinha saído. Será que conseguiu ajuda? Será que ainda estava vivo? Será que voltaria?

-Vai, Alice. Pode tirar a roupa! – Disse Paul, olhando pra ela.

Alice olhou a arma e viu que o sujeito esquálido estava falando sério. Lembrou-se dos malucos na cabana. Da violência que sofrera.

Então ela começou a tirar a roupa. Tirou o vestido de bolinhas da fazendeira ruiva. Tirou as botas e ficou nua em pelo, na frente do sujeito. Ela notou o volume na bermuda dele. Paul estava tendo uma ereção só de olhar pra ela.

-Nossa, como você é… Gostosa…  – Ele disse. – Posso tomar banho com você?

-Não.

-Ah, qual é!? Um banhozinho inocente, pô.

-Ei, garoto, olha bem pra minha cara. Vê se eu estou brincando. A resposta é : Não!  – Alice estava séria.

Paul parecia desolado.

-Porra, mais uma fresca. – Ele disse checando acintosamente as balas na arma. Alice tremeu. Precisava ganhar tempo.

-Olha Paul, você parece um cara legal. Mas não sabe chegar em mulher. Vê se é assim que se chega? … Mal me conheceu quer tomar banho comigo? Qual é? E a conquista? Tá pensando que eu sou o que? Uma piranha de estrada?

Paul ficou olhando pra ela em silêncio por alguns instantes. Ajeitou os grossos óculos com o dedo.

-Foi mal. – Ele disse.

Alice não disse nada. Apenas abriu o chuveiro e começou a tomar banho. Havia sabonete e shampoo sobre a mureta da parede.

Paul assistiu Alice tomando banho por aluns minutos e saiu do banheiro.

Alice viu que estava sozinha e chorou baixinho sob a água morna. Onde estaria David?

Minutos depois, quando Alice saiu do banho, surpreendeu-se ao chegar na cobertura e ver uma mesa coberta com um lençol e sobre ele, um jantar à luz de velas. Paul estava com camisa xadrez marrom, bebendo um vinho tinto.

-Nossa!

-Bem, vamos ter um jantar romântico. – Ele disse.  – Vou preparar para você minha especialidade…

-E o que é? -Alice perguntou curiosa, enquanto ajeitava a toalha na cabeça. Ela vestia o roupão branco que Paul havia dado a ela, já que o vestido de bolinhas estava todo sujo suado e rasgado.

-Bife. – Ele disse com um sorriso no rosto.

Alice olhou para a bancada ao lado do fogão elétrico. Ali estava um belo pedaço de carne, que Paul cortou com cuidado, retirando camadas de gordura amarela.

Ele pegou num armário um pote laranja de tampa amarela e começou a derramar o pó marrom sobre a carne.

Alice assistia sentada à mesa com a taça de vinho na mão.

-Que isso?

-Tempero.

-Você não está colocando muito?

-Nada… É só pra dar um sabor especial. É o segredo do meu sucesso, né Lolita?- Ele disse. Em seguida, pegou uma garrafa enorme de óleo e derramou na frigideira que estava sobre o fogão. A gordura estalou quando ele colocou os grossos bifes na panela.

O cheiro bom da fritura inundou a cobertura. Ventava pouco e a lua acentuava o clima romântico do jantar.

Alice foi com a taça de vinho na mão até a beirada. Olhou lá para baixo. Viu a multidão de zumbis andando como formiguinhas, e os prédios escuros ao redor deles. Alice ficou pensando em David. Onde ele estaria? Talvez estivesse lá em baixo. Será que voltaria? Começou a pensar em alternativas para caso David não voltasse. Ela teria de ficar ali com o sujeito magrelo. Era o único jeito. Certamente ele iria querer usufruir do corpo dela. Mas não haveria outra alternativa… Sem arma, a mercê do destino, ela precisaria sobreviver, e estava disposta a fazer o que quer que fosse preciso para isso. Até se tornar mulher daquele desenhista  estranho.

-O jantar está servido! – Ele disse.

Alice virou-se e viu uma caçarola com dois enormes e grossos bifes dentro.

Ela foi até a cadeira e sentou-se. Paul deu a volta na mesa e sentou-se do outro lado.

-Mais vinho?

-Sim, por favor. – Ela disse. Estava disposta a tomar um pileque, na tentativa de dissuadir o jovem de suas intenções sexuais.

Paul encheu a taça da moça com o vinho.

Ele cortou um belo pedaço de carne sangrenta, passou no creme amarelado no canto do prato e enfiou na boca, mastigando com satisfação.

-hummmm. Delícia – Falou de boca cheia.

Alice partiu a carne. Estava excessivamente mal passada para o padrão dela. Levou um pedaço pequeno à boca. Havia tanto tempero que ela mal sentia o gosto. Ela mastigou duas vezes e engoliu. O sabor era desagradável. Amargo demais.

-Que tal? Ele perguntou tomando um gole de vinho.

-Bom… – Alice disse tentando disfarçar no nojo. Certamente a carne havia apodrecido e talvez por isso, ele estivesse colocando tanto tempero tentando disfarçar.

Após alguns minutos, Paul notou o comportamento de Alice.

-Não gostou da carne, né? – Ele perguntou chateado.

-É que… Bem… Eu não como carne, sabe? Sou vegetariana…

-Ah, pode falar. Eu sei que não sou um bom cozinheiro.

Alice tentou mudar de assunto.

-Então quer dizer que você conseguiu criar esta ilha de diversão com energia solar! Você é bem esperto hein Paul?

-É… Mas quem era fera mesmo era o Ney. O Ney tinha feito um curso de eletrônica, e lá no Brasil ele consertava eletrodomésticos. Ele era meu vizinho em São Paulo… – Paul contava animado sobre a vida dele na cidade de São Paulo. Alice não prestava a mínima atenção. Pensava apenas em David. Tomava grandes quantidades de vinho.

Paul falava animadamente sobre vários assuntos, e Alice apenas concordava e tomava mais e mais vinho.

Já havia três garrafas vazias sobre a mesa, quando Paul notou a estratégia da morena.

Paul levantou-se foi até onde Alice estava. Ela agarrou a taça e bebeu sofregamente. Paul abaixou-se e beijou o pescoço dela.

-Ai, para, Paul. Espera! – Ela disse meio zonza.

-Você é um tesão. – Ele disse, tentando enfiar a mão por dentro do roupão dela.

-Ai, me solta! Ung. – Alice tentava evitar, mas Paul estava sóbrio.

Alice tentou agarrar a arma na cintura dele, mas Paul percebeu e  foi mais rápido. Empurrou a moça, que tombou da cadeira no chão.

-Que porra é essa? Quer pegar a arma é?

Alice não disse nada. Tentou levantar.

Paul apontou a arma pra ela. Alice sentiu que ele ia atirar.

-Não! Por favor!  – Ela disse, abrindo o roupão.

Ela agora estava nua em pelo na frente dele. Ela tentou sorrir. Mas Paul parecia bravo com a tentativa de pegar a arma dele.

-Deita na cama, vadia! – Ele apontou a cama com a arma. Era uma cama king size, colocada de frente para a enorme televisão que estava apoiada num caixote de madeira. Os lençóis eram branquíssimos.

Alice teve medo. Não obedeceu.

-Deita lá, porra! – Ele gritou.

Mas Alice não reagiu. Estava com medo se ser violentada novamente.

Paul mostrou que não estava brincando. Apontou a arma para a cama e deu um tiro.

Alice deu um pulo de susto.

Jogou o roupão no chão e foi até a cama.

-Deita aí.- Ele disse.

Ela obedeceu.  (continua...)

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