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sábado, 26 de julho de 2014

Menu Contos: Zumbi (Parte 01)

Ola amigos !! Para aqueles que gostam de uma boa leitura, segue um conto muito bom de um autor chamado Philipe do blog Mundo Gump que alias recomendo muito, ótimos contos, vou dividir esse conto e partes poque é muito extenso mas quando começamos a ler na da para parar. 

ZUMBI

No meio da escuridão, só resta o silêncio.
Ao longe, gritos ecoam entre os carros capotados e os pedaços de carne repletos de moscas varejeiras. Parado ao lado de um alambrado enferrujado, nos fundos de um estacionamento, está um zumbi. Como todo zumbi, ele tem os olhos revirados e parece fitar o vazio, com sua mente sem pensamentos. Aquele zumbi foi alguém importante. Eu não sei o nome dele, nem o que ele fazia, mas sei que era importante, porque é o único zumbi com colar de ouro e diamantes naquela região. A julgar pelo estilo de colar, daria para apostar que foi um rapper ou gangster urbano dos subúrbios. O casaco chique deve ter-lhe custado uma pequena fortuna, e agora está rasgado e manchado de sangue e lama.
E é apenas isso. Um zumbi parado, como uma estátua, ao lado do alambrado.

Ele só parece recobrar os sentidos quando surge alguém batendo no alambrado atrás dele. Lentamente, como alguém que acorda com ressaca depois de uma festa de arromba, o zumbi ex-rapper vira-se. Do outro lado do alambrado salta um jovem, que deve ter mais ou menos uns dezessete anos. Ele está apavorado e a julgar pelo seu terror, ainda não foi infectado.

Do outro lado do alambrado, gemidos horrendos se fazem ouvir. É a horda.
É estranho falar da horda para alguém que nem faz ideia do que venha a ser um zumbi. A horda é mais que uma mera tendência primitiva de correr e atacar uma presa. Você pode pensar na horda como uma espécie de anarquia selvagem, onde um monte de corpos em frenesi corre atrás de carne fresca. Este é o ponto de vista da carne fresca.
Mas eu vejo a horda de uma outra maneira. Note que quando o ser humano evoluiu, lá atrás, milhões de anos antes, um pequeno animal sofreu uma mutação. Essa mutação programava o primitivo cérebro do bichinho com um comando simples: “Procure os iguais a você e junte-se a eles”.
Era só pra ser mais um erro da natureza, mas aquilo se revelou uma chave secreta que permitiu ao bicho que daria origem ao ser humano milhões de anos depois, se agrupar para se defender, para ocupar, para ampliar suas chances de caça num ambiente hostil e de obtenção de comida.
Então é engraçado olhar esse bando de corpos mortos, agindo como estúpidos sempre que estão sozinhos, mas ganhando uma dimensão vagamente perto do que poderíamos considerar como uma inteligencia de grupo primitiva. Eles se agrupam naturalmente, como se fossem um cardume ou enxame, e tudo aquilo que sempre lemos sobre a necessidade humana de buscar conforto no outro, comprovou-se mais que uma mera verdade. É uma constatação que nem a morte pode diluir.

Mas voltando ao pobre menino, ele vai se arrastando pelo chão do estacionamento buscando abrigo entre os carros, enquanto a horda sacode com violência o alambrado enferrujado.
Ele agora está acuado perto de uma pilastra. No perrengue desesperador de quem se vê frente a frente com a morte, o jovem nem notou o zumbi rapper do lado dele da cerca. Ou talvez tenha até notado, e escolhido enfrentar um morto deste lado do que trinta insanos do outro.

Obviamente que o zumbi rapper percebeu o cheiro da carne fresca e aquela atividade toda, somada ao cheiro do suor do garoto despertou uma fúria interna. Ele não pensa, mas é engraçado que ele sabe que deve seguir a presa e saltar sobre ela com a boca escancarada e arrancar logo o maior naco de carne que puder, antes que os outros cheguem.
Quando o zumbi come a carne, um pequeno milagre se realiza dentro dele e é difícil explicar este milagre para quem nunca foi um zumbi. Imagine a seguinte situação: Você está ao mesmo tempo com sede, sono e uma vontade desgraçada de fazer xixi. Fora isso, a sensação de urgência que equivale mais ou menos a de quem tem uma diarréia prestes a sair nas calças. Some a isso uma dor latejante em todo o seu corpo. A dor é insuportável e ela piora na medida em que você anda, se move, etc. Ela só diminui quando você fica parado. O menor movimento do seu olho já inicia a dor.
E então você come a carne. Em menos de dois segundos, a dor some. E a sensação de prazer é algo que você não tem como explicar. É como fazer o xixi mais apertado da sua vida, ao mesmo tempo que bebe um copo d´água geladinho em pleno sol escaldante do deserto.
Isso tudo, ampliado umas mil vezes é o que o zumbi sente quando morde a carne. Mas novamente aqui estou eu teorizando este papo furado sobre mijo e deserto quando o que você quer é saber o que aconteceu com o bife, digo, o moleque.

Ele começou a gritar desesperado quando percebeu que o zumbi rapper, mesmo meio cegueta, vinha cambaleando na direção dele e que não havia saída, pois dois carros grandes fechavam a passagem, formando um estreito corredor que dava na pilastra do viaduto acima dele.
O alambrado lá na frente estava querendo ceder, e a horda, percebendo a aproximação de um zumbi do lado de dentro, ficou num frenesi ainda mais furioso. Eles gritavam e babavam. Alguns mordiam-se tentando garantir o melhor lugar na linha de frente, mas a cabeçada era grande os de trás forçavam os zumbis mais à frente contra a tela. Quase como num show de rock.

Bom, o zumbi rapper, veio chegando com os braços abertos, e o moleque se esgueirou o quanto pode no canto da pilastra, buscando inutilmente resistir por mais alguns segundos. A morte era iminente, mas aconteceu uma coisa que ninguém esperava. O zumbi rapper levou uma puta duma machadada pelas costas e caiu durinho com a paulada. O moleque arregalou os olhos, e quando bateu a vista no corpo do zumbi, com o machado ainda encravado na cabeça, teve a certeza de que estava salvo.

De trás da van que bloqueava sua visão, surgiu o vulto escuro de um homem de sobretudo e chapéu. O jovem levantou-se assustado e correu na direção do homem, para buscar socorro. É aquilo que eu já tinha falado sobre essa necessidade básica da busca do outro. O garoto poderia ter fugido, poderia ter se embrenhado sob o carro, mas correu para abraçar o herói.

O que ele não podia imaginar é que o herói não era quem ele pensava. O estranho agarrou o moleque pelo braço e meteu uma bela dentada no pescoço dele.
Os dentes afundaram na carne macia e quente, e o suor temperou magicamente aquela mordida. Parecia um baby beef. O sangue jorrou em profusão, dada a adrenalina no bife, digo, no garoto.
O moleque ainda tentou se desvencilhar, tentou sem sucesso se debater em agonia, mas rapidamente perdeu as forças e tombou sem vida nos pés do homem. O homem abaixou com alguma dificuldade e mordeu o mais que ele pôde aquela carne quente. Engolia grandes pedaços e com força repuxava os músculos e artérias do pescoço, como faz um cachorro, esparramando uma poça sangrenta pelo chão.

Nisso, o alambrado caiu e a horda pisoteou os da frente. O homem levantou-se com o estrondo. Largou a carcaça para a horda e saiu para o canto do estacionamento, ocultando-se discretamente na escuridão. Em meio a sombra, ele viu o grupo saltar sobre o que restava do garoto. O corpo era agora esquartejado a dentadas. Cada qual querendo um pedaço maior para si. Cada qual querendo aplacar sua dor por mais tempo, e assim conseguir energia para voltar a caçar.
Com o estômago cheio, e sem a dor a esmagar-lhe as juntas, ele partiu pela cidade abandonada.

Vou explicar como que ele virou um zumbi.

David Carlyle sempre fora um fracasso na vida. A sucessão de derrotas começou na escola, onde não obtinha boas notas e sempre fora considerado mentalmente desfavorecido. Na pratica, ele era bem acima da média, mas ninguém nunca soube disso. Na adolescência, cansado daquele lugar cheio de regras e crianças estupidas se achando mais espertos que ele, o “repetente”, Carlyle começou a escapar das aulas em busca de aventuras.
Foi quando teve seu primeiro contato com as drogas. Em poucas semanas já estava viciado. Meses depois tinha sido expulso de casa pelo padrasto após surrar a própria mãe querendo dinheiro para comprar droga.
Viveu jogado em guetos e becos infectos. Dormia entre os ratos no meio do lixo. Seus amigos eram os mendigos, os loucos e as baratas, moradoras dos esgotos imundos no qual ele se abrigava do frio.
Roubava para se drogar. E eventualmente, quando estava suficientemente são para se lembrar, comia restos da lixeira das lanchonetes.

Sua aparência não era das melhores, mas por estranho que pareça, aquela figura tinha um sonho: Ser astro de rock. Seus ídolos eram punks ingleses dos anos 80 e isso o fez tatuar no braço trechos de uma letra do Sex Pistols.
Um dia, numa obra abandonada que servia de ponto de venda e uso de tóxicos diversos, ele conheceu Willy, ou Will, ou Mister W, ou apenas “o magrelo”. O cara era chamado de tudo que era nome pelos traficantes, mas o mais comum era o “magrelo-escroto-fodido” que devia para todo mundo.
Este cara sabia tocar baixo e dizia ter sido um astro famoso anos atrás. Mas as drogas o arrastaram para o fundo do poço. Seu rosto era marcado por duas fendas verticais profundas, e as rugas o deixavam parecendo um velho bucaneiro.
Num desses delírios de viajantes, David e Magrelo combinaram de formar uma dupla. Montariam uma banda e estourariam a boca do balão. Tudo parecia ótimo, tirando o fato de que os dois não tinham dinheiro nem para cair mortos.
Mas ali no meio daquele grupo de mendigos fodidos estava um que sempre pagava uma rodada de birita para todo mundo, e comprava sempre o pó “premium”. Era o velho Ned.
Foi o velho Ned que disse ao Magrelo que havia um tal laboratório russo ou armênio, chamado… como era mesmo? Era um nome estanho pra caramba… Ah, sim, um laboratório chamado Kovalkhzuch. Ficava na Rua Sete, na esquina com a Avenida Mc Norton. Eles estavam testando drogas lá, e pagavam uma boa grana para “testers”.
Inicialmente, magrelo teve medo, hesitou.
Mas não tardou, David conseguiu convencer o Magrelo que era uma boa chance, já que eles poderiam obter dinheiro suficiente para comprar os instrumentos, e talvez até – O velho Ned disse que era uma grana realmente substancial – gravar um single. Magrelo não queria, temia morrer com uma injeção letal qualquer, mas isso durou apenas até bater a fissura de novo. Aí nessa hora, ele fazia qualquer coisa para dar mais uma viajada.
E foi dessa forma que os dois doidões bateram lá no prédio de aço, concreto e vidro do Kovalkhzuch Institute.

Após os testes iniciais, exames médicos e banho, lá estavam eles, mais apresentáveis, numa sala toda branca. Chegou a enfermeira, uma mulher meio grosseira que mal falava a língua deles. Ela trouxe duas pastas lotadas de documentos. Após preencherem vinte e tantos formulários no qual abriam mão de direitos sobre qualquer coisa que não sei dizer, pois ninguém leu aquela merda toda pra contar, eles estavam aptos a receber – em cash – uma boa grana.
A enfermeira disse, com seu sotaque desgraçado, que tudo que eles teriam de fazer é comparecer uma vez por semana ao prédio, onde seriam encaminhados a uma sala do sexto andar. Ali eles faziam um exame de sangue. Depois receberiam umas injeções lá e pronto. Não podiam sair na mesma hora, porque os caras do laboratório exigiam algumas horas de observação, e depois tiravam amostras de sangue. Aí sim eles recebiam envelopes com uma bela grana, e iam embora.

A coisa foi assim por mais ou menos uns três meses. David e Magrelo conseguiram alugar um apartamento num canto ferrado da cidade, e compraram alguns instrumentos de segunda mão, que se resumiam a apenas um baixo e uma guitarra, além de cabos, pedais e dois amplificadores valvulados. Os dois começaram a fazer algumas canções de protesto, de drogas e tal. Mas não era um som muito limpo.
Certo dia, eles tinham ido ao Kovalchzuch Institute, mas quando chegaram lá, estranharam as coisas. Não havia mais a marca em aço escovado no meio do saguão. Ao se apresentarem aos homens da recepção, perguntaram sobre o laboratório e os seguranças fizeram uma expressão estranha. Disseram que não havia laboratório. Que ali era a embaixada da Eslovênia.
“Mas que merda… Onde diabos fica a Eslovênia? ” – Perguntou Magrelo com seu trejeito debochado.
David tentou argumentar, dizendo dos exames, e etc, mas os seguranças se irritaram e expulsaram os dois amigos do prédio com a peculiar violência de sempre.

Eles andaram sem rumo pelo centro da cidade. Não conseguiam entender o que tinha acontecido. Num dia o prédio estava lá, cheio de médicos, cientistas, enfermeiros. No dia seguinte, pluft! Tudo aquilo sumiu e o edifício virou embaixada.
Quando o dinheiro acaba, a amizade se fragiliza. Os dois acabaram brigando. Trocaram socos numa praça e foi aí que eles se separaram.
Magrelo foi embora e enquanto David Carlyle via o amigo sumir na esquina, teve a sensação de que nunca mais o veria.
Ficou mal. Era o único amigo que tivera em toda sua vida. Agora ele estava novamente sozinho. Sentiu uma tristeza profunda e por conta disso, David não foi pra casa. Foi dar um teco com os junkies da obra. Lá ele soube que o velho Ned tinha surtado. Atacara gratuitamente varias pessoas com mordidas antes de ser morto a pauladas pelos garotos do Mister Big. David meteu a mão no bolso e tirou todo o dinheiro que tinha. Ele comprou uma grande quantidade de heroína, suficiente para vários dias “off”. Subiu pro décimo andar onde ficava o sofazão.
Deitou no sofazão e injetou aquela merda toda. Ele sabia que aquilo era uma despedida, uma viagem sem volta. Era o beijo quente e lânguido da morte. Injetou seringa após seringa e esperou o choque…

Daí em diante, as coisas ficam meio confusas, não repare.
O que David lembra é que acordou meio sonolento, com tudo meio que rodando, meio que balançando pra tudo que é lado. Tinha uma… Uma mulher segurando forte o braço dele. Ela dava uns tapas na cara dele, mas ele não sentia, porque estava muito anestesiado. Achou graça, porque a mulher estava puta…
Puta… É isso mesmo. Ele estava reconhecendo aquela moça. Era a namorada do Mister Big. Uma tal de… Camila, ou Camélia… Uma parada assim. Era puta. E gostosa.
Ela falou um monte de coisa, mas ele tava doidão demais pra lembrar ou entender. E então ela trancou ele num armário. E aí o David dormiu. Dormiu gostoso. E afundou… Cada vez mais no escuro… Cada vez mais devagar.

E então abriu os olhos. Ele já nem sabia onde estava. Tudo estava escuro. Apalpou o arredor e sentiu que era uma caixa.
Teve medo. David pensou que talvez estivesse num caixão. Talvez as pessoas tivessem pensado que ele tinha morrido e o tivessem enterrado.
David forçou as madeiras e viu uma luz fraca surgir entre as frestas. Sentiu alívio por não estar debaixo da terra. Então ele enfiou o pé pra frente e fez a maior força que pôde. A porta estourou e caiu na frente dele. Ali estava o sofazão e a laje sem paredes do prédio em construção.
Era noite. Pelo céu, havia acabado de escurecer. David não sabia quanto tempo ele tinha ficado fora do ar. Lembrava vagamente em imagens e flashes desconexos da puta aflita, arrastando ele pelo braço, batendo na cara dele, e trancando no armário.
A primeira coisa que ele estranhou foi o silêncio. Aquela era uma cidade grande e o som dos carros, gente, obras, aviões, trens e tudo mais, nunca parava. Ainda mais naquele lado infecto da cidade.
Mas agora não havia nada daquilo. Tudo era um silêncio perturbador.
David andou até a beira da laje e olhou lá pra fora. Era um blecaute ou coisa parecida, pois não tinha luz. Nem velas nem fogueira nem luzes de emergência ou carros. A cidade parecia morta.
Tudo era tão estranho que ele pensou se não estava em mais uma viagem. Mas não. Era o mundo real mesmo.
“Pra onde foi todo mundo”? Ele se perguntou. Pensou que talvez fosse de madrugada. Olhando só para o céu não dava pra saber. Se ao menos ele tivesse um relógio…
E então resolveu descer pra rua.

Após chegar no primeiro andar, onde funcionava a administração da boca, David notou que algo estava muito errado. Na pouca luz que entrava no cômodo ele viu manchas de sangue por todo lado, e o armário do Mister Big estava arreganhado, com papelotes, seringas, dinheiro, tudo espalhado pelo chão.

David começou a juntar dinheiro nos bolsos feito louco, e também guardou alguns papelotes. Já na rua, não havia ninguém. Carros incendiados, agora meras carcaças esturricadas, estavam jogados por todos os lados.

Ele viu o que parecia ser restos mortais caídos num canto.

Andou pela cidade vazia em busca de alguém, mas estava estranhamente sozinho naquela cidade.

David Carlyle começou a gritar.

“Eeeeei? Alguém aíííí?, Eeeeeeei?”

Mas só se ouvia o vento, e os ecos de seus gritos em meio a escura selva de concreto.

David Carlyle estava sozinho naquela cidade escura e inóspita. Sua mente tentava processar e compreender o que havia acontecido.
“Talvez tenham jogado uma bomba nuclear” – Pensou.

Andou por uma longa avenida, desviando de carros engavetados, ônibus enfiados em lojas e restos de corpos humanos ressecados pelo sol.

David olhou os arredores e como ninguém respondia aso seus gritos, começou a se perguntar por quanto tempo ele ficara dentro daquele armário.

Ele andava sem destino, os olhos prescrutando as lojas, os bares, etc. A maior parte deles estava fechada. Mas alguns estavam vazios. O sol já tingia de cor de rosa o firmamento.

Enquanto andava, teve a sensação de que vira algo passar correndo entre os carros.


Ele não tinha conseguido ver claramente, e tudo aconteceu muito rápido. David parou de andar e ficou imóvel. Apenas olhava. O movimento não se repetiu.

David sentiu medo. Mas manteve-se firme. Pensou em gritar, mas algo dentro dele o impedia. Ele ficou apenas ali, parado, olhando sem saber o que era aquilo atrás dos carros na calçada. Agora ele tinha a certeza de que havia sim alguma coisa ali, pois podia escutar o barulho. Era um som fraco, de coisa se arrastando.

David conteve a respiração, e enfim arriscou a plenos pulmões:

“Eeeeeeei! Tem alguém aí?”

O som subitamente parou. O que quer que estivesse atrás dos carros reagiu ao grito. Mas não apareceu e nem respondeu.

David começou lentamente a caminhar em direção aos carros.

“Quem tá aí?” – Perguntava ele, com ar autoritário.

Quando David deu o sexto passo na direção do carro, pulou um cachorro enorme sobre o capô do veículo.

David não reconheceu a raça. Era preto, tinha os olhos injetados, fixos nele e mostrava os dentes ameaçadoramente. O Animal devia pesar muito, pois ao saltar sobre o carro ele chegou a dar uma afundada. O bicho rosnava baixinho. David fotografou mentalmente a expressão daquele animal, e notou que pingava sangue da cabeça do bicho. A respiração do animal era ofegante e ele tinha uma aparência selvagem assustadora.

Então David deu um passo para trás.

Aquela foi a senha para que o enorme cão saltasse do carro e disparasse a toda velocidade pra cima dele. David tentou correr, mas o cão veio como uma bala, sem latir nem rosnar.

David correu como nunca correra antes em sua vida. Ele sabia que nada poderia fazer, pois com apenas duas pernas, seria uma presa facílima para aquela fera sinistra. Mas estranhamente ele não foi mordido. A fera desapareceu tão rápido quanto surgiu.

Quando olhou para trás, viu que corria esbaforido, mas já não era perseguido. Viu o cão parado ao longe. Sentado no meio da avenida.  Olhando pra ele.

David Carlyle não entendeu nada. O cão havia disparado com toda vontade de atacá-lo, mas so nada desistira. E agora parecia uma estátua ao longe.

Mal David pensou nisso, o animal enfiou o rabo entre as pernas e correu, escondendo-se no interior de uma loja.

“Mas que merda é essa?” -Disse ele olhando para trás.

Quando David viu, entendeu porque o cão abortou seus planos.

Menos de dez metros na frente dele tinha um monte de estátua no meio da rua.   Bom, pelo menos foi este o primeiro pensamento de David quando deu de cara com o que parecia ser um museu de cera, cheio de pessoas paradas. Alguns estavam sentados no chão. Outros caídos e uma boa quantidade de gente estava em pé. Mas todos estavam parados.  Pareciam congelados.

Ele ficou ali, também parado, olhando aquilo sem entender. Olhou para o chão e notou que estava lavado de sangue seco. O cheiro de podre era algo que dava vontade de vomitar e o único som que ele conseguia escutar era o do vento, que levava restos de jornais e sujeira pelo ar, além das moscas.

David percebeu rapidamente que aquelas pessoas estavam todas mortas. Mas nunca tinha ouvido falar em pessoas mortas de pé. Pensou por um breve momento que talvez aquilo fosse a razão da cidade estar daquele jeito. Talvez fosse alguma bomba, alguma arma experimental que matou todos os infelizes de uma só vez, e que não tiveram nem mesmo tempo de cair.

David se aproximou lentamente. Percebeu que no meio da galera estava a tal Camila, ou Camélia. Ele reconheceu que era ela pela tatuagem obscena que ela trazia no braço. Abaixo numa faixa ilustrando e arrematando a tatuagem: “Neném do papai Big”.

David caminhou devagar por entre os corpos até ela. Seu intuito era de enterrar aquela moça, que querendo ou não havia salvado sua vida. Quando David tocou nela, assustou-se ao ver que a mulher moveu-se. Ela mexeu devagar, como se fosse um sonâmbulo. Gemeu baixinho.  (continua...)

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