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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Menu Mitologia: Jesus Existiu Realmente?

JESUS EXISTIU REALMENTE?




Fonte: Teoria da Conspiração
Texto de Ivani de Araujo Medina

Como este livro tem entusiasmado alguns quanto à existência histórica de Jesus Cristo, mesmo sem maiores expectativas, resolvi adquiri-lo para poder comentar. Logo de início, o, hoje, agnóstico Bart D. Ehrman se diz admirado com o questionamento a respeito de tal existência, pois como um estudioso do Novo Testamento, há mais de trinta anos, desconhecia a existência de uma bibliografia cética. Ele classifica os autores dessa bibliografia de miticistas, porque entendem Jesus como um mito. Estranhei essa abertura, porque como apenas um interessado pelo assunto eu sempre soube dessa antiga suspeita e que alguns haviam escrito a esse respeito. Mas seus livros eram difíceis de encontrar. Um dos exemplos curiosos dado por Will Durant quanto a esta desconfiança, além de Volney, é o de Napoleão que ao encontrar-se com o sábio alemão Wieland, em vez de assunto de política e guerra perguntou-lhe se acreditava na historicidade de Cristo. (DURANT, 1971, p. 433).

Ehrman explica, como de praxe, que vestígio algum da existência de Jesus foi encontrado porque ele era pobre, possivelmente analfabeto e ignorado, pois 99,9 % dos judeus palestinos pobres eram desconhecidos. Então, o Jesus histórico era nada parecido com o personagem dos evangelhos (acrescenta) que atraía multidões com seus milagres. No entanto, no correr da sua argumentação esse Jesus se revitaliza para justificar a grande referência que se tornou. Mas acontece que, não só ele (como referência principal), tanto os seus seguidores (como divulgadores) a despeito da origem humilde, deviam ter deixado alguma evidência consistente do trabalho que realizavam havia décadas, na Palestina.


Roma comerciava intensamente com suas províncias e a Judeia era uma delas. Frutas secas, artesanato fino, perfumes, peixe seco, vinho, o famoso betume da Judeia etc. faziam parte do interesse e da mesa dos romanos. Esses comerciantes deviam andar muito bem informados para a própria segurança. Notícias partiam e chegavam com eles. Junto com as iguarias deviam chegar histórias dos seus lugares de origem às mesas daqueles comensais. Mas nada se sabe, fora dos livros do NT, a respeito de Jesus, Pedro, Paulo e os demais apóstolos em suas andanças pelo mundo porque nenhum grego, romano ou judeu desse século comentou coisa alguma. Nem Flavio Josefo.

Por falar nesse controverso historiador judeu, ele esteve em Roma em 64 (ano do incêndio) tentando libertar judeus de Jerusalém que foram detidos por Nero. Lá, Josefo, encontrou zelotes revolucionários e comentou a respeito deles. Porém, comentário algum sobre as atividades cristãs de Pedro e Paulo (ou a respeito deles) ou da parte de outros alegados judeu-cristãos. Isto deve ser levado em conta, pois, Josefo, lá esteve como uma personalidade do mundo judeu e deveria estar muitíssimo bem informado pela comunidade judaica local. Lembrando também de que, depois da guerra de 66/70, Flávio Josefo passou a residir em Roma aonde veio a falecer por volta do ano 100. Nenhuma linha escrita por ele veio confirmar a história escandalosa das tochas humanas de cristãos (que consta no suposto Tácito) ou a oportuna versão da história de Jesus daquele mesmo texto (dos Anais) do historiador romano. Ehrman defende tal informação como digna de crédito, assim como a descarada interpolação no livro de Josefo, História dos Hebreus, ao comentar sobre os notáveis da terrinha nenhuma referência o autor faz a Jesus, a seus seguidores ou ao seu movimento. “Evidências” que surgem depois que os cristãos tiveram acesso a documentos nos arquivos romanos. Vale lembrar que tornaram-se conhecidas por intermédio dos próprios cristãos.

Tampouco o alegado Concílio de Jerusalém, em 51, e nomes de judeu-cristãos que teriam feito parte do suposto processo de transição dessa crença para o mundo pagão deixou lembranças. Igualmente, esse mesmo cristianismo do século I, não deixou vestígios arqueológicos em Jerusalém, Ásia Menor ou em Roma. O que há e sempre houve é um esforço cristão de provar o contrário. O fato de deter grande quantidade de documentos da sua autobiografia e tentar com isso se justificar como o mais bem documentado advento da história da humanidade, não afasta a suspeita de uma obra literária que ganhou o mundo pagão por um motivo imperioso e não revelado. A história, como seu instrumento de apoio, teve que apelar para métodos quais: Critério da dissimilaridade, Credibilidade contextual, Atestação múltipla, para dar uma mãozinha a essa biografia de fé. A pergunta que me faço é: como algo tão sensacional que deu início a uma nova cultura pode ser assim tão nebuloso? Por quê?

Parece-me que o lógico seria rever essa história toda por outro ângulo. No entanto, como de hábito nessa defesa, minha falta de expectativa foi-se confirmando com o antepasto da justificava da inexistência de provas. São servidas as conhecidas “evidências não cristãs” e a Bíblia como prato principal. Todos esses “chefes” bíblicos fazem assim, como se a Bíblia fosse mais saboroso repositório da mais impura verdade dos fatos e não exatamente o que ela é: um livro religioso voltado à propagação da fé cristã. Sabe-se de temperos picantes oferecidos pela história secular, que no primeiro século da E.C. os “Messias” crucificados pelos Romanos foram: Yehuda da Galiléia (ano 6), Theudas (ano 44) e Benjamim, o Egípcio (ano 60) e nenhum Jesus. Justamente o mais famoso deles precisa, até hoje, de uma trabalhosa defesa erudita para tentar confirmar a sua existência e crucificação por Pilatos, a pedido dos judeus. Referindo-se a bibliografia cética, Ehrman descarta tais alternativas em favor da “cozinha” tradicional, por conta do miticismo defendido por aquela alternativa como principal argumento.

“Quero esclarecer logo que nenhuma dessas obras foi escrita pelos especialistas em Novo Testamento e cristianismo primitivo que lecionam em renomados seminários teológicos, escolas de estudos religiosos e nas principais, ou mesmo secundárias, universidades ou faculdades da América do Norte ou da Europa (ou qualquer outro lugar do mundo). Dos milhares de estudiosos do cristianismo primitivo que lecionam em tais escolas, não há nenhum de meus conhecidos que tenha qualquer dúvida sobre a existência de Jesus. Entretanto, há uma grande quantidade de obras, algumas extremamente inteligentes e bem informadas, levantando essa questão.” (EHRMAN, 2014, p. 10)

Isto não é de espantar e faz todo sentido, pois foi o cristianismo que selecionou e disponibilizou suas próprias notícias, normatizou o ensino, formou seus docentes, criou suas instituições de ensino e ainda hoje nos conta e ensina sua autobiografia seguindo os padrões que estabeleceu. Se a Igreja dissesse que branco era preto a obrigação de todo cristão era crer sem questionar. As instituições de ensino cristãs prevaleceram no Ocidente desde a Idade Média e suas influências permanecem na tutoria da nossa cultura como demonstra o autor, inclusive, ao estranhar tais questionamentos. Refém até o século XVIII da teologia católica, a história passa a sofrer influência da teologia protestante com o iluminismo. Quando surge o método histórico-crítico que privilegiava o papel da Bíblia (separava “a palavrada de Deus dos erros humanos”) e não exatamente o papel da história (devia separar o favorecimento ideológico dos fatos). Como era de se esperar esta disciplina continuou amordaçada. A despeito das discussões despertadas no ambiente religioso, as questões obscuras dessa parte da história, observadas pelo ponto de vista secular, continuaram sem respostas, como estão até hoje.

Como Ehrman argumenta, a capacitação do pesquisador para a simples leitura de fontes antigas requer o domínio de línguas antigas como o grego, hebraico, latim, aramaico, siríaco e copta, além de línguas acadêmicas modernas, como alemão e francês. Criou-se assim algo que se poderia chamar de “área de preservação das nossas tradições culturais”, guarnecida por uma intelectualidade experiente e bem adestrada, inclusive, nos recursos da filosofia, como a arte de bem argumentar e persuadir.

Ora, então aquele que “mergulha na superfície” da história antiga, colhendo informações de livros e não de fontes primárias, deve se curvar ás conclusões dos especialistas por uma questão de hierarquia ou deve seguir a própria intuição baseando-se em fatos reconhecidos? Um renomado historiador da educação, Henri Irénée Marrou (1904-1977), da Sorbonne, respondeu essa questão em uma referência à própria classe de historiadores: “O historiador não avança sozinho ao encontro do passado. Aborda-o como representante do seu grupo”. Marrou era um cristão ardente.

“É óbvio que numa universidade renomada os professores não podem simplesmente ensinar o que querem. Precisam ser responsáveis e refletir as visões acadêmicas de sua área. É provavelmente por isso, pelo menos que eu saiba, que não há nenhum miticista lecionando estudos religiosos em universidades e faculdades conceituadas da América do Norte e da Europa. […]” (Ehrman, p. 218)

Mas claro que Bart D. Ehrman não é um daqueles biblicistas convencionais. Referindo-se às universidades norte-americanas onde leciona e o grande interesse dos seus alunos em estudar o Novo Testamento, chegando a lotar as salas em todos os semestres, o autor fala do entendimento daqueles estudantes na importância da Bíblia para sua sociedade e cultura. Isto é fundamental também na vida do autor. Um contexto no qual a figura de Jesus é basilar. Daí a “infração” cometida pelos estranhos ao meio acadêmico quando querem compreender por si mesmos, negam tal existência e ainda por cima, divulgam suas dúvidas e conclusões. Ehrman se posiciona muito bem no seu papel naquela conjuntura e deixa ver os benefícios que isso traz às novas edições do seu enfoque particular. Sem dúvidas, é um profissional que tem uma boa visão das suas possibilidades.

No entanto, a existência dessa nevoenta parte da história é fato, ao qual já havia se referido o conhecido historiador Edward Gibbon (1737-1794). Gibbon criticou abertamente a historia da Igreja: “[…] Os minguados e suspeitos elementos de informação propiciados pela história eclesiástica raramente nos possibilitam desfazer a nuvem escura que pesa sobre os primórdios da Igreja. […]” O intelectual cristão Maurice Lachatre (1814-1900), também se queixou da falta absoluta de historiadores verídicos e da multidão de livros em grego e latim como um obstáculo ao julgamento pessoal. Diante de tanto, fica claro que julgamentos pessoais que possam comprometer de vez o entendimento popular a respeito são indesejáveis. Tipo: “vamos devagar e com jeitinho porque dói menos”.

Contudo, não dá para resistir a uma curiosidade dessas. Sabemos que são os vencedores que contam a história e o desejo de conhecê-la por dentro a todo custo é irrefreável. Não é possível a omelete sem quebrarem-se os ovos. Está claro que perceber essa história como os especialistas querem, é como se contemplar uma pintura com o nariz colado na tela. Discursa-se sobre a trama do algodão, a intensidade das pinceladas, a provável consistência das tintas, teorias sobre o suporte da obra e a sua execução prevalecem convenientemente ao tema. Parece conversa séria, mas é só para impressionar. Uns poucos exemplos já bastam para desmascarar essa farsa que Ehrman contemporiza. Contudo, de tão óbvios que são esses exemplos, muitos irão dizer que “deve haver outra explicação”, pois não acreditam que uma mentira dessa proporção seja possível. Mas… sempre foi assim.

“O governo tem o direito de mentir se o interesse público assim o exigir. Em particular, inculcará a “mentira real” que apresenta este admirável mundo novo como uma dádiva divina. Em duas gerações, isto passaria a ser acreditado sem protestos, pelo menos pela plebe.” (Platão, República).

As questões mitológicas que Ehrman contra argumenta e, por fim, “desconstrói” com habilidade a ideia de Jesus como um mito, poderiam se tornar secundárias diante de outra questão igualmente importante, na qual o miticismo não estaria em primeiro plano como explicação. Porque não se perguntar se existiria um motivo forte para a invenção de um personagem histórico chamado Jesus, no início da Era Comum? E quem se beneficiaria com tal invenção?

Dos meus mergulhos na “superfície da história antiga” e juntando alguns pedaços ainda imersos para muitos, colhidos em diversas tomadas de fôlego em tantos livros de história, concluí que, como já expressei em diversas oportunidades, a causa política mais provável para o surgimento do cristianismo foi antiga rixa (não generalizada, pois muitos gregos se converteram ao judaísmo) entre gregos e judeus, que se estendeu ao mundo greco-romano e chegou a ferver no século I. A ciumeira das regalias obtidas pelo judaísmo no tempo de Júlio César, as imediatas concessões de Otávio Augusto, a rejeição judaica de se fundir ao orgulhoso universo heleno, do qual Roma fazia parte, e o sucesso crescente do proselitismo judaico no mundo greco-romano teriam sido determinantes.

“A primeira menção do judaísmo encontrada na documentação romana está ligada à conversão, e parte das observações dessa literatura referente aos judeus que não são habitantes da Judeia estará vinculada a essa questão central. Se os atos de hostilidade em relação aos judeus irrompiam de tempos em tempos em Roma, isso resultava principalmente das pregações que estes faziam em favor de sua religião. Os romanos eram em essência politeístas convictos, tolerantes em relação a outras crenças; a prática da religião judaica era autorizada por lei (religio licita). Por isso, o princípio da unicidade monoteísta era incompreensível em Roma, e ainda mais incompreensível a vontade obstinada de fazer com que outros crentes aderissem a essa religião e de levar assim a renunciar às crenças e aos costumes de seus pais. Durante muito tempo, a conversão não suscitou hostilidade, mas logo mostrou-se que ela levava à negação dos deuses do império por parte do prosélito, o que foi percebido como uma ameaça para a ordem política vigente.” (SAND, 2008, p. 174).

“O grande poeta Horácio ridicularizou a paixão dos judeus pela conversão em um de seus poemas: “Chamarei em meu socorro toda a tropa de poetas (de muitos somos os mais numerosos), e, como fazem os judeus, nós te forçaremos a marchar conosco”.94 Essa frase esclarece o caráter missionário do judaísmo da época. O filósofo Sêneca, incisivo, considerava os judeus um povo maldito, porque seus dirigentes “haviam ganho tal influência que eles agora eram acolhidos em todo lugar no mundo. Os vencidos impuseram suas leis aos vencedores”. (SAND, 2008, p. 176).

Todavia, Ehrman sugere algo diferente: “Os judeus (e apenas eles) acreditavam que o seu Deus havia criado o mundo e o controlava. Não insistiam com os outros para que adorassem esse Deus, mas, para eles, era o único que havia. […]” (EHRMAN, p. 268)

Tais fatores, incendiários aos ânimos de determinada classe média grega que teriam contaminado alguns já incomodados romanos, hão de estar na causa do surgimento do cristianismo como um antídoto. Portanto, era preciso que o cristianismo se parecesse judeu, inclusive, para o resgate dos incircuncisos, depois que o imperador Adriano passou a punir a circuncisão com a morte, em todo Império, no século II. Antonino Pio, sucessor de Adriano, havia restituído os direitos aos judeus, porém, a circuncisão de pagãos continuou a ser punida da mesma forma. Oportunamente, o cristianismo aboliu a circuncisão. Convenhamos que um imperador não se arriscasse a uma medida tão drástica contra um dos seus povos súditos, senão diante de grande perigo para a ordem no Império.

O mundo greco-romano politeísta não tinha meios de enfrentar o vigoroso monoteísmo judaico. Não era mais uma simples crença religiosa das muitas daquela época. Tratava-se e um modo de vida particular e organizado que havia conquistado o respeito de Roma, no passado, e vinha conquistando cada vez mais adeptos naquele presente. Como improvisar algo do tipo, de uma hora para outra, para enfrentar aquela situação? Só mesmo um antídoto alegadamente surgido em tempos passados, para não levantar suspeitas, poderia resolver a questão. Para todos os efeitos, estivera semiapagado depois da guerra romano judaica de 66/70 até seu ressurgimento bastante ativo no século II, no mundo pagão. Vale lembrar de que depois dessa guerra desapareceram do cenário do judaísmo os saduceus, os essênios e os zelotes. Sobreviveram somente os fariseus. Eram mais numerosos e os mais dedicados defensores das tradições judaicas. Qual o motivo do menosprezo e da pecha de hipocrisia atribuída aos fariseus?

Bruno Bauer (1809-1882), filósofo, historiador e um revolucionário professor de teologia, ao qual Ehrman se refere como idiossincrático e “o primeiro estudioso autêntico da Bíblia a afirmar que Jesus nunca existiu”. Para Bauer, Jesus foi um mito criado no século II, o cristianismo não veio diretamente do judaísmo e o primeiro evangelho foi escrito sob Adriano (117-138). Disse ainda que o cristianismo é mais grego do que judeu e havia derivado da doutrina do Logos, de fontes neoplatônicas, de Filon de Alexandria e do estoicismo. Afirmações devastadoras para um teólogo cristão e isso lhe custou o emprego de professor de teologia. Então, o cristianismo sofreu influência grega ou era uma obra grega de fato? Não fosse uma manobra dessas, o mundo hoje poderia ser judeu.

Para tanto, o antídoto contra o judaísmo precisaria de uma versão completa e histórica, com personagens ideais e funcionais em objetivo e contexto. De onde sintetizá-los? Entre os quatro grupos citados havia uma particularidade muito conveniente: galileus e fariseus se odiavam. Os galileus eram desprezados e escarnecidos em Jerusalém como os ignorantes e tampouco reconhecidos como judeus de fato e de direito. Durante a guerra civil que estourou em 66, em Jerusalém, galileus invadiram, saquearam as casas e estupraram as mulheres e filhas dos judeus. Os antepassados daqueles zelotes (galileus) foram convertidos pela força das espadas dos ashmoneus no seu plano expansionista e motivos para ressentimentos lhes sobravam. Há muito tal fato havia perdido a nitidez, no entanto, o imperador Juliano, o Apóstata (361-363), chamava os cristãos de “galileus”, diferenciando-os dos judeus.

Quem desconfiaria, no século II, da falsidade de mais uma seita surgida daquele meio conturbado do judaísmo do século anterior, antes de uma guerra destruidora que havia incinerado boa parte daquela história? O fato relevante era que tal situação oferecia uma bela carona ao antijudaísmo grego e, também romano, como já vimos. O ódio galileu contra os judeus poderia ser potencializado e estendido ao resto do mundo antigo por intermédio de um “judaísmo renovado” que aboliria a circuncisão e incluiria todos nas benesses de Deus e não só os judeus. O sucesso do judaísmo se voltaria contra ele mesmo como o seu antídoto.

A literatura apocalíptica, existente do século II A.E.C. até o século I da E.C., inspirara os galileus e dividira perigosamente o judaísmo. Apocalipse significa “revelação”. Esse tipo de literatura valia-se da pseudonímia (ocultação de autoria ou responsabilidade por obra literária ou de qualquer outra natureza sob um nome falso) como um recurso para encorajar o povo a seguir adiante impressionado por uma profecia forjada e pela promessa do socorro divino. Um autor da época escrevia um texto no qual relatava as dificuldades daquele momento e o assinava como um autor conhecido do passado que fizera a tal “revelação”, ou “previsão”, que se confirmava. Esses livros foram rejeitados pelo cânon de Jerusalém.

A revelação de Jesus quanto à destruição do templo é um bom exemplo disso, no contexto dessa possibilidade. Mateus 24. “E quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. 2. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isso? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.” Este exemplo, que envolve a guerra de 66/70, na qual perderam a vida centenas de milhares de pessoas, diga-se de passagem, foi incentivada e iniciada pelos galileus e não pelos judeus. A propósito, zelotes não significa “os que zelam pela Lei”, mas “imitadores”. Esses desastres serviriam de argumento para o castigo de Deus àquele povo, por ter assassinado seu filho unigênito e Salvador da humanidade. Então, Deus teria rompido a antiga aliança com o judaísmo e iniciado uma Nova Aliança com o cristianismo, que daí em diante seria o responsável pela condução da humanidade. Por isso, Jesus tinha que ser histórico para justificar a falsa ligação pretérita com o judaísmo.

Afinal, por que “Velho Testamento” e “Novo Testamento”? São evidências mais do que probatórias de uma conspiração antijudaica da qual desconhecemos seus motivos e evolução. Será que com tantos estudiosos e especialistas nunca se percebeu isso? “Velho” significa ultrapassado, algo que já não condiz com a época, precisa de substituição. Daí a tal teologia da substituição que teve como justificativa a “vontade divina” (exposta acima), baseada na decepção de Deus para com o povo eleito. Acaso o judaísmo foi ultrapassado, superado, se apagou em algum momento da história, requereu aposentadoria ou perdeu o prazo de validade? Nunca! Isso nada mais é do que a mais explícita manifestação de um desejo frustrado. Às vezes, a melhor maneira de se ocultar uma verdade é deixa-la exposta, pois o povo acaba se acostumando e não acredita mais nela.

“Deus… glorificou o seu servo Jesus. Vocês o entregaram e o rejeitaram diante de Pilatos, que estava decidido a soltá-lo. Vocês, porém, renegaram e pediram clemência para um assassino. Vocês mataram o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. E disso nós somos testemunhas (Atos 3: 13-15) (EHRMAN, p. 116) Roma é cuidadosamente inocentada nesse enredo. “As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não judaicas e as antijudaicas” (STAUFFER cit. por LÄPPLE, 1973, p. 84) “Vós sois filhos do Diabo, e tendes vontade de cumprir os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque não há nele verdade. Quando ele diz uma mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e o pai da mentira”. (João 8:44) “Se alguém vem a mim e não odeia o pai, a mãe, a mulher, os filhos, os irmãos, as irmãs e até a sua própria vida não pode ser meu discípulo”. (Lucas 14:26; Mateus 10:37) etc.

Ambas as correntes em confronto na igreja primitiva eram antijudaicas. Aquela que acabou sendo considerada herética e execrava abertamente o deus dos judeus, o deus mau criador do mundo, caiu no esquecimento. Para Valentino, um dos seus principais representantes: “Não é Deus, mas o demiurgo que domina como rei e senhor, que age como comandante militar, que estabelece a lei e julga aqueles que a violaram , é o Deus de Israel”. Segundo essa corrente tida como herética, havia um Deus superior do qual o deus dos judeus tentara usurpar o poder. Já a corrente vitoriosa, autodenominada ortodoxa, lutava pela reabilitação do deus dos judeus naquele ambiente confuso, porque sem ele não poderia contar com o Velho Testamento na sua determinação. Amor ao próximo era o que não se via e tampouco eram os judeus os dominadores do mundo antigo para que algum tipo de ódio se acumulasse contra eles.

Nada disso é novidade para ninguém. Apenas a maneira de perceber o fato é que muda tudo. Estamos acostumados a não tirar conclusões sem “autorização superior” nesse tipo de assunto ou nos afastarmos (emocionalmente) sem consentimento, da “tela” (pintura) que foi colocada diante de nós, a qual fomos induzidos contemplar com o nariz colado nela. Fazemos obedientemente como era para ser das palavras dos nossos especialistas nossos olhos e interpretação. Porém, sob essa ótica, o lado “B” de Jesus Cristo torna-se o símbolo de uma conspiração antijudaica greco-romana. Por esse motivo o Antigo Testamento não foi repudiado como foram seus detentores. O que seria lógico. “A unidade e a existência do cristianismo dependiam do Antigo Testamento que preparava a humanidade para o dom do Espírito”. (IRINEU cit. por DANIÈLOU, 1966, p. 129)

Seria uma aberração se pensar que os judeus conceberiam uma nova religião (antijudaica) para persegui-los e condená-los eternamente a um sofrimento inumano. Certamente, não haveria de serem os romanos os pais de uma ideia tão ousada e sofisticada quanto à concepção cristã. Os latinos haviam se mostrado imbatíveis na arte da guerra, mas não nas letras e no campo das ideias. Desde o tempo da República, os romanos sentiam-se fascinados pela inteligência, conhecimentos e talentos gregos. A grande experiência grega acumulada na área da religião, especialmente na Ásia Menor, haveria de frutificar um dia a favor dos pais da história (dos quais Josefo reclamava muito).

“Na confrontação da Grécia com o Oriente, provocada pela conquista de Alexandre, é difícil medir o que é que o Oriente forneceu à civilização helenística, por assim dizer nada na literatura e na ciência, um pouco mais na arte e na filosofia e quase tudo na religião”. (LÉVÊQUE, 1967, p.160)

Eloquentes defensores das tradições romanas, censores como Catão (234-149), que ficou conhecido pela sua intolerância às novidades estrangeiras, ciente dessa deficiência romana, alertava o Senado para o perigo da influência grega. No entanto, a grande quantidade de escravos importada da Ásia Menor para a Itália, a partir do final do século I A.E.C., gente altamente qualificada em todas as funções de ofícios, foi o “Cavalo de Troia” da ainda rústica Roma. Catão deve ter-se revirado na cova. No final do século I, a antiga classe média latina havia sido substituída por outra de origem grega, constituída de ex-escravos e descendentes. Orgulhosa que era a nova classe social, fez de Roma uma cidade bilíngue por não prestigiar o latim nem os latinos.

É para os descendentes desses “novos romanos” que no século seguinte uma pregação em massa bem estruturada será dirigida. Para um público certo no momento mais oportuno. Foi, justamente, no final da primeira metade do segundo século, sob o reinado de Antônio Pio (138-161), soberano muito tolerante com os cultos estrangeiros, que os propagandistas cristãos começam a chegar à capital do Império, gregos ou descendentes, vindos em sua maioria da Ásia Menor. Marcion (Ponto) chega em 140, Justino (Samaria) em 150, Policarpo (Anatólia) em 155 e Hegesipo (Anatólia) em 160. Praxéas (Cartago), Epígono (Anatólia), Teódoto (Anatólia) para lá se dirigem. No final do século II são muitas as escolas cristãs em Roma. “No fim do segundo século, temos em Roma uma pululância de escolas.” Afirma o estudioso da História da Igreja, o padre Jean Daniélou. De Roma o cristianismo se irradia por toda Europa, porém, como os fatos nos sugerem, foi na Ásia Menor e não na Palestina que se iniciou.

“O grego era poeta e artista, apto para imaginar fábulas e formas cheias de encanto, de graça e vida. Era sábio e filósofo, inclinado a levar até à extrema audácia a reflexão sobre o universo, sobre a natureza e sobre si mesmo. Repartia-se entre uma tendência racionalista, que o conduzia às mais ousadas negações, e uma tendência mística, que seu antigo e ininterrupto contato com o Oriente sempre alimentara, mas à qual a simbiose criada pela conquista de Alexandre atribuía vigor especial. […]” (AYMARD; AUBOYER, 1958, t. II, vol. III, p. 200).

Até que se prove em contrário, coisa que Bart D. Ehrman não fez e ninguém o fará, para mim, Jesus Cristo continuará a ser um personagem literário (assim como o alegado cristianismo palestino do século I, sobre o qual e seus demais personagens nada se encontrou até hoje) concebido numa conspiração para ultrapassar o judaísmo e ser eternamente justificado como um frágil personagem histórico a preservar as nossas tradições culturais.

“[…] Ao mesmo tempo, sou um historiador que considera importante não promover versões revisionistas do passado por motivos ideológicos enraizados em pautas não históricas. A produção de textos históricos deve seguir protocolos estritamente históricos. Não é meramente um meio de promover opiniões pessoais”. (Bart D. Ehrman, p. 329).

Ehrman repete no final o que disse no início do seu livro: “[…] Jesus existiu, e as pessoas que negam abertamente esse fato o fazem não porque analisaram as evidências com o olhar desapaixonado de um historiador, mas porque essa negação está a serviço de alguma causa própria. Do ponto de vista imparcial, houve um Jesus de Nazaré”. Não sei o que o autor diria do meu olhar nada miticista sobre a mesma negação. Só sei que se ele não freasse seu ímpeto de biblicista diferenciado quando chegasse ao personagem Jesus, jamais voltaria a dar aulas em qualquer universidade norte-americana. Da minha parte, confesso que não estou preocupado, como ele diz estar, com a (s) religião (ões) de bilhões de pessoas. Opiniões solidárias ou não com o fato em nada vão influenciar no curso que a história já tomou. Sabemos disso.

Referências

EHRMAN, Bart D. – Jesus existiu ou não? 1 ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2014.
AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 1958.
DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis: Vozes, 1966.
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1973.
LÉVÊQUE, Pierre. O mundo helenístico. Lisboa: Edições 70, 1967.
SAND, Shlomo. A Invenção do Povo Judeu: da Bíblia ao sionismo – Tradução: Eveline Bouteiller, São Paulo, Benvirá, 2011.

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