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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Menu Contos: Os Malditos

Mais um Conto tenebroso aos nossos queridos leitores.


OS MALDITOS

Dia 23 de Dezembro de 2009, mal sabia eu que um dia normal como tantos outros vividos por mim acabaria da maneira mais inesperada possível. Algo mudou tudo drasticamente, um erro talvez, não um erro comum. Nesse dia minha vida mudou, a vida de todos mudou. A da maioria acabou. Meus olhos nunca mais viram da mesma forma, o cheirode morte no ar, fedor insuportável e tão mórbido que até adormece minhas narinas. Meu corpo nunca foi tão testado, levei-o ao limite, mais do que o suportável, mas não mais do que o necessário. A vida de antes tida por alguns como o inferno, agora é para todos, pelo menos para os que restaram o paraíso perdido ao qual sonham em voltar. Dia amaldiçoado ao qual desejaria nunca ter acontecido.
Eram cerca de 17 horas e 40 minutos, me lembro de ter olhado no relógio um pouco antes, voltava do meu curso de inglês, bastante feliz por te-lo terminado e também por ainda estar de ferias, andava distraído ate que algo me assustou, um estrondo alto, parecia com uma batida de carro, logo a frente percebi que haviam varias pessoas descendo uma rua correndo e berrando feito loucas, algumas pareciam estar ensanguentadas percebi também que havia um acidente na direção que eles corriam achei tudo aquilo muito estranho e parei para observar, nesse instante vi que as pessoas correndo não estavam correndo de algo com um assalto ou coisa parecida e sim umas das outras, atacavam-se como animais. Havia pessoas ao meu redor, estavam como eu, parados, horrorizados com as cenas que viam, ao longe se ouvia uma sirene.
Logo olhei pra trás e vi uma ambulância vindo em alta velocidade e indo em direção ao acidente, ela passou por nós e quando chegava ao local algumas das pessoas que vinham correndo pularam na frente tentando impedi-la, após isso o motorista tentou desviar, o que fez com que a ambulância derrapasse e capotasse gerando um acidente maior ainda e após uma grande explosão.
Todos ficaram chocados com a cena, mas alguns que vinha correndo mais atrás não sofreram dano e nem se preocuparam com o que havia ocorrido, começaram a correr em nossa direção, foi ai que o inferno começou, mortos voltando a vida, caos por toda parte, e o pior de tudo é que era só o começo.

Droga! Parece que só estão aumentando, assim não vou conseguir, um breve olhar para trás me revela que já são cerca de 50 e vão aumentar!
Esses malditos correm muito, já não estou aguentando mais, tenho fome e estou muito cansado. Olho ao redor para tentar achar uma escapatória, mas é difícil pensar enquanto uma multidão de zumbis te persegue e o cansaço é eminente.
Antes, mortos-vivos me pareciam muita fantasia, sabe? Como uma coisa assim poderia realmente acontecer? É eu estava enganado. Avisto o supermercado onde costumava fazer compras, um inusitado pensamento de entrar, pra quem sabe despistá-los e conseguir comida, mas penso duas vezes e o risco de acabar encurralado e ter mais deles é imenso. Há uma praça bem em frente ao supermercado, vejo que sua atmosfera não é habitada por nenhum dos malditos e resolvo atravessá-la já que alguns obstáculos presentes nela poderão me ajudar a diminuir o número de zumbis.
Correndo por entre os bancos e arvores tento despistá-los de qualquer forma, mas não são bobos, sabem que sou seu alimento e não me perdem de vista nunca. Mais a frente pulo um pequeno muro da quadra da praça, pequeno o suficiente para que vários deles também o façam, alguns tem mais agilidade, acredito que os menos debilitados. Atravesso toda a quadra e logo após a praça encontro vários carros batidos e um caminhão de bombeiros tombado bloqueando o caminho.
Subo em alguns carros e pulo por cima do caminhão, o que me permite passar pelo bloqueio. Pelo menos isso os malditos não conseguem fazer, eu espero.
Olho em volta e ao pensar que dessa vez estava sozinho, o desfecho arranca meu alivio já que logo em frente cinco deles me avistam, parece que estávamos de encontro marcado. Me falta o ar e em uma tentativa desesperada inspiro bastante ar e ponho-me a correr novamente, indo para outro lado, estou muito cansado e a minha única opção é entrar em uma lan-house que era de um amigo e sei que poderei escapar pelos fundos. Entro na lan-house e logo avisto a porta dos fundos que está aberta. Corro até ela, pulo alguns computadores jogados no chão. Um escorregão me surpreende enquanto eles adentram o local, recomponho-me, pulo o balcão e deslizo sobre sua superfície. Saio pela porta que por sorte, muita sorte esta com a chave na fechadura, retiro-a e tranco a porta pelo lado de fora.
Logo em seguida ouço o barulho dos zumbis batendo contra ela. A porta não é muito fraca, mas dessa forma não aguenta nem cinco minutos, não com essas coisas fazendo de tudo para me alcançar, tenho que fugir e rápido. Viro-me e vejo que o cenário é assustador, três corpos mutilados, muitas manchas de sangue e órgãos "embelezam" o chão que nem ao menos posso ver de que cor é, parece que aconteceu recentemente, mas já estou "acostumado”. Quer dizer em todo lugar é assim, corpos em decomposição e muita destruição, a mente reconhece aquilo como algo já normal, mas mesmo assim não é. Nem poderia ser minha cabeça está confusa, tenho medo. Sinto que mesmo que consiga fugir disso jamais me esquecerei, sinto tudo isso cravado em minha alma e meu coração bate de uma forma diferente agora, sinto que ele também teme o que me amedronta.
O barulho na porta começa a aumentar e ela já mostra sinais de que está para ceder, não tenho muito tempo, as únicas saídas são pular o muro ou me trancar dentro do banheiro, nem sei se realmente considerei a segunda opção, o muro tem uns dois metros e meio, subo nele com um pouco de dificuldade, já que a força me falta.
Olho do outro lado e vejo uma garagem, parece ser um bom lugar para descansar e passar a noite, já que a mesma já está para chegar. Assim que deço do muro ouço o barulho da porta se arrebentando, durou menos que meu pessimismo.
Caminho até a garagem o mais rápido possível para não chamar a atenção de outros, após entrar fecho à porta, faço a tentativa inútil de acender a luz já que a eletricidade está em falta há muitos dias. Sem nada para comer, só me resta descansar, sento-me num canto. A luz quase não entra mais no cômodo, a janela se tiver muito é um palmo de comprimento. Umas caixas em cima de uma prateleira me chamam a atenção, resolvo olhar dentro delas para ver se encontro algo útil, há três delas olho nas duas primeiras e acho uma lanterna com pilhas, alguns cadernos, um calendário e uma calculadora não há absolutamente nada na terceira, pego somente a lanterna, acredito que só ela me será útil.
...
Já é noite e resolvo não ligar a lanterna já que posso precisar dela em outra ocasião, também para não chamar a atenção dos zumbis, penso se o cara que ouvi no rádio chamando pessoas para a estação de radio onde ele diz que é seguro e tem comida ainda está vivo. Espero que sim, é um tiro no escuro e tenho que acertar.
Devo estar há uns seis quarteirões de distancia. Deito-me usando a mochila como travesseiro, ainda deve ser umas oito da noite, mas o cansaço é tanto que o sono logo vem.
...
Acordo assustado com um barulho que ouvi, olho pela janela que é muito pequena para que se possa ver algo, tenho que chegar a estação de radio o mais rápido possível, mas antes preciso comer algo, não como nada a uns três dias. Bebo um pouco de água que também falta, me resta menos de meia garrafa.
Abro a porta da garagem pronto para correr se necessário, felizmente não há nenhum zumbi, resolvo olhar dentro da casa pra ver se acho comida, vejo uma janela aberta e vou em sua direção olho dentro da casa, não avisto nenhum deles e entro pela janela. A casa está toda destruída.
Não há nenhum corpo e nem sequer uma gota de sangue, vasculho toda a casa e não encontro nada que me sirva, nem roupas ou coisas do tipo. Nenhum zumbi passara por aqui, vou até a cozinha em busca de comida parece que é o único cômodo da casa que não parece um cenário de guerra, encontro algumas frutas, mas já estão podres, a geladeira não é uma opção já que a energia acabou há no mínimo 8 dias ou 10 já não me lembro, talvez 2 semanas. Olho dentro do armário e encontro algumas bolachas, a única coisa que encontro, dando mais uma vasculhada acabo deixando algumas panelas que estavam penduradas caírem, produzem um som oco de metal caindo sobre o chão de piso o que é o suficiente para poder chamar a atenção deles, tenho que sair da casa agora e rápido.
A porta dos fundos está trancada resolvo sair por onde entrei, vejo um vindo pela frente da casa pulo a janela e me escondo atrás de um arbusto ele passa tão rápido que nem me percebe. Minha única saída é ir pela avenida, vou com cautela e me escondendo para não chamar a atenção dos zumbis o que não adianta muito logo alguns deles me avistam, sentem meu cheiro? Me pergunto. Ponho-me a correr de novo, deve faltar umas quatro quadras até a estação mas não posso deixar que me sigam até lá, pego outro caminho para tentar despistá-los. Os gritos dos malditos são de arrepiar, gritos desesperados de pobres coitados, condenados a vagar e caçar seus ex-semelhantes. Viro uma esquina tão bruscamente que nem percebo a presença de dois deles logo a frente, mas eles me percebem e vêem em minha direção, não posso mais voltar.
Tenho que enfrentá-los. Minhas pernas tremem um pouco mas me mantenho firme, sinto como se pulasse de pára-quedas sem ter um, a emoção seria impagavel se não houvesse tamanho risco a minha vida. Enfim quando chego perto o bastante pulo sobre o primeiro desferindo um golpe com o joelho contra seu peito, seu corpo se afasta, mas mesmo assim suas mãos podres, frias e em decomposição agarram meu braço, giro toda minha extensão e lanço-o sobre a parede, o baque é seco, ele bate com cabeça, creio que esse não levanta mais.
O outro é mais lento e seu reflexo não é suficiente para me alcançar, nunca me imaginei encarando a morte de tal maneira e hoje em dia isso é "normal". Mas agora a multidão que me perseguia está mais próxima e não consigo achar nenhuma maneira de escapar deles até que avisto um terreno com uma cerca de arame alta, é minha salvação. Subo nela em um pulo e já caio do outro lado, enquanto eles já trombam com a cerca tentando derrubá-la e parece que vão conseguir logo. Bom essa foi por muito pouco, sinto meus braços trêmulos e o suor escorrendo pelo meu rosto, é melhor seguir logo. Acabo de perceber o quão sortudo fui instantes atrás, o maldito que joguei contra a parede poderia ter me arranhado, confiro novamente e está tudo bem. Corro em direção ao outro lado do terreno, onde pulo novamente a cerca e vou em direção há uma passagem entre as casas, uma espécie de atalho, há muitos corpos entre ela, é impossível ver o chão, sangue e tripas por toda sua extensão, atravesso-o rapidamente, o único problema é que agora estou longe do meu objetivo.
Então após ver um estacionamento me vem à cabeça uma idéia que não havia tido até agora: pegar um carro, acho que passei muito tempo trancafiado em meu esconderijo.
Corro em direção ao estacionamento escolho o carro que está em melhor condição e que não tem alarme nem sei que carro é, também não me preocupo em olhar, quebro o vidro com alguns chutes, entro e a chave não está no carro o que é lógico. Faço uma ligação direta, coisa que aprendi em filmes, adorava ver filmes, mas agora não há mais como, poderia dizer que é como se estivesse dentro de um, mas nem de longe são como a realidade.
Saio do estacionamento e começo a dirigir em direção a estação, não demora muito ate que apareça mais zumbis que se chocam contra o carro tentando me devorar, não hesito em acelerar o carro e mandá-los para o inferno, é difícil dirigir tendo que ser rápido para fugir de mortos canibais e ainda tendo que desviar de carros acidentados, mas consigo despistar alguns que me perseguiam. Com toda a correria minha fome tinha parado de incomodar, mas agora ela volta a incomodar e maior dessa vez, por um breve momento até me sinto tonto. Minha cabeça parece girar, quase perco o controle do carro, mas por sorte não havia nenhum obstáculo. Sigo guiando o carro até a estação de radio até que os olhos me saltam da cara, um susto repentino me faz pisar no freio, avisto mais deles há frente, uma multidão de zumbis.
Não contei mas se tiver uns trezentos vagando pelas ruas sem rumo é pouco, não penso duas vezes e dou meia volta. Agora tenho que pegar um caminho mais longo, momentos de sorte como esse me fazem continuar. E pensar que já estive tão perto de chegar a estação. Durante uns 10 minutos, sigo evitando passar por onde haja zumbis é difícil , mas finalmente chego ao lugar. Está todo fechado. Pelo menos parece tudo bem, nenhum dos malditos me seguiu até aqui e não há nenhum por perto, penso em como chamar a atenção do cara que espero que ainda esteja lá dentro, vou saindo do carro, sinto me tonto novamente dessa vez é mais forte, minha visão embasa e minhas pernas fraquejam, não consigo ficar em p...

Dia 23 de Janeiro de 2010, 17h06m – Estação de rádio.

O sol arde queimando corpos putrefatos estirados por toda parte, há muito esquecidos por aqueles que povoam as ruas mortas e desertas. Parecera só mais um dia “tranquilo” para Joe, nenhum deles percebera sua presença, nenhum corpo com vida povoava a paisagem das ruas que alem de desertas, são inseguras como nunca.
Joe se encontra sentado na mesa em frente os monitores das câmeras de segurança, terminando de limpar sua arma como faz todos os dias, seu rosto revela certo espanto quando vê duas pessoas aparentemente vivas na câmera da entrada, um homem e uma mulher, eles vêem as câmeras, mas não dão a mínima importância já que sabem que energia está em falta.

Joe os observa por alguns segundos até que tenha certeza de que estão realmente vivos, ele olha para outros monitores a procura de zumbis, o casal parece estar espantado, Joe monta sua arma e segue até a entrada, a ultima pessoa viva que encontrara foi um homem desesperado que explodiu a própria cabeça com um tiro após ser mordido. Ao chegar, ele retira o bloqueio que fez no portão de entrada e o abre. Ao mesmo tempo o homem que esta do lado de fora aponta sua arma para Joe que já se encontrava com a sua empunhada.
-Abaixa a arma – diz Joe.
-Calma ai cara – diz o homem ainda assustado levantando as mãos – foi você que colocou a mensagem no rádio?
A mulher se protege escondendo-se atrás de seu companheiro.
-Me da à arma - diz Joe se aproximando alguns passos dos dois.
-Ta legal cara, vou coloca ela no chão e chuto ela pra...
-Não - interrompe a mulher segurando o braço dele.
-Me larga Jéssica, a gente não tem outra escolha – diz ele olhando para ela.
Ela consente e o solta, ele coloca a arma no chão e a chuta para Joe, que a pega e coloca na cintura.
-Entra, vai – diz Joe abrindo passagem e apontando com arma para que eles adentrem o portão.
O casal segue em passos lentos até a entrada enquanto Joe ainda aponta a arma na direção deles.
-Rápido – diz Joe novamente.

O casal entra, Joe faz um sinal com a mão para que eles se afastem e olha para a rua procurando algum inimigo.

Não avista nenhum. Carros acidentados e sangue por todo lado, somente o de costume.
Ele também entra e tranca o portão, o casal continua imóvel, Joe abaixa a arma.
-Quem são vocês? – indaga Joe.
-Meu nome é Lucas – responde o homem – e ela é Jéssica.
-Vocês foram mordidos? – pergunta Joe novamente.
-Não, não a gente ta bem pode confia.
-E por que vocês vieram até aqui?
-Nós ouvimos a mensagem no rádio, e viemos até aqui já que na mensagem diz que é seguro e tem comida – responde Jéssica – e você quem é?
-Meu nome é Joe, e o que você tem dentro dessa mochila ai Lucas?
-Ah, só algumas coisas tipo roupas, e um pouco de comida, quer olhar?
Joe balança a cabeça negativamente e guarda a arma no coldre.
-Joe, que nome estranho – diz Jéssica
Lucas a olha e da uma leva cotovelada em seu braço
-É, agora me ajudem a colocar isso aqui de volta - fala Joe apontando com a cabeça para algumas cadeiras e madeiras que ele usava como barricada.

Dia 24 de Janeiro de 2010, 8h16m – Estação de rádio.

O sol já esta forte e as ruas ainda “desertas”, rastros da destruição, os pássaros cantam deixando uma melodia agradável no ar até que um grito de dor ao longe faz com que Joe desperte de seu sono.
Ele se levanta e pega sua arma, a coloca em seu coldre e em seguida vai até os monitores para verificar se está tudo bem, muitas das câmeras de segurança de dentro da estação não tem visão alguma, as janelas permanecem fechadas. Ele não vê Lucas e nem Jéssica nos monitores, vou até onde eles passaram a noite, pois lá não há câmeras – pensa ele.
Joe anda cautelosamente por entre os corredores frios e escuros, atento a qualquer coisa Joe ouve algumas batidas rápidas que em seguida param, desconfiado ele segue em frente, mais alguns passos e as batidas voltam a assombrar o local e dessa vez mais alto, Joe saca sua arma e começa a dar passos mais lentos.
Esgueirando-se próximo a parede Joe se aproxima do local onde o casal passara a noite, as batidas voltam e dessa vez Joe sabe de onde estão vindo, da sala dos instrumentos - pensa ele. Mas a sala dos instrumentos fica na outra ponta do corredor perto do refeitório, ele chega até o local e chama pelos outros dois, após alguns segundos nenhuma resposta é ouvida, Joe abre a porta e aponta a arma para o interior do local.

Ninguém, o lugar se encontra todo desarrumado, as coisas do casal estão espalhadas pelo chão, Joe não pensa duas vezes e segue em direção a sala dos instrumentos. Enquanto ele caminha em direção a sala as batidas se repetem por mais duas vezes e mais altas, fazendo com que Joe tenha certeza de onde estão vindo.
Ele chega e as batidas estão sendo dadas na porta da sala.

Joe chama pelos dois novamente e como da primeira vez nenhuma resposta é dada, as batidas param, Joe coloca a mão sobre a maçaneta e abri a porta, no mesmo instante algo pula sobre ele, fazendo com que caia no chão e deixe sua arma cair também. É um dos mortos-vivos, ele tenta morder o pescoço de Joe que o segura e quando vê seu rosto quase não acredita, é Jéssica quem tenta morde-lo, Joe a segura com uma mão e com a outra ele desferi um soco em seu rosto, dando espaço suficiente para que Joe a chute fazendo ela cair dentro da sala depois de tropeçar em algo no chão.
Alguns instantes depois e a mulher já está novamente de pé, seu cabelo caído sobre sua face não impedi a visão de seus olhos completamente negros que transmitem raiva e medo, seu nariz agora quebrado jorra sangue como água.
Ela olha fixamente para seu alvo, mas não há tempo para atacá-lo novamente. Joe já esta de pé e com sua arma em mãos, ele dispara uma única vez. O barulho do tiro é seco e muito alto, correspondente à potência, a bala acerta o olho direito da mulher, atravessando sua cabeça e parando na parede há três metros atrás. Seu corpo já sem vida antes e agora com muito menos cai sobre o chão. Alguns segundos se passam e já há sangue por todo o chão inclusive no corredor e na mão de Joe que a limpa em sua camisa e entra na sala há procura de outro possível inimigo, Joe não encontra ninguém no local, assim como no prédio inteiro, Joe passara horas vasculhando o lugar à procura do companheiro da mulher, mas ele simplesmente desaparecera, ele não fará companhia para Joe e nem o incomodará.

Acordo com a luz do sol batendo em meu rosto. Levanto assustado após lembrar a situação em que estava, mas não estou mais em frente à estação de radio. Estou no que aparenta ser uma sala, estava deitado em um sofá. Tudo está perfeitamente colocado onde deveria estar. Impecável. Vejo alguns quadros nas paredes, plantas e aos meus pés avisto minha mochila.

Há uma janela bem grande por onde entra bastante luz. Levanto-me com um pouco de dificuldade e sigo em direção a ela, estou no segundo andar, lá em baixo avisto alguns zumbis do outro lado do muro que cerca o lugar.
Estou dentro da estação de rádio, mas não faço a menor idéia de como vim parar aqui. Sinto uma forte dor de cabeça e bem a ultima coisa que me lembro é de sentir-me bastante tonto e fraco. Provavelmente devo ter desmaiado. Ouço algo vindo do corredor, de longe olho pela fresta da porta que está entreaberta, está tudo escuro. Pego minha mochila, coloco-a nas costas, enquanto sigo ate à porta sinto minhas pernas fraquejarem, mas me mantenho firme. A tensão aumenta, nunca vou me acostumar com isso.
Coloco a mão sobre a maçaneta e abro a porta devagar para não fazer barulho. Preparado para correr se necessário, do outro lado da porta um corredor escuro se revela. A única luz que clareia o lugar é a luz da sala onde eu estava e de uma janela no fim do corredor. Sinto o medo em minhas veias, não sei o que pode ter acontecido enquanto eu estava desacordado, ando devagar pelo corredor em busca de alguém que possa estar por aqui.

Vejo uma escada mais adiante, vou a sua direção quando levo um susto.

-Está procurando algo? – pergunta uma voz misteriosa.
Viro-me rapidamente a procura do autor da voz. Vejo-o escorado perto da janela.
-Quem é você? – pergunto num tom assustado.
-Meu nome é Joe.
-Você é o cara do rádio? – pergunto novamente.
-Sou eu sim.
Ficamos em silencio por alguns instantes enquanto ele se aproxima.
-Como é que é seu nome mesmo? - indago.
-Joe e o seu?
-Felipe... mas me fala, como é que eu vim parar... arghh – sinto-me fraco novamente e é mais forte, sento-me no chão.
-Você está bem? – pergunta Joe.
-To sim, só to com fome.
-Vem, te ajudo a levantar – diz ele já me ajudando – consegue andar sozinho?
-Consigo sim cara, valeu.
-Vamos lá pro refeitório que eu preparo alguma coisa pra você comer.

Ele começa a andar e não vejo outra saída senão segui-lo em direção ao refeitório, o lugar está em ordem, tudo limpo e em perfeitas condições. Exceto por uma parte do corredor que está tomada por sangue que vem por debaixo de uma porta, o que me chama a atenção, mas resolvo nem perguntar.
A escuridão toma conta de todos os corredores, todas as portas por onde passamos estão fechadas e muitas janelas também.

Depois de andar um pouco chegamos ao refeitório, que também está em ordem, nem parece que o mundo lá fora está um caos...

-Felipe – me chama Joe interrompendo meu pensamento.
-Oi
-Senta ai que eu preparo algo pra você comer.
-Valeu cara.

Joe entra numa sala. Sento-me numa cadeira, coloco minha mochila sobre a mesa, a fome incomoda mais do que nunca. O barulho dos malditos lá fora pode ser facilmente ouvido de dentro do refeitório, vou até a janela e para meu espanto o numero de zumbis deve ter dobrado desde a hora em que acordei. O que não faz muito tempo.
Uma multidão deles tenta derrubar o portão que parece ser bastante resistente e ainda está reforçado com uma barricada. Muitos deles ficam trombando contra o portão, andando sem rumo por entre a multidão, mas alguns atacam o portão como se dependesse de sua existência, fazem grunhidos assustadores. Cenas horripilantes, não ha como se esquecer de tais coisas, parece tatuado em minha mente ou alma e por mais que eu tente sei que jamais me esquecerei de tudo que vi e que daria de tudo pra jamais ter presenciado.
Acho que estamos seguros por um tempo, viro-me para voltar à cadeira, mas uma luz vem de dentro da sala onde Joe entrou e me chama a atenção. Resolvo ir até ela para ver a origem dessa luz, mas antes que eu chegue às luzes do refeitório se acendem. Joe sai da sala e me entrega um prato com dois sanduíches e uma garrafa de suco.

-Espero que você goste de pão com presunto e mussarela – diz ele.
-Não esquenta não cara, mas como que aqui que tem energia? – pergunto.
-Bom, é porque aqui tem dois geradores e se não tivesse como eu iria transmitir a mensagem pelo rádio? – diz Joe enquanto se senta.
-Entendi.

Sento a mesma mesa em que ele está, coloco o prato sobre a mesa e pego um dos sanduíches na mão. Olho para o sanduíche e em seguida para Joe que agora possui uma arma em mãos.
Não há como não desconfiar dele. Veneno? Meu coração bate num ritmo diferente, será que Joe seria capaz de tal coisa e ainda esse nome, Joe? Não é um nome comum no Brasil. Talvez seja de fora, mas não tenho escolha. Se não acreditar em sua boa índole irei fazer o que? Sair correndo e passar pela multidão em frente ao portão. Há essa altura digo que dei a primeira mordida com certa parte de mim despreocupada se haveria veneno ou não. Também não haveria razões para me salvar se quisesse me matar em seguida, a não ser que fosse um sádico ou coisa do tipo.

-Ae Joe, como é que você sabia que eu estava lá fora?
-Foi quando acordei e olhei nos monitores das câmeras de segurança, vi quando você saiu do carro e desmaiou, achei que você estava infectado e que iria se tornar um deles, mas depois de uns 15 minutos olhei novamente e você ainda estava lá caído. Resolvi ir lá pra ver mais de perto, quando eu cheguei mais perto, logo percebi que você não era um deles. Ai quando eu estava te trazendo pra dentro, alguns deles nos viram, depois só foram aumentando.
-Valeu por ter me ajudado – talvez desconfiara a toa.
-Não foi nada, você que teve muita sorte por nenhum deles ter te visto enquanto estava caído, mas Felipe se você quiser, tem mais comida lá dentro pode preparar pra você.
-Não cara, valeu melhor eu não comer muito - nem acabei de comer os sanduíches.
-Você que sabe, mas eu estava pensando, nós temos que sair desse lugar o mais rápido possível – diz Joe enquanto caminha até a janela.
Penso por alguns instantes e digo.
-Concordo, mas cê já penso pra onde a gente vai? – digo chegando perto da janela também.
-Bom, eu estava pensando em sair de Uberaba.
-Ah, não sei não cara, no segundo dia quando a TV ainda funcionava deu no jornal que o triangulo mineiro já tava quase todo infectado. Se sairmos de Uberaba vai estar do mesmo jeito nas outras cidades – também sigo até a janela.
-É, mas você já pensou se eles conseguiram conter a infecção. Nós temos que tentar, senão vamos acabar morrendo aqui, sem ao menos ter tentado.
-É olhando por esse lado até que faz sentido, mas eu não acho que ajam muitas chances de terem contido isso e se for pra gente sair, acho melhor irmos pra Uberlândia já que daqui até lá da cerca de uma hora e meia e lembro que o abrigo de sobreviventes de lá era o único que ainda tinha resistido.
-Então ta certo, mas agora precisamos sair daqui...
-Perai – interrompo depois de tomar um pouco de suco – como é que a gente vai passar por eles? – pergunto apontando com a cabeça para os zumbis.
-Nós não vamos por ai, vamos pelo estacionamento, lá do outro lado onde está meu carro.
-Então ta certo, cê quer ir quando? – pergunto e dou uma mordida já no segundo sanduíche.
-Primeiro pegamos toda a comida que ainda resta, a água e colocamos no carro, depois é só ir embora - responde ele - pra mim o quanto antes nós sairmos melhor.
-Tá certo

Joe tira a mensagem do radio, não conversamos muito enquanto arrumamos tudo, eu fiquei para abrir o portão que tem que ser aberto de dentro da sala do segurança, Joe fica encarregado de ir dirigindo já que diz o fazer muito bem.
Joe se encontra no carro em frente ao portão. Sigo em direção a sala do segurança, fica do lado do portão, entro e encontro um corpo. O fedor é muito, mas de certa forma já me acostumei. Encontro o botão e o aperto, o portão começa a abrir lentamente.
Olho a procura deles, parece tudo bem, sigo em direção ao carro que está bem próximo do portão, entro no carro e Joe começa a dirigir vagarosamente. Nós saímos pelo portão. As ruas estão bastante calmas, não há muitos carros acidentados.

Pergunto a Joe se ele é daqui da cidade e ele me diz que vem dos Estados Unidos e que só passaria um tempo na cidade. Isso explica o nome, e o fato de que ele escolheu uma péssima época pra passar um tempo na cidade.

Os enfeites de natal ainda permanecem nas casas e lojas, 23 de Dezembro, o dia em que tudo começou.
De certa forma é irônico tudo ter acontecido nesse dia, depois de alguns dias em que vi um filme chamado Número 23, onde a trama do filme é toda envolvida com o número 23 e no mesmo onde são citadas varias datas importantes ou que marcaram a historia, tudo relacionado com 23, agora eles têm mais uma.

Passamos por alguns zumbis que nos perseguem por algumas quadras, mas logo os despistamos, logo teremos que parar o carro para abastecer, enquanto procuramos um posto para abastecer, me distraio olhando a destruição dos lugares. A forma como tudo era normal e em questão de horas mudara...
-Não – grita Joe
Assusto-me com seu grito e antes mesmo que olha o que acontecera também ouça o vidro quebrando e o impacto de carro que começa a capotar.
Fecho meus olhos, sinto o carro capotando varias vezes e parando de cabeça para baixo.

Abro olhos, me sinto tonto, minha vista está um pouco embaçada e não consigo ouvir nada. Começo a voltar ao normal ao ouvir um tiro. Olhando para o lado vejo somente os pés de Joe do lado de fora, tento soltar o sinto mas não consigo, olho novamente para o lado e avisto os zumbis correndo em minha direção, começo a ficar desesperado, Joe desaparecera, deve ter fugido, mas não o culpo. Em uma situação como essa não sei qual seria minha reação, à medida que eles se aproximam sinto o medo tomando conta de mim, é desesperador. Tento me acalmar, por um instante só observo os malditos chegando cada vez mais perto, sinto o sangue do ferimento em minha testa escorrendo por entre meu cabelo. A situação não é nada boa e com nenhuma ajuda a caminho, talvez não seja meu dia de sorte.

Sinto meu coração acelerando como nunca, o medo em minhas veias se espalha cada vez mais rápido. Maldição! Não consigo soltar o cinto e os zumbis se aproximam cada vez mais, loucos para arrancar um pedaço de mim. Mas não vai ser tão fácil. Forço e enfim consigo soltar o cinto, bato a cabeça contra o chão, agarro minha mochila e no mesmo instante sinto um forte puxão na minha camisa vindo de trás. Era só o que faltava vieram do outro lado também, o puxão é forte o suficiente para me tirar do carro, viro-me visando golpear o maldito, mas me surpreendo ao ver que foi Joe quem me puxou.

-Corre – diz ele já começando a fazê-lo.

Levanto-me, olho rapidamente com o canto dos olhos pra trás, eles são mais do que eu imaginara, coloco minha mochila nas costas e ponho-me a correr. Um deles está há apenas alguns passos de mim, o que me motiva de certa forma e me da força extra para correr.
-Rápido, ele está chegando! – grita Joe olhando para trás enquanto vira uma esquina mais a frente.
Sinto os dedos do zumbi relando na minha mochila, nem pensar maldito, corro mais do que consigo, meus músculos pedem para que eu pare, mas não posso.
Sigo Joe e também viro a esquina, não há nenhum deles a frente, é uma decida. Joe já está bastante adiantado. Descendo a rua em alta velocidade, começo a alcançar Joe. O maldito também começa a me alcançar novamente e chegando ao final da descida acabo tropeçando, por sorte me mantenho em pé e em uma breve olhada para trás ouço o estrondo de um tiro que me faz proteger a cabeça com os braços. O tiro explode a cabeça do zumbi que estava a alguns passos de mim, seu corpo capota passando por mim e parando mais adiante.
Viro-me para continuar minha fuga, mas não foi Joe quem atirou. Ele se encontra parado no fim da rua olhando para o segundo andar de uma casa onde há um homem de posse de um fuzil, o portão da casa é aberto, uma mulher abre o portão e grita algo incompreensível, mas claramente a vejo fazer um sinal com a mão nos chamando até ela. Joe também a vê e grita me chamando, em seguida corre em direção a casa.
Ouço os gritos dos zumbis se aproximando, começo a correr e mais tiros são disparados. Entro no portão, a mulher o fecha rapidamente bloqueando-o com uma barra de ferro.
-Sobe, rápido! – grita ela.
Começo a subir a escada a minha frente que leva ao segundo andar, enquanto ainda subo a escada, ouço o barulho dos zumbis batendo contra o portão. Chegando ao segundo andar avisto um cara alto com um cabelo estilo black power olhando para mim, ele corre até a janela onde está o cara com um fuzil nas mãos e olha para fora.
-Viu disse que não era uma boa idéia chamar eles pra cá! – grita ele apontando pra mim e Joe – agora eles sabem que estamos aqui!
O sujeito que empunha o fuzil o olha nos olhos.
-E você queria o que? Que a gente deixasse eles morrerem sem fazermos nada para impedir? Vê se para de reclamar e faz alguma coisa útil como cala essa boca! – grita ele agarrando o outro pela gola da camisa.
O mais alto da uma investida para trás se soltando das mãos do companheiro.
Eu e Joe só observamos a discussão.
A mulher impede que uma briga aconteça, o mais alto nos olha enfurecido e sai do cômodo.
-Olha, não liga pra ele – diz a garota se aproximando – ele é meio louco mesmo.
-Sem problemas – diz Joe.
-Ele meio que tá certo, vocês se encrencaram para nos ajudar.
-Não fala isso garoto – diz o outro – não podia deixar que algo acontecesse com vocês e nós aqui podendo ajudar, sem fazer nada.
-Valeu mesmo cara.
-Deixa disso, eu sou Eduardo - diz ele estendendo a mão para me cumprimentar.
-Meu nome é Felipe – digo apertando a mão de Eduardo.
-Fernanda - diz a garota levantando a mão, que por sinal é bem atraente usa o cabelo solto, uma calça jeans e uma blusa preta deve ter cerca de 22 anos.
-E eu Joe.
-Como? – pergunta Fernanda.
-Joe, é que não sou do Brasil – explica ele.
Eduardo também cumprimenta Joe.
-Policial? – pergunta Joe a Eduardo.
-Acho que a essa altura posso dizer que era, mas como...
-O fuzil – diz Joe o interrompendo – é da policia militar de Minas.
-Certo.
Trocamos algumas palavras até que por fim ficamos em silencio por alguns instantes, temperatura sufocante, mortos-vivos almejando nos devorar e o medo constante assombrando a todos.
Eduardo carrega seu fuzil o coloca sobre uma mesa e olha pela janela.
-A gente tem que arranjar um jeito de sair daqui – diz ele – aquele portão é resistente, mas com tantas dessas coisas lá não dou mais de 20 minutos até eles entrarem.
O único som ouvido são os gritos dos zumbis se debatendo contra o portão do lado de fora.
Olhares são trocados por todos, menos Joe que observa o lugar parecendo procurar algo.
Joe segue até a janela e olha para fora, em seguida entra na cozinha que fica a direita, nós o seguimos, ele olha pela janela da cozinha.
-Nós podemos descer por aqui e sair pela casa ao lado, ela da na outra rua – diz Joe.
-Não dá – responde Eduardo.
-Por que não? Nem é muito alto – Pergunto.
Fernanda se retira voltando ao cômodo que estávamos antes e em seguida ouço o barulho de uma porta se fechando.
-Porque minha mãe e minha filha pequena também estão aqui e elas não vão conseguir descer por ai - responde Eduardo.
-E não tem uma escada? – pergunta Fernanda voltando à cozinha.
Eduardo somente balança a cabeça negativamente.
-Na casa ao lado tem – diz Joe.
Os olhares se voltam para ele.
-Na casa ao lado tem, algum de nós só precisa descer até lá e posicionar ela para os outros possam descer.
-Eu vou – digo antes de qualquer resposta.
-Te dou cobertura – diz Joe abrindo espaço para que eu passe.
-Ta certo, vocês podem cuidar disso enquanto nos arrumamos nossas coisas? – pergunta Eduardo.
-Sem problemas – responde Joe.
Eduardo e Fernando se retiram.
Olho pela janela, coloco meu corpo para fora, me agarro na parte de baixo da janela e me penduro. Agarrando-me a janela a queda até o chão diminui para uns 3 metros, nada que me empeça, uma ultima olhada para ver se está tudo bem e me solto, nem chego a sentir o impacto.
Viro-me e lá está ela, a escada está pendurada na parede, sendo segurada por duas hastes de ferro ou qualquer outro material metálico, olho em volta o quintal está totalmente limpo, acho que nenhum dos malditos abita o local. Pego a escada e a posiciono em baixo da janela, ela não alcança a janela por uns 40 ou 30 centímetros, mais do que o suficiente.
Ouço a voz de Eduardo dizendo algo, em seguida Fernanda desse a escada.

Dia 26 de Janeiro de 2009, 18h59m – Rua Manuelino Guimarães

Eduardo mira com seu fuzil e dispara acertando o ultimo zumbi que restara de pé.

-Já vi um lugar perfeito – diz Fernanda apontando para uma loja Esportiva.

Eduardo olha para onde Fernanda aponta e todos começam a correr em direção à loja, Joe chega primeiro e atira no cadeado ao mesmo tempo em que Eduardo cobre a guarda de todos com seu fuzil.
Joe levanta a porta e entra apontando a arma, Eduardo também aponta a arma para o interior da loja que parece estar calmo. Joe faz um sinal com a mão para que os outros entrem. Eduardo da um passo e ouve Fernanda chamando seu nome.
- O que? – pergunta Eduardo.

-Cadê sua filha? – pergunta Fernanda assustada.

Rapidamente Eduardo olha em volta, depois para trás e não encontra sua filha. Seu coração dispara e Eduardo sente o medo consumindo seu interior. Ele se afasta alguns passos do grupo.

-Michele! Cadê você filha! – grita Eduardo olhando rapidamente em todas as direções.

-Michele! – grita Fernanda o ajudando a procurá-la.

-Michele! Michele! – grita Eduardo fortemente.

Ele não sabe o que fazer.
-Droga, eu preciso ir atrás dela, vocês ficam aqui que eu vou atrás dela – diz ele tomando uma atitude e começando a correr.
Eduardo corre olhando em volta, nem ouve Fernanda o chamar, chega a uma esquina olha em todas as direções e nada. Pensa um pouco e resolve refazer o caminho percorrido por ele e os outros.
Eduardo tenta se acalmar, para um instante, respira fundo, pensa positivamente e recomeça a busca. Começa a andar com calma olhando para os lados procurando a filha se assusta ao ver um vulto a sua direita, mira a arma no mesmo instante e atira duas vezes.
Não acertara nada, somente o muro de uma casa. Eduardo tenta não pensar no pior, mas algo parece não deixar e um pensamento de que sua filha há essa hora já esta morta possui sua mente e o faz entrar em pânico novamente. Lagrimas escorrem de seus olhos perdidos na atmosfera destrutiva. Eduardo inicia a andar mais rápido. Não pode suportar a dor de perder outro amor de sua vida, seu coração aperta e Eduardo sente a dor de que realmente perdera sua filha, por um instante para de olhar para os lados a procurando e começa a se culpar.

Duvida de sua capacidade como pai, se auto inflige ofensas.

Ouve alguns passos e olha em volta, nada, somente ruas vazias, lixo pelo chão, carros abandonados como se não valessem nada, sangue e a desesperança que povoa as ruas no lugar de pessoas.
Eduardo chega a uma praça que passaram antes e vê um boneco do Papai Noel come cerca de três metros no meio da praça e não se lembra de te-lo visto, segue até ele apressadamente, chega ao boneco e olha em todas as direções tentando lembrar de que caminho viera, ao ver um caminhão estacionado a sua direita se lembra ter passado por ele.

Corre rapidamente na direção do caminhão, olha em volta dele e só encontra um corpo estirado no chão em decomposição há muito tempo, sente o meu cheiro e tapa o nariz com uma das mãos. Vira-se em busca da filha e vê alguém parado no meio da rua.

Eduardo mira seu fuzil e começa a se aproximar devagar, sente medo, não sabe se é um deles e grita.

-Ei! Você ai!

Não obtém resposta e atira. As balas se perdem no ar, Eduardo ouve alguém o chamar, vira o rosto seguindo a voz e não encontra ninguém. No mesmo instante alguns zumbis aparecem virando a rua e seus olhares frios se encontram com o olhar de Eduardo que começa a andar de costas, lembra da filha e pensa nela sendo devorada por zumbis. 

Uma fúria incandescente atingi seu coração.

Eduardo aperta a arma com as mãos, a levanta apontando para os zumbis que começam a correr em sua direção, posiciona a arma na altura certa, fecha um dos olhos, e posiciona o outro na mira da arma.
Atira derrubando o primeiro, ele aperta o gatilho novamente e acerta outro na cabeça.

Quando puxa o gatilho novamente ouve um barulho que não esperava. A arma esta sem balas. Ele tira o pente e procura por outro no bolso, mas não encontra. Pega sua pistola presa ao coldre na perna, deixa o fuzil de lado e mira a pistola.

Assusta-se ao os ver tão perto, dispara uma vez e começa a correr. Sente frio na corrida, se desespera, procura uma fuga, vira uma esquina a direita e se esconde atrás de um muro.
Se agacha e esfrega os braços com frio. Ouve os zumbis passando, os gritos o fazem ter menos esperança de encontrar sua filha, ouve os gritos atentamente até que começam a ficar mais baixos. Foram Embora - pensa ele. Sente-se seguro a sair e o faz cuidadosamente, olha em volta, os vê correndo ao longe.

-Se livrar deles é bem mais fácil quando se está sozinho – sussurra Eduardo dando um pequeno sorriso.

No mesmo instante a culpa o atingi novamente como uma faca perfurando-lhe no coração, olha para os lados procurando a filha e retoma o caminha percorrido antes, vasculha canto por canto da rua, encontra um deles andando perdido perto de uma padaria e o acerta com um tiro na cabeça.

Ainda desesperado Eduardo procura Michele antes que anoiteça, lembra-se de ter passado por ali com sua filha ainda, na verdade não se lembra quando parou de prestar atenção nela. Isso o faz desmoronar. Um pai de verdade não faz isso - pensa ele.

Resolve voltar e procurar mais por onde já procurou. Encontra mais dois zumbis e os derruba facilmente, começa a correr com medo que escureça.

Vira uma esquina e seus olhos se enchem de lagrimas e dessa vez de alegria, vê sua filha parada perto da praça que tem o Papai Noel.

Mira a arma em volta com medo de que algum zumbi a veja e a ataque, mas não há nenhum deles.

Abre um sorriso enorme e a chama. 

Ela se vira rapidamente e começa a correr na direção do pai. Eduardo vê sua filha sorrindo e correndo em sua direção, pensa em como não se sentira feliz dessa forma há muito tempo, se agacha para abraçá-la, quase pode sentir o abraço dela. Michelle se aproxima ainda correndo, Eduardo a abraça.

Mas senti uma forte dor pescoço, afasta a filha rapidamente e leva a mão esquerda ao pescoço. Esta sangrando e muito, olha assustado para filha e caindo sobre o chão, já com a vista fraca percebe que sua filha não é a mesma. Seus olhos totalmente negros revelam algo ruim, não é mais aquele olhar meigo que viu antes e adorava ver quando brincava com ela. O sorriso até estonteante de lindo que se formava em seu rosto se transformara em uma boca cheia de sangue, faltando um pedaço, provavelmente uma mordida. Eduardo não acredita e já com dificuldade de respirar ele vê mordidas no braço da filha ensanguentada.

Lagrimas escorrem pelo seu rosto agora manchado de sangue, se sente fraco, a filha o ataca novamente. Dessa vez começara a mordê-lo na perna, Eduardo se engasga com o próprio sangue que jorra pela boca. O braço já sem força amolece fazendo com que pare de tapar o ferimento no pescoço e com os olhos quase fechados, num ultimo esforço tenta dizer algo, mas se despede do mundo sem dizer Adeus. Seus olhos que não se fecharam ainda parecem olhar para aquela que já não é mais sua filha o devorar enquanto a carne está fresca.
Agora quem desse a escada é uma garotinha, provavelmente a filha de Eduardo, ela desce devagar, deve ter uns 5 ou 6 anos, Fernanda a ajuda.
Em seguida desce o cara alto o qual eu não sei o nome, depois uma senhora que provavelmente tem uns 60 anos, deve ser mãe de Eduardo, que desce antes de Joe que é o ultimo, todos carregam mochilas menos a senhora e a garotinha.
-Felipe – diz Eduardo.
Eu olho em sua direção, ele tira uma arma da cintura.
-Sabe usar uma dessas?
-Sei sim.
-Pega – diz ele novamente me entregando a arma.
Eu a pego, é uma beretta 92, nunca havia tocado em uma arma antes desse inferno todo, mas as conheço, principalmente pelos milhares de filmes que já vi, na verdade usei muita coisa que vi em filmes pra conseguir chegar até aqui, nem tudo é verdade, mas sempre há algo útil.
Ele me entrega dois pentes também.
O cara alto também segura uma em mãos, Eduardo segue com seu fuzil e mais uma em seu coldre.
Joe vai à frente do grupo, a casa é bem grande, mas parece que ninguém passa por aqui há meses. Um barulho é ouvido da casa de onde saímos, os malditos devem ter conseguido entrar, é hora de partir, as portas estão todas trancadas, nem pensamos em abri-las, seguimos direto ao portão onde há uma surpresa.
O portão está trancado.
-Atira nessa porra – diz o cara alto.
-Escuta Rafael, quando cê vai para de fala merda ein cara? – diz Eduardo – nem se a gente quisesse o cadeado ta do lado de fora.
-É só pula o muro e atira nele – responde Rafael.
Eduardo abre a boca pra falar, mas é interrompido por Fernanda.
-Já que cê vai subi no muro aproveita e pula de cabeça no chão, será que você não entende que a gente não pode fazer barulho, gênio.
Eu posso fazer isso, só preciso de uma coisa e se tiver sorte ainda esta dentro de minha mochila. Tiro-a das costas abro o bolso onde costumava deixá-los.
Remexo nas coisas dentro do bolso e os avisto, os pego rapidamente e coloco a mochila novamente nas costas, a discussão só piorara e a essa altura os zumbis devem ter percebido nossa misera existência.
-Calma ai porra! – grito – eu tenho uma idéia.
Somente Joe me da atenção, Eduardo e Rafael estão discutindo a ponto de apontarem as armas um para o outro, Fernanda tentam impedir que o pior aconteça enquanto a mãe de Eduardo tenta acalmar a garotinha que chora.
-Qual que é a sua idéia? – pergunta Joe.
-Isso – digo, mostrando os clipes que peguei dentro da minha mochila.
Joe olha para os clipes e em seguida para o portão, parece ter entendido o que eu quero fazer.
-Vai abrir o portão? – pergunta ele.
Eu aceno positivamente com a cabeça e tomo distancia do muro, deve ter uns 3 metros e meio, corro em direção a ele. Pulo e bato o pé, agarro com minhas mãos em seu topo.
Antes de pular, por segurança olho para a rua, há tantos carros batidos, acidentados e despedaçados que em tempos normais confundiria o lugar com um ferro velho se não fosse pelo fato de estar no meio da rua.
Nenhum deles a vista, pulo o muro rapidamente. Não ouço mais a discussão, o cadeado felizmente é um dos que consigo abrir.
Encaixo os clipes em suas posições, sabia que um dia isso me seria útil, mas antes que eu possa comemorar, ouço um grito vindo do quintal e em seguida dois tiros.
Os malditos ouviram a discussão deles, alguém bate no portão e pede pra que eu abra.
Mais tiros são disparados, droga, preciso me manter calmo, em condições normais não demoro mais que 30 segundos para fazer isso. Forço os clipes, não dá, um deles se parte, ouço mais tiros.
Não há outra forma, pego a arma que Eduardo me deu, destravo-a e atiro no cadeado. O portão se abre e Rafael é o primeiro a sair, ele corre rua acima, tento impedi-lo, mas o mesmo nem me ouve. Em seguida sai à mãe de Eduardo com a garotinha no colo, depois Fernanda, Joe e depois Eduardo que fecha o portão.
-Cadê o Rafael? – pergunta Eduardo.
-Ele correu lá pra cima – respondo.
-Droga! Que cara burro – diz ele novamente.
-Ta todo mundo bem?
Todos afirmam que sim.
-Melhor a gente sair daqui e rápido – digo
Todos concordam.
-Mas perai e o Rafael? – pergunta Fernanda.
-Ele vai ter que ficar pra trás, ele sabia que eles tavam lá pra cima – diz Eduardo.
Fernanda abaixa os olhos, da de ombros e concorda com Eduardo.
Começamos a descer a rua nos esgueirando por entre os carros, há sangue e corpos em decomposição na maioria deles e o cheiro como de costume não é nada agradável.
Rua acima avisto alguns zumbis, aviso aos outros.
-Abaixem – diz Eduardo.
Observamos os malditos que começam a descer a rua.
-Temos que ir – diz Fernanda.
Agora Eduardo guia o grupo, começamos a correr, Joe passa a frente, seguimos correndo por entre os carros que vão nos ajudar como um obstáculo a mais para os zumbis. Enfim saímos do labirinto de carros, há três deles a frente, Joe que já estava bem adiantado para, mira com sua Desert Eagle, ele faz dois disparos certeiros eliminando os dois primeiros, Eduardo cuida do terceiro com seu fuzil. Dar tiros atrairá mais zumbis, mas é a única forma de dete-los com segurança.
Mais a frente viramos uma esquina dando de cara com a avenida principal da cidade, corremos por mais uma quadra e rápido como nunca mais deles aparecem, vieram da rua à esquerda, cerca de 30 ou 40, disparamos alguns tiros contra a horda, mas somente alguns caem, não avisto nenhum esconderijo.
Meu coração acelera num ritmo alucinante, o medo aumenta mais ainda, o pânico de todos é visível, uma corrida pela vida, em busca de mais algum tempo respirando e com o coração batendo.
Olho para trás, devemos estar a uns 30 metros deles, pelo menos a vantagem é grande, mas diminui cada vez mais, a cada passo nos cansamos e eles simplesmente têm mais vontade de nos saborearem, uma bela de uma desvantagem, mas no mundo nem sempre se ganha.
Estamos perto do centro da cidade, o lugar é cheio de lojas, restaurantes e esses tipos de coisas. Um grito me chama a atenção a minha direita, olho discretamente e tão rápido quanto uma bala um zumbi pula sobre mim, caio no chão, meu ombro direito cai sobre uma pedra que com absoluta certeza é pontiaguda. Um senhor, provavelmente deveria ter uns 70 anos, magrinho e usando um paletó. Sua mordida vem em direção a meu pescoço e no reflexo eu o seguro com minha mão esquerda, todos já passaram de mim.
-Me ajuda – grito.
O maldito não tem um braço, e certa parte de seu rosto fora arrancada a mordidas, ouço alguns tiros e os ataques do que está tentando me morder ficam mais agressivos, eu aperto sua garganta, mas o maldito nem sente. Continua a me atacar, acerto a arma na sua cabeça, ele recua, é agora. Atiro e a bala atravessa sua cabeça de baixo para cima espirrando sangue por todo meu rosto.
Retiro-o de cima de mim, meu ombro dói muito e quando viro para levantar e continuar a corrida me deparo com Fernanda que voltara para me ajudar.
-Vem, vem – diz ela estendendo a mão para me ajudar.
Ela me ajuda a levantar, Eduardo e Joe ainda disparam suas armas contra os zumbis, a mãe de Eduardo se encontra mais a frente junto à garotinha. Eles conseguiram matar alguns, mas há muitos e estão mais perto.
A corrida recomeça, mais alguns passos e olho para trás, os malditos parecem ficar mais lentos, algo chama a atenção deles na rua que atravessa a que estamos e é pra lá que eles vão.
Paramos em frente a uma loja de computadores.
-O que será que era? – pergunto.
-Não faço a mínima idéia, mas nos ajudou muito – responde Joe
-Paiê – grita a garotinha enquanto abraça Eduardo.
Ele abre um sorriso, a pega nos braços e da um beijo em seu rosto.
-Ta bem filha? – pergunta Eduardo.
Ela só balança a cabeça positivamente, todos observam a cena com um sorriso no rosto, uma cena rara.
-Mãe?
-Ta tudo bem Edu – fala a mãe de Eduardo esboçando cansaço.
-E você Felipe, tudo bem? – me pergunta Eduardo.
-To sim – respondo, mas não da pra esconder que sinto dor – valeu por terem me ajudado – meu ombro dói muito.
-Não foi nada cara.
Todos concordam com Eduardo.
-E o que aconteceu com seu ombro? – pergunta Joe.
-Você foi mordido? – pergunta Fernanda parecendo assustada.
-Não, não isso aqui é que eu cai em cima de uma...
E antes que eu termine um rugido ecoa pelas ruas chamando a nossa atenção. Sinto um calafrio, esse sentimento, não é normal. Um medo diferente. Às vezes sinto-me descontrolado e de certa forma cercado pelo perigo é a única forma que consigo explicá-lo.
Olhamos para todos e para nosso espanto são mais zumbis, duas, não. Três vezes mais do que o bando anterior, eles vem da mesma direção que viemos e rápido.
-Cê ta brincando – diz Eduardo – Corre!
Parece que nos rastreiam, eles devem...
-Felipe, o que você ta fazendo? – chama Joe me despertando.
Todos já estão à frente e não quero ficar para trás, começo a correr, parecem mais rápidos, não podemos desistir.
-A gente tem que se esconder – grito segurando meu ombro.
-Aonde? – pergunta Eduardo.
Todos possíveis locais para nos escondermos ou estão com suas portas abertas e com sangue por toda parte ou tem suas portas trancadas. A cada situação que nos livramos entramos em outra pior. Isso não é nada bom e pra piorar surgem mais alguns de dentro de uma loja.
Um deles agarra a mochila de Fernanda que a larga no mesmo instante.
-Eu tenho uma idéia! – grita Joe – Uns 100 metros a frente... fica meu escritório... nós podemos nos escondermos lá... e nos livrarmos deles.
-Se a gente tiver vivo até lá – respondo, não queria dizer isso, mas algo faz com que eu sempre pense no pior e dessa vez não consegui controlar.
Joe acelera mais ainda, ficando há uns 5 metros de distancia, Eduardo arrisca uns tiros nos que estão mais próximos, mas eles não passam nem perto, os gritos dos malditos só pioram a situação.
-Não – grita Eduardo olhando para trás
Olho pra trás e quem vejo é sua mãe, ela parou.
-O que a senhora ta fazendo mãe? – pergunta Eduardo em pânico.
O rosto dela revela cansaço, ela não aguenta correr mais, há lagrimas escorrendo pelo seu rosto, ela dá um sorriso e beija o terço que carregava em sua mão direita.
Eduardo tenta voltar para ajudá-la, mas um dos zumbis pula sobre ela e morde seu pescoço, os outros chegam e começam a devorá-la, ela não da nenhum grito, sua morte foi rápida.
A filha de Eduardo começa a chorar, e com ele não é diferente, ele sabe que não pode fazer nada por sua mãe agora, nós ficamos observando ele parado olhando a cena. Ele se vira e começa a correr novamente, há lagrimas descendo por seu rosto.
Todos retomam o ritmo anterior, pode parecer cruel, mas agora é melhor não pensar no que aconteceu e seguir em frente. Não é a primeira vez que passo por isso e se continuar vivo não será a ultima.
O grupo maior está mais perto e se aproximando mais ainda, já devemos estar chegando ao escritório de Joe. Sinceramente nem sei por que ele tem um, me disse que teria ficado pouco tempo na cidade. 
-É logo ali na frente – grita Joe.
Ele está bem adiantado como sempre, ele desacelera e chega perto de algumas portas de vidro, ele abre a mochila e pega um molho de chaves, enquanto ele abre a porta eu e os outros chegamos ao local.
-Vai, vai, vai – diz ele abrindo a porta.
Nós entramos, Joe tranca as portas que são de vidro, mas com uma grade de ferro, o lugar é enorme, há varias portas e um enorme corredor que da em outras portas do outro lado do lugar.
-Joe, aonde que da aquela porta? – pergunto.
Os zumbis chegam ao local e já se amontoam na porta que se quebra, restando só a grade.
Joe não parece ter me ouvido, ele começa a mexer em algo dentro da mochila, Eduardo tenta acalmar sua filha e Fernanda corre até as outras portas.
-Cara, onde que dá aquela outra porta? – pergunto novamente cutucando Joe no ombro, ele está tão perto da porta que os zumbis quase encostam suas mãos nele.
-Da na rua Felipe – responde ele sem nem me olhar.
A grade da porta já começa a mostrar sinais de estar entortando, Joe sai de perto da porta, agacha no chão e tira uma grande quantidade de uma espécie de massa de dentro da mochila e a coloca no chão, em seguida ele abre outro bolso da mochila, retira um fio. Ele modela a massa em um cubo e enfia o fio na massa. Depois ele retira algo do bolso que eu não consigo identificar.
-Pronto – diz Joe.
-Que que é isso cara? – indago.
-Composto 4 – responde ele.
-E o que que é composto 4?
-É explosivo C-4 – responde ele se levantando.
C-4? Onde será ele arranjou isso? Bom, só sei que ele planeja explodir algo.
-Ai, a gente tem que sair daqui – fala Eduardo ainda esboçando choro.
-Vamos embora – diz Joe.
Ele começa a correr em direção a porta onde Fernanda está. Eduardo segue com sua filha até a porta, e comigo não é diferente. Olhando para trás vejo que os malditos estão conseguindo quebrar a grade também. Precisamos ser rápidos.
Chegando à porta Joe agacha perto dela.
-Aqui não tem nenhum deles – diz Fernanda.
Joe pega as chaves e entrega a Fernanda mostrando qual é a certa e volta a mexer no C-4.
-O que ele ta fazendo? – me pergunta Eduardo.
-Aquilo é C-4, acho que ele quer explodir isso aqui – respondo.
-C-4? Onde é que você arranjo isso cara? – pergunta Eduardo num tom de espanto.
Joe se levanta.
-Isso é outra historia – diz Joe – vamo dar o fora daqui.
Fernanda e a filha de Eduardo já se encontram do lado de fora, nós saímos enquanto os zumbis do outro lado destroem a grade e entram.
-Me da à chave – diz Joe.
Fernanda entrega a chave para ele, o mesmo tranca a porta.
-Vamo embora.
Nós começamos a correr, ouço o barulho dos zumbis quebrando as portas de vidro, corremos mais de um quarteirão quando Joe avisa que já é seguro detonar.
Ele pega o objeto que eu não havia conseguido identificar, que deve ser o detonador, em seu bolso.
-Tapem os ouvidos – diz ele.
Fico observando os malditos tentando arrebentar a grade. Seus braços enfiados pela grade, cena aterrorizante. Joe aperta o detonador, mesmo com os ouvidos tapados é possível ouvir o som da explosão claramente, uma enorme explosão, não forte o suficiente para explodir o lugar todo, mas forte o suficiente para explodir a parte em que estava do lugar e fazer com que ele desabe todo até afetando o prédio ao lado fazendo com ele caia também, com certeza matando todos os zumbis e levantado uma fumaça enorme.
Pedaços de concreto voam pelos ares, pedaços de tijolos e metais também.
-Nós temos que achar um lugar para passar a noite – diz Joe.
-Também acho, e rápido – digo – que horas são Joe?
Ele olha em seu relógio de pulso.
-Seis e quarenta – responde ele.
-Melhor a gente ir com cuidado pra não chamar atenção deles e nos afastarmos daqui o mais rápido possível – diz Eduardo – a explosão vai atrair mais deles.
Todos consentem. Começamos a andar cuidadosamente, sempre andando junto a paredes e passando nos lugares onde dificilmente nos avistarão, procurando algum lugar seguro para passarmos a noite começamos a nos afastar do centro. As sombras já tomam parte da paisagem, o sol começa se deitar e alguns malditos nos avistam, não passam de 10, corremos alguns metros e paramos, disparamos contra os malditos. Só ficam de pé os mais lentos que Eduardo os elimina com seu fuzil facilmente.
-Achei um lugar perfeito – diz Fernanda.
Ela aponta para uma loja Esportiva, corremos até lá.
Joe que chega primeiro atira no cadeado da porta e a levanta, o lugar é perfeito como disse Fernanda, não há janelas e a porta é totalmente tapada de buracos ou vidros.
Joe entra e aponta a arma verificando se é seguro, ele faz um sinal com a mão para que todos entrem.
-Eduardo – diz Fernanda.
-O que? – pergunta ele.
-Cadê sua filha? – pergunta Fernanda assustada.
Ele olha em volta, e realmente sua filha não se encontra junto de nós, Eduardo começa a entrar em pânico, ele se afasta um pouco do grupo.
-Michele! Cadê você filha? – grita Eduardo a procurando.
Nenhuma resposta é dada, Fernanda também a chama.
Eduardo a chama mais algumas vezes e nada.
-Droga, eu preciso ir atrás dela, vocês ficam aqui que eu vou atrás dela – diz ele já começando a correr.
-Não Eduardo – grita Fernanda.
Quando ela começaria a correr atrás dele para impedi-lo, Joe a segura pelo braço.
-Não Fernanda – diz Joe.

Dia 26 de Janeiro de 2010, 18h05m – Quintal ao lado da casa de Eduardo.

Rafael pensa em apontar a arma para Eduardo, mas algo o faz pensar duas vezes e recuar. A situação se acalmara, Rafael mantém o olhar fixo, imóvel até que seus tímpanos captam um ruído que o faz pular de susto. Ele identifica o som como o grito de Fernanda. Ainda assustado Rafael vê quando Joe acerta um tiro preciso na cabeça de um dos monstros, que é como os chama.

Ele não pensa duas vezes e corre em direção ao portão começando a esmurrá-lo como se tivesse raiva do mesmo.

-Abre caralho! – grita ele pondo-se a olhar novamente pra trás verificando se há mais monstros. Os outros também se aproximam do portão quando Joe e Rafael disparam mais tiros a um lugar fora da visão de Rafael.

-Vai cara. Rápido!

Mais dois tiros ecoam pelos ares, Michelle volta a chorar aos berros.

Um tiro parte do outro lado do portão que se abre. Rafael o puxa bruscamente abrindo-o e deixando assim o caminho livre, ele corre rapidamente para fora. Olha rua abaixo e vê carros por toda parte, olha rua acima e encontra o caminho livre. Novamente sem pensar Rafael sai em disparada pelo caminho livre, Felipe tenta impedi-lo, mas nem sequer é ouvido.

Suas pernas se atrapalham e Rafael quase da com os dentes no chão, chega à esquina desacelerando e vira o rosto para direita, seu olhar se choca com a dura realidade, de encontro com os inimigos mais cruéis que o homem criara, ele mesmo. Zumbis que vagavam em frente a casa de Eduardo o avistam.
Rafael grita e cerra as mãos em punhos demonstrando raiva e pânico, vira para esquerda e recomeça a correr agora sendo perseguido por oito deles. O medo, pânico e pressa são tantos que nem se lembra de que carrega uma arma no punho. Rafael corre desesperadamente sentindo a pressão e o medo aumentarem a cada passo largo de suas pernas enormes e a cada grito dos monstros.

Olha para trás e outro tropeço o derruba no chão, tamanha era a velocidade em que ele corria que o tombo faz com que ele bata com a cabeça no chão depois de capotar alguns metros.

Levanta-se rapidamente e sente a perna doer, leva a mão a perna e lembra-se da arma em sua mão, da outro grito, somente de raiva desta vez e aponta a arma para os monstros. Ele treme freneticamente enquanto empunha a arma a apertando com toda sua força, pressiona os dentes causando um rangido e aperta o gatilho duas vezes. Nem se preocupa em saber se acertou ou não e volta a correr, agora com certa dificuldade, mas mantendo a velocidade.

Rafael continua a correr sem coordenação alguma e quase cai novamente, não vê nada mais do que o caminho a sua frente, corre por alguns metros até que três deles aparecem em seu caminho.

Rafael aponta a arma e em outro grito desenfreado da à ordem a si mesmo que atire, e assim o faz. Descarrega a arma derrubando somente dois dos três a sua frente.

Sem nem perceber que parara de correr para atirar ele se vê sem saída, aqueles que o perseguiam já o alcançaram.

O primeiro o agarra pelo ombro com sua mão fétida, banhada de sangue e no mesmo milésimo de segundo Rafael o golpeia com a arma, os outros estão um pouco mais atrás e Rafael sente o medo em seu coração que bate contra seu peito como se pedisse para sair.

Tenta atirar e vendo estar sem balas atira a arma contra um deles e quando voltara a correr o zumbi que sobrara dos que apareceram a sua frente pula sobre ele.

-Sai desgraçado! – cospe as palavras Rafael enquanto se esquiva num golpe de sorte da mordida e joga o monstro contra o chão.

Rafael segue se afastando de costas ainda sentado no chão depois de cair ao se esquivar do zumbi quando bate com a cabeça contra um muro a suas costas. Leva uma das mãos à cabeça e olha para trás.

Os zumbis estão ao seu alcance, Rafael se levanta escorando-se na parede e de tal forma que nem ele sabe como consegue escapar mais uma vez das garras cruéis e impuras de seus perseguidores. Recomeça a correr, avista um carro a sua frente, até pensa na possibilidade de o pega-lo, mas se lembra que nem sequer sabe dirigir um. Nem pensar - pensa ele correndo, olha para os lados procurando uma forma de se livrar dos monstros, mas nada o vem à cabeça, não consegue tramar um plano melhor que correr. Sua mente parece travada, as pernas já começam a sentir o cansaço, Rafael já não tem o preparo da época em que jogava no time de basquete da cidade, da época em que sua vida era normal.

Seguindo sua corrida Rafael vira uma esquina bruscamente quase escorregando, ele encontra uma decida a frente. Os monstros quase podem encostar-se a Rafael que acelera e começa a descer em alta velocidade.

Enquanto desce a rua o sol quente da tarde que antes estava coberto pelas casas e prédios se revela batendo em seu rosto e dificultando a visão. Rafael aperta os olhos colocando a mão na frente para tapar o sol quando ouve um grito tão assustador e gélido de um dos os monstros que o faz encolher os ombros.

Rafael olha desesperadamente para os lados e vê uma casa com o portão aberto, rapidamente ele desvia de seu trajeto e adentra a casa trombando com o muro no lado de dentro do quintal, quase cai. Rafael sente alivio nos olhos e uma necessidade de descanso, quase o faz, mas ouve mais alguns gritos e recomeça a correr para dentro do quintal.

Chegando até o fundo Rafael encontra um matagal que chega quase a sua altura. Sem saída ele adentra o matagal que fica mais denso a cada passo. Mais alguns passos e ele da de cara com um muro, olha para trás e vê os zumbis, rapidamente se agacha os perdendo de vista. Sente sua perna doer no mesmo instante e tentado não gritar, anda com dificuldade, abaixado seguindo o muro. O som dos zumbis revirando o mato deixa Rafael apavorado, fazendo com que trema ate a coluna enquanto continua seguindo o muro. Sem visão alguma do que acontece Rafael ouve o som do mato sento revirado bem perto e se senta na esperança de não ser visto.

Fechando os olhos, Rafael sente as mãos suarem frio, ele abre e fecha uma das mãos freneticamente enquanto enfia a outra na terra do chão a apertando em um punho com toda força. O coração a mil, sem coragem de abrir os olhos sente uma vontade extrema de se levantar e entregar os pontos, e como não fazia há muito tempo se lembra de Deus. Sente sua raiva pelo mesmo se esvaindo, a vontade de viver o faz começar a rezar, por alguns instantes não ouve nada. Só sua voz cochichando em sua mente, pedindo que Deus o salve quando ouve o mato sendo revirado novamente. Parece se aproximar mais. Rafael cria coragem e abre os olhos e avista um portão enferrujado a alguns metros a frente, faz o sinal do pai nosso terminando assim a oração.

Rafael se levanta e avista um dos monstros. Rapidamente se agacha, tomara que não tenha me visto - pensa ele.

Nem espera pra descobrir e sai em disparada na direção do portão. Rafael pula sobre o mesmo acertando-o com o ombro e parte do braço. A tranca do portão se rompe e ele abre. Rafael cai no chão e como se não tivesse acontecido nada se levantou. Por um segundo pensou estar em segurança, limpou a terra da mão e de sua bermuda, mas nem sabia onde estava.

Olhou em volta ainda tremulo, esta em um lugar aparentemente grande, alguns cômodos com portas fechadas. A esquerda um corredor enorme seguia por vários metros, sem pensar duas vezes seguiu o corredor rapidamente.

Encontrou uma bifurcação adiante e virou à direita, se acalmou por um instante e começou a caminhar, seguiu até o fim do corredor onde constatou que o mesmo não tinha saída. Pensando estar tudo bem se sentou e novamente sentiu a perna incomodar, sentiu um também certo alivio. Rafael olhava ao redor quando parou o olhar fixamente, no começo do corredor, bem na bifurcação.

Um deles se encontrava parado, ainda não havia visto Rafael. Os olhos dele quase o saltaram do rosto ao ver aquilo. Rafael sentiu o pânico tomando conta de seu ser, tudo recomeçara e dessa vez ele não tinha saída. Rafael conseguia ver a imagem do monstro o devorando, se via caminhando num desempenho de bêbado e correndo ferozmente atrás de algum infeliz ainda vivo, Rafael se via morto.

Se levantou tentando não fazer barulho e olhou em volta, não havia como sair. O muro alto demais até para Rafael em seus 194 cm, nem um misero local para se esconder. Virou-se para olhar a parede atrás dele enquanto passava as mãos pelo seu cabelo alto e desgrenhado quando ouviu um grito ecoar pelas paredes abandonadas do imenso corredor. Virou-se rapidamente e lá estava ele. O monstro o observava com os olhos arregalados.

Rafael pousou o corpo sobre o muro ao lado num sinal de desistência e travou seus olhos na criatura.

Sua mandíbula inferior toda manchada de sangue mexia de um lado a outro fazendo um estralo alto e audível até para Rafael que estava a metros de distância.

Rafael pensou em suicídio, mas como? Numa ultima tentativa de encontrar uma fuga olhou em volta novamente. Quem foi o filho da puta que fez um corredor tão grande sem saída - pensou Rafael amaldiçoando quem fizera o corredor. Olhou para baixo e avistou um pedaço de madeira, perfeito para ser usado como um bastão.

Se vendo diante de sua única saída. Olhou novamente o zumbi que permanecia imóvel, parecia estar hipnotizado. Rafael estranhou, mas não ligou. Sentiu-se com sorte por ainda não ter sido atacado. Tremendo ouvia as batidas aceleradas de seu coração enquanto agachava lentamente em busca do bastão, não tirou os olhos de seu inimigo ainda imóvel. Tateou o chão até encontrar o pedaço de madeira e se levantou rapidamente.

Se levantou, segurou o bastão com as duas mãos e apertou com força.

Isso não é normal mesmo - pensou ele olhando o zumbi imóvel parecendo esperá-lo.

E no mesmo instante se moveu, o monstro correra em sua direção ferozmente. Rafael pensou em desistir, mas disse a si mesmo que não o faria. Rafael estremeceu, deu o primeiro passo, em seguida o segundo. No terceiro começara a correr. Um encontro.

Rafael se aproximava assim como seu inimigo, tudo parece mais lento e ao mesmo tempo rápido demais. Rafael calculou a distancia e pulou, e no ápice de seu salto o zumbi também pulara em busca de sua refeição. Rafael o golpeou verticalmente de cima para baixo, acertando o monstro no topo da cabeça.

E o corpo sem vida pousara sobre o chão. Rafael caiu em cima do monstro e ouviu o ultimo gemido de sua boca.

Nada contente com apenas um golpe Rafael desferiu mais três na cabeça do monstro. Até que a madeira rachasse.

Permaneceu em pé por dois segundos e caiu de joelhos. Largou sua arma e debruçou no chão ao lado da poça de sangue que se formara.

-Obrigado... Deus – disse ele em prantos.

Encostou-se ao muro e por um momento refletira o que dissera.

Rafael nunca pisou numa igreja desde que seu pai morreu quando tinha 11 anos. Culpara Deus por sua morte.

“Por que Deus salvou um bandido assassino que dirigia um carro roubado fugindo da Policia e não meu pai, um homem trabalhador e com família que voltava para casa depois de um dia de trabalho”.

Rafael realmente não achava que conseguiria. Levantou-se, sentiu algo no peito que designou como um sentimento bom.

Olhou para o céu e tomou um grande susto ao ouvir um barulho enorme, mais parecido com uma explosão. Rafael pulara de medo, olhou para os lados, viu que estava em segurança e começou a caminhar lentamente.

-Não – diz Joe
Fernanda o olha sem entender nada.
-Porque não? A gente não pode deixar ele ir, ele vai morrer!
-Por que ele precisa fazer isso – responde Joe – ele acabou de perder a mãe, se abandonar à filha agora, nunca mais se perdoara.
Fernanda olha na direção de Eduardo que dobra uma esquina e some de nossas vistas.
-Ele tem ao menos que tentar – continua Joe - e o melhor que podemos fazer é esperarmos aqui e torcermos para que ele a encontre e volte.
Fernanda acena positivamente com a cabeça e Joe solta seu braço.

-Acho melhor nós entrarmos antes que algum deles nos veja – digo.

Eles concordam e então entramos em seguida Joe fecha a porta. O lugar se revela totalmente escuro, só há alguns pequenos feixes da luz já fraca do dia que termina saindo das pequenas fendas em baixo das portas.
Abro minha mochila e com um pouco de dificuldade pego a lanterna que encontrei ontem. Ligo-a e ilumino o lugar, há vários produtos esportivos nas prateleiras, alguns balcões, bancos, manequins e ao fundo um corredor.
Andamos até o corredor, atentos por algo que possa estar escondido, a três portas no corredor, uma a esquerda que é o banheiro feminino, uma a direita que é o masculino e uma no fim do corredor.
Olhamos dentro dos banheiros e não há nada com que se preocupar, seguimos até o fim do corredor, eu sigo na frente, me aproximo vagarosamente enquanto o suor desce pelo meu rosto dando um arrepio e a ansiedade do que vamos encontrar naquela porta aumenta.

Coloco a mão sobre a maçaneta e a desço, a porta se abre e eu a empurro vagarosamente, Joe assume a frente e aponta a arma para o interior do lugar enquanto eu ilumino com a lanterna.

Parece ser um estoque de mercadorias o que não é normal de se encontrar em uma loja de artigos esportivos. Adentramos com cautela, há varias prateleiras, caixas e entulhos. Enquanto ilumino a lanterna com a arma empunhada Joe segue com sua arma, não avisto Fernanda, o lugar é bem sombrio terminamos de olhar um lado e ouve-se um barulho de caixas vindo do outro lado que é seguido de um pequeno grito de Fernanda. Miro a lanterna pra o lado do barulho e vemos Fernanda parada com algumas caixas aos pés.

-Ta tudo bem? – pergunto.
O silencio permanece por alguns segundos até que Fernanda levanta a mão como um sinal para que esperemos.
-Ta sim – diz ela – não foi nada, eu só trombei em algumas caixas. Ta tudo bem.
Confesso que já esperava pelo pior. Terminamos de olhar o lugar enquanto Fernanda se retira do local. Ao terminar constatamos que não há nada de anormal e que nenhum zumbi nem sequer entrara no local.

Voltamos até a loja, me sento em um sofá que se encontra á direita enquanto Joe chama Fernanda para ajudá-lo a bloquear a porta com algo.
Deixo o feixe de luz repousar sobre o chão, iluminando também o balcão a minha frente. Enfim descanso, paz. Minhas pernas doem e meu ombro também, retiro a blusa de frio que usava, encosto a lanterna no sofá de forma que ilumine meu ombro e subo a manga da camisa.

O ferimento não é muito grande, nem muito fundo, retiro uma garrafa de água que carrego na mochila, abro-a e derramo um pouco sobre o ferimento que arde um pouco. Pego minha camisa e a pressiono contra.

Fernanda chega perto e também se senta no sofá.
-Como ta seu braço? – pergunta ela olhando meu braço.
-Ta bem. Valeu.
-Que bom – responde ela tratando de sorrir. Retribuo meio sem graça.

Joe se senta no sofá em frente e retira a mochila das costas.

-De onde vocês vinham quando eu e os outros ajudamos vocês lá na casa do Eduardo? - pergunta Fernanda arrumando o cabelo.

Aponto a lanterna pra Joe que me olha.

-Nós vínhamos da estação de Rádio onde nos escondíamos de repente surgiram um monte deles e bateram no carro, Joe perdeu o controle e nós capotamos – digo – depois saímos correndo dos zumbis até que vocês nos ajudaram.
-E vocês, já estavam na casa do Eduardo há muito tempo? – pergunta Joe olhando pra Fernanda que apóia os cotovelos na perna e repousa o queixo contra as mãos.
-Nós éramos oito pessoas e estávamos em uma van quando fomos encurralados por eles e o único jeito era fugir a pé, três morreram e nós acabamos parando perto da casa do Eduardo que teve a idéia de ficarmos lá, e estávamos lá há umas duas semanas – Responde Fernanda.
Permanecemos em silencio, vasculho o lugar com o feixe de luz até que Fernanda começa a conversa outra vez.

-Vocês sabem como isso tudo aconteceu? Ou o que que ta causando isso? – pergunta ela.
Miro o feixe de luz para ela, que me olha.
-Também gostaria de saber, nem na TV souberam explicar o que era.
Aponto a lanterna agora para Joe que olha fixamente para o chão, ele permanece imóvel então miro a lanterna para outro lado.
-Na verdade, eu sei – diz Joe.
Volto o feixe rapidamente para ele que continua a olhar para o chão.
-Serio? – indaga Fernanda.

Joe acena positivamente com a cabeça

-Olha o que eu vou dizer deveria ser um segredo e tão pouco é algo comum, vai parecer loucura, mas é a mais pura verdade.
Engulo seco ao ouvir as palavras de Joe.
-Eu trabalhava para as Forças Armadas dos Estados Unidos, mais recentemente nas Forças Especiais de Investigação Paranormal da Área 51 – diz Joe.
-Área 51? Aquela dos alienígenas – pergunta Fernanda demonstrando certo espanto e ao mesmo tempo achando engraçado.

-É... Pode parecer difícil de acreditar, mas ela realmente é uma base militar que lida com assuntos fora do comum e suas pesquisas ocorrem em sigilo total até pra mim que era um agente.

Fernanda me olha com um ar de espanto.
Não sei o que falar, zumbis fazem parte da nossa vida, mas Área 51, bom talvez seja mesmo verdade.
-E a parte em que você sabe o que aconteceu? – pergunto.

-Bom, fazia seis meses que eu trabalhava na Área 51 e era a segunda missão da qual eu participei. Um vilarejo no sul da Califórnia, todos os habitante haviam morrido misteriosamente em menos de dois dias, era um vilarejo pequeno, com cerca de 100 habitantes antes do ocorrido.
Chegamos de helicóptero, éramos 16, dois cientistas, dois biólogos, dois pilotos e dez da equipe de campo. Alguns agentes já se encontravam no local, acompanhados de agentes do FBI.
As ordens do comandante eram que a equipe de campo se dividi-se de dois em dois e vasculha-se a cidade inteira a procura de algo anormal enquanto os cientistas examinavam os corpos e os biólogos os animais.

Joe faz uma pequena pausa.

-Keri, foi minha parceira naquele dia, passamos por algumas casas e não encontramos nada anormal, somente corpos. Logo após fomos a Prefeitura, depois de alguns minutos vasculhando por lá também não encontramos nada olhamos novamente como de costume, mas nada chamou nossa atenção. Recebemos pelo radio que a morte dos habitantes ainda era um mistério. Já estávamos saindo da Prefeitura Keri ouviu um barulho - Joe para por um segundo e passa as mãos sobre o rosto - Nós permanecemos imóveis por alguns segundos tentando ouvir algo até que o barulho voltou e dessa vez eu havia ouvido, parecia uma batida.
E se repetiu até que ouvimos algo que parecia madeira se quebrando, em seguida o que parecia uma voz, que depois identifiquei como gemidos. Adentramos outra vez a prefeitura e em seguida um homem rapidamente e pulou sobre Keri e no mesmo instante começou a mordê-la no pescoço, a mascara usada por ela não foi o suficiente para que impedisse a mordida.
Ela nem sequer reagiu, imediatamente ordenei para que parasse, ele não me ouviu então disparei contra ele. O comandante ouviu o tiro e perguntava pelo radio o que havia acontecido, tentei ajudar Keri, mas... já era tarde de mais, ela já havia morrido. E antes que eu informasse ao comandante, tiros foram disparados do outro lado do vilarejo, todos diziam que os mortos estavam se levantando e atacando, por um momento o radio parou de funcionar.

Fui até a saída da prefeitura que ficava de frente para a praça central do vilarejo, não vi ninguém.
Ouvi mais alguns tiros, andei até o centro da praça procurando por alguém. Foi quando o rádio voltou a funcionar.

O comandante chamou por mim, Keri, Alex e Andrew, somente eu respondi.
As ordens eram pra seguissemos até um prédio que ficava do lado do posto de gasolina, perto do hospital, que era onde o helicóptero estava e que ficava do outro lado do vilarejo, exatamente a duas quadras da praça central e eliminar todos que encontrasse pelo caminho.

Fui em direção ao prédio e depois de andar um pouco vi o primeiro deles, eles eram bem diferentes dos de agora

Pra começar ele eram mais lentos, poucos conseguiam correr, mesmo assim não muito rápido.
Segundo, tinham menos inteligência. Terceiro, todos infectados morriam, mas nem todos voltavam como um deles e por ultimo, morriam facilmente como um humano e sentiam dor.

Joe para novamente.

-Continua – o apressa Fernanda parecendo ansiosa.

-Ele batia contra um muro até que me viu, seus olhos eram iguais, mas na época diferentes de tudo que já havia visto. Ele veio em minha direção com os braços esticados, apontei a arma para ele e ordenei que parasse e como vocês sabem, nem me deu atenção. Informei ao comandante o que via e a resposta foi que era para fazer exatamente o que ele havia ordenado. Pedi ao garoto que parasse novamente e dei um tiro em sua perna, ele caiu, nem se importou mais comigo, parecia um ser humano normal ao levar um tiro na perna, a mesma reação, mas os gritos, aterrorizantes, em nada parecidos com o de um humano. Segui em frente e encontrei mais alguns, eu atirava em suas pernas, mas outros eu fui obrigado a matar.
Assim que cheguei perto do hospital, vi muitos, era onde havia mais, talvez uns 50. Consegui passar sem que me vissem, mas com algumas exceções e cheguei até o prédio. Lá encontrei quatro dos oito agentes de campo, incluindo o comandante, nenhum dos pilotos, dois cientistas, os dois biólogos e cinco dos seis agentes que já se encontravam no local antes de chegarmos. Dos cinquenta no hospital somente uns dez me avistaram e me seguiram até o prédio. A atitude deles era bastante vaga, alguns até desistiam de tentar, enquanto os outros não faziam muitos esforços.

-Depois de talvez uma hora, e constatarmos que eles não estavam vivos decidimos que o melhor a fazer era eliminar todos de cima do prédio já que o único comunicador capaz de comunicar a base estava no helicóptero. Éramos 14, eu e os outros agentes de campo matamos todos. Em seguida fomos até o hospital.
Chegamos ao helicóptero e comunicamos a base, eles ordenaram que esperássemos por reforços.

-Depois de um tempo os reforços chegaram, foram pegas amostras de sangue, alguns deles foram capturados para estudos e experiências. Depois de voltarmos, todos fizemos exames e ficamos em quarentena por uma semana até que todos os exames e estudos fossem terminados e tivessem certeza de que não estávamos infectados. Depois dessa semana ficou comprovado que o que matou todas as pessoas do vilarejo foi um vírus novo, eles deram o nome de Vita caedes. O que ele faz é atacar o cérebro da pessoa ou o animal causando a morte e em seguida trabalha com o tecido morto reanimando o ser, mas deixando falhas. O morto infectado ou zumbi volta com uma inteligência primitiva tendo somente que se alimentar de tecido vivo sem precisar fazer nenhuma necessidade. Ele tem uma estrutura molecular diferente de tudo que já foi visto, é bastante resistente ao calor e o frio e o mais incrível é que ele não fazia seu serviço todo em todas as pessoas e não acontecia nada a um ser que o contraísse depois de morto.

-E como ele veio parar aqui? – pergunto novamente.

-Já chego lá, depois de mais alguns estudos ficou comprovado que esse vírus veio do espaço junto com um meteorito que havia caído perto do vilarejo três dias antes de todos morrerem – responde Joe retirando os sapatos.

E quando eu iria especificar melhor a pergunta, porque não queria saber de onde veio e sim como veio parar aqui no Brasil Joe recomeça a falar.

-Só que quando faziam os últimos exames, antes de sermos liberados, eu observava alguns papeis sobre uma mesa no laboratório e vi um papel assinado pelo Vice-presidente dos Estados Unidos, peguei e comecei a ler. Nele o Vice-presidente pedia para James, um dos cientistas que faziam os estudos. Que levasse amostras e resultados de exames do Vita caedes para a central do C.H.A.O.S., no centro de Carson City, que é a capital de Nevada.
Achei muito suspeito, o que o Vice-presidente queria com a amostra de um vírus altamente contagioso e sigiloso, e pelo que eu sabia somente o presidente tinha autoridade para dar ordens diretas a Área 51.

-Anotei o endereço e coloquei o papel no lugar onde estava. Depois que fomos liberados, tivemos nossa folga, chamei Spencer, um amigo que estava comigo na missão.
E aproveitando que nós dois íamos para Carson City mesmo, para investigarmos o que era esse C.H.A.O.S. e a central dele em Carson City.

-Quando Spencer e eu chegamos ao endereço, demos de cara com um prédio de telecomunicações. Spencer achou que eu havia entendido errado e que aquilo não passava de um engano, mas achei mais suspeito. Surgiu uma questão mais complicada. O que o Vice-presidente iria querer com um vírus que mata e reanima pessoas? Ainda mais em uma central de telecomunicações, ficamos observando por algum tempo e não vimos nada suspeito. Resolvemos entrar e quando passávamos pela porta vimos James que também nos viu, ele estava saindo e no mesmo instante voltou de onde vinha, tentei segui-lo, mas ele mandou que não me deixassem passar.
Spencer e eu fomos embora e investigamos sobre o C.H.A.O.S. por alguns dias e encontramos informações, mas nada concreto apenas especulações sobre, boatos e teorias. Que diziam que C.H.A.O.S. era uma organização criada durante a segunda guerra mundial que tinha como objetivo conseguir o poder dos países mais poderosos e influentes do mundo, mas nada de concreto, somente especulações, nada que provasse a existência dessa organização. Então resolvemos voltar até a central, Spencer conseguiu entrar clandestinamente e pegar informações sobre o C.H.A.O.S., comprovamos que tudo que soubemos antes sobre a organização era verdade, que o Vice-presidente é um dos integrantes mais poderosos dela e que possuem membros em mais de 80 países, incluindo todos do G8 e o Brasil também, e em uma grande parte membros dos governos como o Vice-presidente.

-Decidimos contar tudo isso ao nosso comandante que era a pessoa em que mais confiávamos, e que ao saber de tudo que sabíamos revelou também participar da organização, James sabia que procuraríamos o comandante então os dois armaram uma emboscada para nós e mataram Spencer.

-Eu consegui fugir, mas perdi todas as provas contra a C.H.A.O.S. Me escondi por alguns dias até que me acusaram de roubar dados do governo, a partir daí eu não tinha mais como ficar nos Estados Unidos. Vim para o Brasil ilegalmente, escolhi o Brasil por já saber falar o português daqui.
Fiquei no Norte do Brasil por duas semanas e fui para o Rio de Janeiro onde fiquei dois meses e consegui descobrir que uma das centrais do C.H.A.O.S. aqui no Brasil se situava em Belo Horizonte.

-Fui até Belo Horizonte e encontrei a central, consegui entrar roubar dados da operação, mas fui descoberto e consegui fugir novamente, vim pra Uberaba para deixar a poeira abaixar.

-Os dados que peguei diziam que o vírus estava sendo estudado e que eles tentavam aperfeiçoá-lo para usarem como arma viral e infectar o mundo inteiro. Achei que vindo pra cá as coisas iriam se acalmar, mas acho que de alguma forma descobriram que eu estava aqui e espalharam o vírus.

-Cê quer dizer que espalharam o vírus aqui para te matar? – indago.
-Por isso e aproveitando para usar o Brasil como teste, para ver se o plano ocorreria como planejado – responde Joe.
-E por que você não denunciou eles com os dados que havia roubado? – pergunta Fernanda.
-Não dava. Os dados que eu tinha não tinham fontes, não eram originais, poderiam ter sido forjados por qualquer um, eu precisaria de provas concretas.
-E o que tem haver conseguir comandar países com espalhar um vírus que mata as pessoas e as transforma em zumbis? – pergunto novamente
-Creio que eles tenham um jeito de acabar com a infecção em massa...
-Uma cura? – Interrompe Fernanda.
Joe balança a cabeça negativamente.
-Acho que não – responde – mas sim uma maneira de exterminar com todos ou com a grande maioria deles facilmente. A minha teoria é que o Brasil entra na historia como disse anteriormente, como teste para ver se o vírus reagiria como em laboratório. E que o plano deles seja espalhar o vírus pelo resto do mundo, e quando o mundo estivesse em ruínas, quase exterminado eles se revelariam ou entrariam na historia como quem achou uma solução e cobrariam um alto preço pela salvação de todos. Já que sabem como evitar o vírus se manteriam seguros e salvos até que todos cedessem as suas exigências ou morressem de vez. Assim conseguindo o poder absoluto e construindo uma nova sociedade, do jeito que eles querem e com eles no governo.

-Cê num acha que isso é viagem demais não cara? – pergunto.
-Pode até ser, mas não vejo outro motivo pelo qual espalhariam esse vírus já que o objetivo deles é “dominar o mundo”, a não ser que queiram exterminar a raça humana. – responde ele se levantando e dando alguns passos.
-Mas ninguém pode encontrar uma forma de deter o vírus ou uma cura? – pergunta Fernanda.
-Suponhamos que o que eu disse for verdade, eles só executariam o plano tendo certeza de que ninguém poderia impedi-los, eles o modificaram em laboratório o que não deve ter sido difícil, afinal eles têm cientistas de todas as partes do mundo. O vírus já era resistente antes, agora talvez mais, eles puderam manuseá-lo, torná-lo resistente a alguma fraqueza que tinha e criar uma fraqueza a algo que eles criaramm.
As chances de alguém conseguir deter o virús se for como eu penso são quase nulas e uma cura não deve ser a busca já que as pessoas morrem e voltam com falhas e não ficam somente doentes. A não ser que seja criada para ser usada antes que a pessoa infectada morra.

-Bom, o vírus se espalha muito rápido e com eles em segredo e podendo começar a infecção em qualquer local, onde quiserem, as chances se tornam menores do que já são e a situação pior ainda.
...

O homem com sua ganância infinita se condena novamente.
A morte repousava em um lindo campo florido e o homem, como sempre o culpado. Dessa vez despertou a morte de seu sono de beleza e a trouxe ao “nosso”, mundo mais furiosa do que nunca. Agora só cabe ao homem fazê-la dormir novamente... E sinceramente não creio que será fácil.

Aqui estou eu, sentado no escuro. Somente esperando o tempo passar, escondido, rezando para que nenhum maldito nos encontre. Há umas duas horas Fernanda dormiu e a meia Joe também.
O silencio jaz na noite sombria e de arrepiar, o único som audível é o do relógio, tic-tac, tic-tac, tic-tac. Que já marca onze horas e quarenta e oito minutos e até agora não me veio nem sequer uma porção ínfima de sono, melhor assim já que meu turno vai até as duas da manha.

Já faz tempo que estou no escuro e a essa altura consigo enxergar até bem. Pergunto-me se Eduardo conseguira achar sua filha e o acontecera com Rafael. É engraçado como a mente é, às vezes não entendo meus próprios pensamentos, fica tudo confuso perturbado e esse tic-tac perdido no tempo invade minha mente formando um tédio, um vazio por dentro, tudo fica desregulado. Tudo isso não vem me fazendo bem, na verdade nem pudera.

Desde que começou acho que perdi a capacidade de sonhar, nem pesadelos tenho. O sono parece ficar menor, o cansaço não se cessa e às vezes sinto tudo se distanciando, os objetos ao meu redor parecem tomar uma distancia infinita, e tudo que resta sou eu. Sozinho numa imensidão vazia, uma falta de ar, o corpo fica mais leve. Começo a suar frio e por um pequeno instante aquela sensação de que o mundo todo morreu e de estar sozinho é substituída por uma sensação boa, algo inexplicável que não dura mais que alguns míseros segundos, segundos preciosos que já tive pelo tempo que quiser, mas... Meus olhos parecem me pregar uma peça e do nada estou de volta a triste realidade, tudo está no lugar, os mortos vagam com seus olhares obscuros e perdidos pelas ruas e tudo que resta é o medo um vazio no peito.

A lembrança de meus entes queridos sendo mortos vem à mente como um vírus. E o furor é eminente. Um arrepio na espinha agrava a coisa veemente, uma vontade de gritar, talvez chorar. Pânico, desespero, tudo isso volta a obscurecer a mente, sons estranhos surgem do nada e preciso me manter firme e calmo para não cometer nenhuma bobeira.
Lembrar dos momentos felizes que tive até hoje é um bom modo de se manter a salvo da insanidade. Rezar é uma boa, ajuda, agradeço muito a Deus por ainda povoar esse paraíso apocalíptico, mas às vezes me pergunto se é isso mesmo que eu quero se não é melhor jogar tudo pro alto e parar de correr.

Não engoli toda a estória que Joe nos contou, na verdade acho que não. Parece uma grande viagem, mas ao mesmo tempo tudo se encaixa e a falta de uma explicação do que ocorrera me faz botar fé. Fé que não perco, mas a esperança de certa forma fora embora, se é tudo verdade eu não. Mas se for...

Subitamente algo quebrou o silencio, presto atenção ao som, parecem passos e vindo nesta direção pelo lado de fora. Com certeza não são passos de alguém vivo, são passos desajeitados, meio que tropeçando, desregulares seria a palavra certa. Deve ser um deles. Os passos param por um segundo e recomeçam da mesma forma, o barulho vem se aproximando, minha audição deve ter melhorado, só agora, culpa do silencio. Vem em direção à porta, um leve som de ferro é desferido, espero que o maldito não tente abri-la. Nem sequer esta trancada, uma pequena barricada é nossa segurança, meu coração dispara, ele encosta novamente na porta. Avisto a arma a minha direita e pouso a mão sobre sua superfície gelada de até dar arrepios e a destravo.

Os passos recomeçam e ouço um baque, o silencio ganha uma nova chance diante de meu desespero, alguns segundos passam, acredito estar em segurança agora. O tic-tac ainda incomodando, parece tudo bem.

A tensão já passou, largo a arma no chão e esfrego o rosto com as mãos, sinto a boca seca e uma leve dor de garganta. Pego a garrafa de água que mantinha perto de mim e que já está pela metade. Dou um gole.

Fixo o olhar no teto, só me pergunto por quê? Por que alguém quer que isso aconteça, talvez Joe esteja certo e isso tudo seja pelo poder, pelo dinheiro, o que move o homem hoje em dia, mas é assim, fazer o que?

Fecho os olhos e fico escutando o som do relógio, abro os olhos, olho pra minha arma, pego-a e a travo. Levanto-me e a guardo na cintura. Subitamente um branco aparece em minha visão fazendo que eu não enxergue nada quase faz com que eu perca o equilíbrio. Meu ombro incomoda novamente, mas não dói como antes, não depois que Fernanda fez um curativo. Olho para ela que dorme tranquilamente, o mundo deveria ser assim, lindo e tranquilo.

Vou em direção ao banheiro, faz um pouco de frio, mas nada insuportável, na verdade, acho que estou gripando. Meus olhos ardem um pouco. Abro a porta do banheiro, banheiro que por sua fez não poderia ser menor, deve ter um metro quadrado. Vou em direção a pia, ligo a lanterna que trazia nas mãos e me olho no espelho. Meu rosto ainda tem algumas manchas de sangue, estou com olheiras enormes, meu cabelo está maior do que devia, precisa de um bom corte. A barba a fazer revela uma impressão diferente de meu rosto, da forma que estou não me reconheceria. Nem sequer há água na torneira.

Volto até a loja e ao ouvir o tic-tac novamente decido arrumar algo para me distrair, ando pelo lugar mirando a lanterna, procurando algo para se fazer, e que não faça barulho.

Passo o feixe de luz rapidamente sobre o balcão e algo me chama a atenção. Um porta canetas do lado do computador e com muitas delas dentro, de varias formas e marcas, isso já basta para um Pen Spinner. O pego e volto para o lugar que estava sentado antes, tiro a arma da cintura e a coloco no chão, pouso a lanterna no chão e despejo as canetas nele também. De cara avisto quatro delas que vão me servir bem. Pego-as, as desmonto e faço somente uma usando partes das outras quatro, da um belo Mod*.

Pen Spinning, a arte de girar caneta nos dedos, adoro fazer isso e fazia um mês que não treinava não o suficiente para destreinar.
Essa era uma das coisas que mais adorava fazer nas horas vagas. Antes dos malditos zumbis encherem a vida de todos de medo, dor e margura, mas temos que ter esperança, me nego a não ter. Na verdade é tudo que tenho, creio que tudo ainda possa se ajeitar e voltar ao normal.
Tento aproveitar cada segundo como esses que tenho agora, segundos de paz, descanso fazendo algo agradável, momentos que se tornaram raros.

Deixo a caneta cair ao chão, ela rola alguns centímetros. Estico o braço e a pego entre os dedos, meus olhos começam a sentir o peso do sono. O relógio agora já não faz o tic-tac tediante, o ponteiro parara marcando exatamente meia noite e onze, creio que seja a pilha

Bom, ainda tenho que ficar acordado até as duas da manhã, sem o relógio agora, mas é assim né, nem tudo da certo na vida, fazer o que?


*Mod - Mod é o nome dado para uma caneta na qual foi feita modificações, para ficar mais balanceada, mais fácil de usar (ou não), ou deixar mais infeitado...

Deitado em um sofá não muito confortável aqui estou, com os olhos vidrados na parede somente ouvia o que Joe e Fernanda conversavam, o que já não fazem há algum tempo.
Devo ter acordado há meia hora, nem sequer me movi.
Um momento tão calmo e confortável como esse é muito valioso, fecho os olhos por alguns instantes e uma sensação boa me ocorre, talvez um sinal, quem sabe?
-Felipe – me chama Joe.
Viro-me atendendo ao seu chamado.
-Ótimo você já acordou.
Com um sinal de mão confirmo.
-A água já acabou – fala ele mostrando uma garrafa vazia.
-To sabendo – respondo um pouco rouco.
Joe esfrega o rosto com as mãos e as repousa na nuca.
-Não da mais pra ficar aqui, ainda mais depois de ontem, sem falar que a comida também acabou.
Sento-me no pequeno sofá que estava deitado, tão pequeno que mantinha as pernas encolhidas. Olho em volta e não vejo a Fernanda.
-Sabe que a Fernanda não vai concordar com isso cara – digo.
-Sei, mas temos que convencê-la.
-É, mas onde ela ta? – acho que devo ter cochilado por alguns instantes enquanto estava deitado.
Joe aponta para o corredor ao fundo, permaneço imóvel por alguns segundos. Olho para o chão e avisto minha arma junto de minha caneta, passo as mãos pelo cabelo e me levanto.
Vagarosamente sigo até o banheiro, meus pés estão um pouco doloridos, e meu ombro também.
Voltando do banheiro encontro Fernanda remexendo em algumas prateleiras e Joe ainda permanece no mesmo lugar de antes. Sento-me e Fernanda percebe minha presença.
-Bom dia – diz ela se virando e me olhando nos olhos.
-Bom dia.
Ela sorri e se vira voltando a revirar em uma prateleira, até parece procurar algo.
Joe apoiando o queixo com a mão me olha seriamente, olha para Fernanda e a chama.
Ela se vira rapidamente. E antes que possa responder ao chamado.
-Não da mais pra ficarmos aqui – diz Joe.
-Como assim? – indaga a garota.
-Bom, já faz dois dias que estamos aqui, a água e a comida acabaram, já esta na hora de nós irmos.
-Mas e o Eduardo? – pergunta Fernanda se sentando no chão.
Joe balança a cabeça negativamente enquanto somente observo.
-Nós não podemos mais esperar por ele, já faz dois dias e ele ainda não voltou, se esperarmos mais só vamos ficar mais fracos e será mais difícil fugir.
Fernanda me olha como se me implorasse para que discordasse de Joe, depois desse olhar assumo que tive vontade, mas...
-Ele ta certo.
-Vocês querem ir quando?
-O mais rápido possível – responde Joe.
-É – confirmo.
Fernanda se levanta e senta ao meu lado.
-Olha, eu pensei nisso e se ele estiver escondido em algum lugar onde não da pra sair, a gente não pode abandonar ele.
-É arriscado Fernanda, se não partimos o quanto antes só ficara pior – diz Joe – também não me sinto bem em fazer isso, mas se não fizermos nós vamos morrer.
Fernanda parece ter se incomodado com a forma que Joe tentou convencê-la. Ela esfrega as mãos nas pernas como se as enxugasse, morde o lábio inferior e por fim ajeita o cabelo atrás da orelha.
-E pra onde a gente vai?
-Pra Uberlândia – respondo.
O silencio entra na atmosfera do lugar novamente enquanto Fernanda olha pelas prateleiras e enfim para o chão.
-Então é melhor a gente ir logo.
-Com certeza, mas antes precisamos de um plano – diz Joe pegando sua arma –, e mais armas.
O silencio ganha uma nova chance diante de nossas faces.
-Uma loja de armas, tem uma aqui não tem? – pergunta Fernanda olhando para mim, mas a verdade é que eu realmente entendo bastante de armas. Conheço varias, até como usá-las, mas nunca tive necessidade de ter uma.
-Não faço a mínima idéia – respondo.
-Tem sim.
O olhar de Fernanda se volta para Joe.
-Se não estiver enganado deve ficar a uns 10 km daqui, mas com certeza já foi saqueada – termina Joe.
-Mas você mesmo disse que precisamos de mais armas – diz Fernanda.
Joe coça a cabeça e murmura algo incompreensível.
-Acho que a gente tem que arriscar – digo – sem armas não vai da pra chegar em Uberlândia.
-Certo se você concordar também Fernanda é o que faremos.
Ela balança a cabeça positivamente.
-Bom eu tenho um plano – continua Joe – primeiro saímos daqui sem atrair nenhum deles em seguida conseguimos um carro e vamos até a loja de armas. Pegamos o que encontrar e aproveitamos para pegar alguns suprimentos em algum mercado. Se tudo ocorrer bem é só seguirmos para Uberlândia concordam?
-Com certeza – respondo.
-Certo, mas não será nada simples, quero que prestem atenção, esperamos a melhor hora para sairmos. E quando sairmos devemos ficar cada um em sua posição, eu vou à frente, Fernanda já que você não tem arma fica no meio e você Felipe vai atrás, de acordo?
Depois de concordamos Joe continua.
-Não deu tempo de nos organizarmos melhor da ultima vez. Então desta vez vamos pensar em tudo, lá fora vocês sabem que nós somos minoria, que não haverá piedade e que somos o lado mais fraco. Temos que ser altamente precisos, rápidos e cuidadosos, tudo ao mesmo tempo.
Joe fala com muita segurança, até parece ser fácil e não sei quem o nomeou líder, mas acredito que seja a melhor opção.
-Visando nosso principal objetivo, logo necessitamos de um carro em bom estado, eu vou à frente então fico encarregado de nos defender de qualquer ameaça que venha da frente. Fernanda, eu quero que você fique atenta aos lados tudo bem?
-Acho que consigo – responde ela.
-Felipe, você cuida das costas.
Respondo acenando positivamente.
-Fazendo o possível para que não nos vejam e se nos virem teremos que decidir se seremos capazes de derrubar todos principalmente com a questão das balas ou se teremos que correr. E fiquem atentos a qualquer veiculo que nos sirva.
-Alguma pergunta?
Fernanda e eu não nos manifestamos.
-Certo, então acho melhor arrumarmos as coisas e dar o fora daqui o quanto antes possível.
-Concordo – digo.
Pego meus tênis e os calço, sinto um gosto horrível na boca
, não sei quanto tempo faz que não escovo os dentes, não achei a escova de dentes útil na hora em que fugia. Pego minha mochila e coloco as garrafas vazias e minha caneta dentro, creio que a sensação térmica esteja em torno dos 40 graus e ontem a noite fazia frio. Enquanto isso Joe observa pelo buraco de bala feito por ele ontem, não sei se aquilo foi somente uma jogada de sorte, mas nos salvou.
Joe se afasta da porta.
-Não vejo nenhum deles – conclui ele se sentando e vasculhando dentro de sua mochila.
Fernanda se encontra sentada perto de Joe somente nos observando.
Tiro minhas camisas já imundas, cheias de sangue de dentro da mochila, nem sei por que as guardei. Levanto-me e pego algumas novas, também pego um boné para esconder o cabelo que me incomoda.
-Felipe quantas balas você tem? – me pergunta Joe.
Já havia contado antes.
-Quatorze – respondo.
-Nada bom, só tenho vinte e uma e não vou encontrar mais destas.
Por fim fecho minha mochila e destravo a arma.
-Cês tão prontos? – pergunta Fernanda.
Aceno positivamente.
-Eu também – diz Joe – é melhor irmos logo.
-Certo.
-Mas antes preciso saber se está tudo bem com vocês – diz Joe.
-Eu to bem, só meu ombro que incomoda, mas nada insuportável.
-E você Fernanda?
-To sim, talvez só um pouco cansada.
-OK
Joe se levanta e se aproxima da porta, olha pelo buraco e começa a retirar nossa “barricada”, Fernanda o ajuda. Agora a tensão aumenta, o coração acelera e tudo fica pior.
Fernanda começa a erguer a porta brandamente, sinto o pavor de encontrar novamente com um dos malditos, uma pressão e a sensação de solidão que assola a todos nós.
O sol começa a entrar lentamente e um barulho é ouvido no mesmo instante. Joe faz um sinal para que Fernanda pare. E assim ela o faz.
Joe abaixa a cabeça e a coloca para o lado de fora. Sinto o fedor entrar pela porta fazendo com que eu tape o nariz com mão. Já havia me desacostumado com isso.
Joe estende parte de seu corpo para fora e olha para os lados apontando sua Desert Eagle, tem que ter força no braço para aguentar o tranco dessa arma. Sem falar o barulho estrondoso que causa ao ser disparada, em situações como esta a única vantagem é sua potência.
-Ta limpo – diz ele, suas palavras soam como um alivio que traz uma péssima noticia, é hora de agir.
Fernanda ergue a porta mais um pouco, Joe sai, Fernanda faz o mesmo e depois vou eu. A rua esta completamente deserta, bem a nossa frente dois corpos estirados e muito sangue começam o rastro de morte que se estende por toda a rua, corpos mutilados a cada metro, há centenas deles, uma cena forte, mas nada de novo para nós. Nenhum carro por perto.
Joe mira sua arma enquanto parece procurar algo distante, nem parece se preocupar com o fedo.
-Lembrem-se – fala Joe – temos que ser rápidos, precisos e não hesitem – termina ele sussurrando.
-Por onde nós vamos? – pergunta Fernanda.
Sem falar nada Joe aponta para a direita e devagar começamos a andar, Joe na frente seguido por mim e Fernanda. Passos largos tentam se auxiliar com cautela e agilidade.
Seguimos andando pela calçada, cobrindo a retaguarda tenho que olhar para trás a cada segundo, vamos nos esgueirando sorrateiramente. O sol escaldante frita os corpos a muito tempo sem vida espalhados pelo chão, ajeito o boné para tapar o sol de meus olhos.
O natal interminável que enfeita tudo e aquela sensação estranha de que falta algo. Aquela coisa toda de toda a família se reunir, trocar presentes e comemorar juntos. Aquilo faz falta e só percebemos o quão é importante quando já não se pode ter mais.
Ouvindo os pássaros cantando parece tudo bem, depois de andarmos alguns metros chegamos perto de um carro estacionado em cima da calçada, em frente a uma padaria. Um Astra com algumas batidas e as portas abertas. Joe faz um sinal para que paremos e se aproxima vagarosamente do veiculo, vira-se bruscamente apontando a arma para dentro do veiculo como se abordasse alguém.
Ele abaixa a arma e arranca um corpo de dentro. Olho para os lados apontando a arma, eu observo o ar estagnado, nenhum deles por perto. As folhas das arvores nem se mexem, sem vento nenhum o calor incomoda muito e o coração ainda bate rapidamente.
Joe faz um sinal negativo saindo do carro e se aproxima de nós.
-Não tem gasolina – diz ele olhando para trás.
-Têm mais alguns ali na frente – digo.
Rapidamente voltamos a andar, atravessamos a rua passando por lixo e corpos espalhados. Passamos ao lado de algumas malas manchadas de sangue e corpos amontoados em cima, provavelmente seus antigos donos. A sombra do prédio ao lado nos polpa um pouco do calor do sol. A cada passo o medo aumenta, até que enfim chegamos perto de alguns carros que se encontram próximos uns dos outros.
Parece que os malditos gostam de nos surpreender, dou uma breve olhada para trás, Joe faz um sinal para irmos pela direita dos carros enquanto ele vai pela esquerda, Fernanda vem pra trás de mim, sigo olhando em volta dos carros.
-Abaixa, abaixa – diz Joe bem atrás de nós.
Tomo um belo susto, mas faço o que ele pede.
-O que que foi? – pergunta Fernanda sussurrando.
-Tem um deles por lá – responde Joe.
-Ele te viu? – pergunto.
-Não ela estava de costas.
-E agora? – indaga Fernanda.
Joe se levanta um pouco – Eu tenho uma idéia – diz ele passando a nossa frente, troca a arma da mão esquerda para a direita e pega uma faca que mantinha na cintura.
-O que você vai fazer? – pergunta Fernanda.
Joe nem sequer responde, olha para os lados, colocar a arma no coldre e começa a andar. Levanto um pouco a cabeça e olho por entre os vidros do carro, Joe anda olhando fixamente para algo que uma van mais a frente impede que eu veja. No mesmo instante o maldito se revela, parece estar caindo. Joe se esconde atrás de um carro. O zumbi se firma e vira para o outro lado, uma mulher com cabelos castanhos longos, mordidas por toda parte, magra, vestindo um uniforme de alguma loja. Joe aproveita e voltar a ir atrás dela.
-O que ele vai fazer? – pergunta Fernanda – ele é louco – diz ela em seguida.
Lembro-me de olhar para trás e o faço rapidamente, nada. Volto a olhar para Joe que se aproxima a passos de tartaruga da mulher morta. Joe em um movimento repentino pula na direção da mulher e enfia a faca no topo da cabeça da maldita, sangue jorra como água. Joe retira a faca e se afasta observando a mulher caindo e manchando tudo de sangue podre.
-Ele conseguiu – vibra Fernanda.
Joe limpa a mão na camisa e olha para o lado, parece levar um susto. Puxa a arma deixando a faca cair, mira e atira. O barulho estrondoso ecoa, Joe olha em nossa direção e começa a correr, ele chega perto do carro que estamos escondidos e olha pela janela.
-Esse não, vamos ver aquele – diz ele apontando o dedo, Fernanda e eu começamos a correr em direção ao carro que está a alguns metros. Olho para trás e avisto alguns deles correndo em nossa direção, parece Déjà vu, tudo igual, desde a primeira vez em que aconteceu.
Sinto algo que jamais vou me acostumar àquela sensação de que tudo se afasta a mesma sensação bombardeada por outras piores, parece que isso jamais terá fim.
-SUICÍDIO! – grita algo dentro de mim com toda a força.
Suicídio, palavra maldita que não para poluir minha mente um dia sequer, mas e se eu morrer agora? E se eu morrer daqui a algumas horas? Tudo que fiz terá sido em vão? Ou melhor, e se eu apontar a arma para minha cabeça e apertar o gatilho?
Poderei me poupar de mais sofrimento, poderei descansar, mas não.
Me nego a fazê-lo, não sou assim, ceder à tentação de seguir o caminha mais fácil, quem nem sempre é a melhor opção realmente é difícil.
-NÃO!
Não quero fazer isso, quero lutar até o fim, nem que para isso tenha que sofrer mais, nem que para isso eu tenha que presenciar cenas que não deveriam ser vistas por nenhum ser vivo, nem pelo piores dos seres humanos.
Quero ser livre novamente, quero ter uma família, ter uma vida como todo ser humano merece ter e ser feliz. Desejo isso a todos e simplesmente quero que tudo isso acabe.
Ouço seus gritos ferozes e a cada passo tenho vontade de correr mais do que posso, ainda em pânico chego primeiro ao carro.
-Porra tem alarme – grito enquanto Joe dispara sua arma algumas vezes.
-E daí que tem alarme Felipe – grita Fernanda chegando perto de mim – eles já viram a gente - termina de falar segurando o meu braço e apontando para a direção dos zumbis.
-Droga é mesmo – digo tentando me acalmar.
A idéia é repentina, dou três passos para trás, aponto a arma e fecho os olhos ao disparar.
O som ensurdecedor do alarme soa, centenas de cacos de vidro voam pelo ar, sem hesitar uso a arma para quebrar o resto do vidro, enfio o braço pela janela e destravo a porta.
Abro a porta e entro no carro, passo para o banco do motorista enquanto Fernanda já adentra no carro. Joe se aproxima enquanto tento fazer uma ligação direta. Os malditos já estão se aproximando. Joe enfim chega.
-Rápido grita Fernanda, passando para o banco de trás.
Ao invés de entrar Joe se enfia debaixo do carro, alguns segundos se passam e o alarme se cessa. Ouço o ronco do motor junto aos gritos dos malditos, deu tudo certo.
Joe entra no carro e fecha a porta, dou ré para ajeitar o carro na rua, a alguns metros de nós estão eles, sedentos por sangue, podres, os inimigos mais cruéis que o ser humano já encontrou.
-VAI! – grita Joe.
Viro o volante para direita e piso no acelerador, ouço os pneus derrapando no asfalto e o carro arranca. Como um vulto vindo de um lugar desconhecido um deles entra na frente do carro, nem tento desviar e acerto o maldito em cheio passando por cima em seguida.
-Conseguimos – diz Fernanda olhando pelo vidro traseiro.
-É só que dessa vez temos que ter mais atenção – afirma Joe.
-Com certeza – concordo.
Acelero um pouco e não se vêem muitos nas ruas, tentam nos seguir, mas logo desistem. Sinto um calafrio quando uma gota de suor escorrega pelo meu rosto enquanto dirijo observando a paisagem caótica misturada aos enfeites de natal, isso já começa a me incomodar. Parece piorar a situação.
Sangue derramado, fedor constante e corpos no asfalto apodrecendo ao sol de 40 graus, esse é o nosso paraíso apocalíptico.
Enquanto continuo dirigindo retiro minha mochila das costas e a coloco no banco de trás, ao lado de Fernanda que encosta sobre o banco. Joe sentado ao meu lado abre o porta luvas e começa a remexer dentro dele. Ficamos em silêncio e tudo que se ouve são o barulho do carro e alguns pássaros cantando, silêncio quase absoluto que é quebrado por Fernanda.
-E agora? – pergunta ela.
Antes mesmo que eu pensasse em responder Joe o faz.
-Agora nós seguimos com o plano – diz ele enquanto ainda remexe em alguns papeis dentro do porta luvas – enchemos o tanque de gasolina, pegamos comida e vamos até a loja de armas.
Presto atenção no caminho que sigo, desvio de alguns carros e três deles que andam mais a frente nos avistam, não dão à mínima se conseguiram ou não nos pegar. Só pensam, se pensarem em correr em nossa direção.
-Isso não é bom! – afirma Joe.
Realmente estão decididos, um deles um senhor de cabelos grisalhos com a roupa inteira manchada de sangue nem consegue correr, os outros dois, uma mulher alta, descabelada e usando um vestido roxo e um garoto, talvez tivesse quatorze anos, com a face totalmente deformada por mordidas e com gesso no braço esquerdo. Consigo sentir o medo que seus olhos transmitem olhos fundos, sem fulge, chegam a gelar a alma.
São eles, os dois que conseguem correr, assim o fazem em nossa direção. Eles entram na frente do carro. Novamente o coração dispara, não posso desviar, dois carros a direita impedem que eu o faça. Penso em frear, mas seria burrice, aperto as mãos ao volante
-Passa por cima – diz Joe.
E tenho outra opção? O garoto pula sobre o capô do carro e ao bater é arremessado para o lado direito do vidro o trincando e passando por cima do carro. Maldição! Quase perco o controle do carro e sinto o tranco da batida na mulher, ela é arremessada a frente do carro e a atropelo. Quase bato com a cabeça no teto e freio o carro. Sinto-me sendo lançado para frente e por pouco não bato a cara no volante. O carro para alguns metros à frente.
-Vocês estão bem? – pergunto com a respiração ofegante.
-Acho que sim – responde Fernanda com a cabeça baixa.
-Sem problemas – fala Joe.
Passo as mãos sobre o rosto tentando me acalmar, sinto meu coração se debatendo dentro de meu peito e respiro fundo.
-Foi por pouco – diz Fernanda – achei que a gente já era.
Joe permanece calmo, usava sinto de segurança e eu nem me lembrara dessa vez.
-Melhor nós irmos – diz Joe – olha – completa ele apontando com o rosto para o retrovisor.
-O que? - pergunta Fernanda olhando para trás.
Se não estivesse vendo com meus próprios olhos diria que é mentira. Lá está ela, a mulher cujo eu acabara de atropelar capengando em nossa direção. Dou uma risada.
-Força de vontade admirável – digo.
Esta ai uma qualidade que os malditos tem, andam tropeçando em si mesmos, com uma fratura exposta, mas não desistem, pena que nem sequer sabem disso.
-Vai, vai – diz Fernanda batendo contra o assento em que estou.
Começo a dirigir novamente, aquela sensação não me desacompanha, sinto um aperto no peito junto de uma sensação inexplicável, mórbida e meu ombro recomeça a doer.
Passo ao lado do senhor que nem tenta no alcançar, sigo tranquilamente por alguns minutos. Ruas desertas literalmente, melhor assim.
-Opa – digo ao avistar um posto de gasolina.
Esta na próxima quadra. Nenhum deles por perto será a sorte nos prestigiando?
-Vai mais devagar, por favor – diz Joe.
Desacelero um pouco, sigo observando em volta e parece que realmente não há nenhum deles.
-Eu vou – diz Joe retirando o cinto de segurança.
O posto fica bem no meio do quarteirão e no fundo há um estacionamento, sangue por toda parte como sempre. Não acho q a maioria virou zumbi, creio que de toda a população somente uns 30% tenham se tornado.
Há corpos espalhados pelas ruas, eles são a maioria, mas já percebi que por aqui não há muitos, mas na verdade muitos não se tornaram zumbis por competência deles mesmos. Já vi devorarem até os ossos como a maioria jogava por ai, mas também já vi darem algumas mordidas e desistirem não sei por que. Esses seres sem definições são malditos coitados que foram resultado de algo muito errado, pra mim o maior erro cometido pelo homem.
Desacelero mais o carro enquanto me aproximo da bomba de gasolina. Passo por cima de um corpo que exala um fedor pior do que o de costume. Joe mantém a porta entreaberta enquanto estaciono ao lado da bomba.
-Vai rápido cara
-Fica pronto pra nos cairmos fora se algo der errado – diz ele.
Aceno positivamente com a cabeça, Joe larga sua mochila e sai rapidamente na ponta dos pés. Vigio em volta por segurança.
-Felipe – me chama Fernanda – Você acha uma boa idéia ir pra Uberlândia?
Dou uma ultima olhada em volta antes de responder.
-Eu discuti sobre isso com o Joe quando eu conheci ele e acho sim uma boa idéia, você não?
-Não, não é isso. É que eu não conheço nada por lá e não vai ser fácil.
-Hoje em dia nada é – respondo sorrindo.
-Você ta certo – diz ela passando as mãos pelos cabelos e também sorrindo.
Permanecemos calados por alguns minutos.
–Acho o Joe muito frio, sei lá ele parece nem se assustar com essas coisas – continua ela em um tom de voz mais baixo.
-Também acho, deve ser que com aquilo tudo que ele contou pra gente ele já se acostumou – respondo.
-É, deve ser – diz ela cruzando os braços no mesmo instante em que Joe volta ao carro.
-Pronto – diz ele fechando a porta vagarosamente.
-Beleza – ligo o carro – agora pegamos comida e vamos até a loja de armas.
-Acho que vi um supermercado um pouco mais atrás – diz Fernanda.
-Muito longe? – pergunto.
-Uns três quarteirões.
-Bom, por mim vale a pena olhar.
-Perfeito – diz Joe – vamos rápido, talvez consigamos comer algo antes de partirmos para Uberlândia.
Dou ré e volto à rua vagarosamente.
-Pra onde?
Fernanda fala onde e acelero, na verdade eram cinco quadras. Um supermercado um pouco grande, fica em uma rua que cruza a que passamos.
Lá dentro a escuridão é completa, depois da entrada só se enxerga por alguns metros. Pergunto-me se há algum lá dentro, mas acredito que não, já descobri que no escuro são atraídos pela luz e da pior forma possível ainda mais se a luz se mover. Realmente foi sorte, na verdade ter chegado até aqui vivo é muita sorte e agradeço muito por isso.
Paro o carro em frente ao supermercado, tudo que se houve são os pássaros que continuam suas vidas normalmente. Tudo que eu mais desejo.
Observo a entrada do supermercado, há carrinho de compras espalhados por perto, sangue escorrido de dentro do supermercado há muito tempo mancha o passeio e segue pelo meio fio. Nos primeiros dias quando chovia era assim, sangue escorria pela enxurrada. Depois de cinco dias o fantasma da solidão começara a assombrar minha vida, realmente fingirmos viver, enquanto isso meu rosto começa a arder com o sol, meu ombro dolorido, as pernas cansadas, feridas na alma, estas sim doem de verdade. Se um dia vão cicatrizar só o tempo que tento alcançar ira me dizer.
Lagrimas me vêem aos olhos quando me lembro de coisas que passam pela minha mente todos os dias.
Enxugo os olhos com minhas mãos, não quero ser pego chorando. Quero poder tirar a mascara, tento sorrir todos os dias, mas há dias em que os sorrisos não passam de traços tortos de uma vida inalcançável.
-E então, o que acham? – pergunta Joe.
-Eu acho uma boa idéia, mas eu não tenho certeza – digo – a gente também pode encontrar um lugar menor onde vai ser mais fácil de pegar comida.
-Concordo, mas aqui não há nenhum deles – responde Joe.
Não havia pensado assim, realmente pode ser melhor fazer isso de uma vez e seguirmos em frente. Ainda tenho forças para lutar nesta batalha, nunca vou me dar por vencido.
-Quem vai? – pergunta Fernanda.
Olho para ela que no mesmo instante retribui.
-Acredito que seja melhor se dois de nós forem e um ficar para avisar caso aconteça algo e estar pronto para a fuga – responde Joe já abrindo a porta.
-Certo então eu também... - e antes que eu pudesse terminar Fernanda me interrompe.
-Não, deixa que eu vou.
-Tem certeza? – indago.
Ela balança a cabeça positivamente.
-Tenho sim e eu também não sei dirigir par o caso de acontecer algo. – responde ela.
-Então esta resolvido, você lembra o que eu disse antes Fernanda? – pergunta Joe.
-Lembro.
-Nós temos que ser rápidos, entrar, pegar o que queremos e sair – diz Joe – o plano é o seguinte, pegamos uma cesta ou sacola, pegamos os alimentos enlatados, água, biscoitos, coisas do tipo e saímos o mais rápido possível.
-Tá bom – responde Fernanda.
-Então vamos.
Joe sai do carro, olha em todas as direções e coloca sua mochila nas costas. Fernanda abre aporta de trás e começas a sair do carro, mas antes que ela saia eu a chamo. Ela me olha nos olhos e antes que posso pergunta algo eu ofereço minha arma para que ela pegue.
-Mas eu não sei usar isso – questiona ela.
E antes que eu diga algo Joe me interrompe.
-É só mirar e apertar o gatilho Fernanda.
Ela olha para Joe, olha para mim e depois para a arma, receia, mas a pega. Pega a arma como se tivesse medo, olha pra mim novamente e fecha a porta devagar.
-Boa sorte.
Joe acena com a mão esquerda e começa a andar Fernanda o segue ainda olhando para a arma.
Olho para os lados e não há nenhum deles a vista. Espero que tudo ocorra bem. Foi exatamente assim da ultima vez. Todos do grupo foram morrendo até que só sobrassem alguns e por ultimo eu ficasse sozinho.
Tenho medo de que isso aconteça novamente, tenho medo de morrer, sinto tudo isso pesando sobre meus ombros. A essa altura Fernanda e Joe estão a passos da entrada e lá dentro escuridão total, somente se vê os caixas, algumas coisas jogadas ao chão e muito sangue.
Joe olha em volta novamente, acena para que Fernanda desacelere e aponta a arma para o interior do mercado. Eles adentram alguns passos, Joe aponta a arma em todas as direções e vira à direita, Fernanda olha em minha direção e o segue. Espero que sejam rápidos.
Olho novamente em volta e tudo continua bem, o sol escaldante continua a fritar pedaços dilacerados de corpos espalhados por toda parte, nenhum deles ameaça e o silencio é quase absoluto. Lembro-me dos primeiros dias quando urubus voavam por todo o céu. Carne podre e fétida não faltava e como é de se esperar o fedo ao qual raramente não sinto atraiu centenas, talvez milhares de urubus que ao longo de uma semana se encontravam mortos, caídos por todos os lugares. Acredito que o vírus também os mate, pelo menos não voltam como os humanos.
Penso vagamente em sair do carro, o calor é quase insuportável, mas não restam duvidas de que é mais seguro permanecer onde estou. A ferida em meu ombro ainda incomoda, mas evito pensar nela já tenho muito com o que me preocupar. Já não me lembro mais como era viver antes, às vezes me pego pensando na maneira que eram nossas vidas, éramos abençoados por Deus e não fazíamos a menor idéia disso.
A vida de agora é vazia e alem do medo de morrer também tenho medo de me tornar algo que sei que não sou. Fazer coisas que eu sei que vão contra meu modo de viver e tudo que aprendi, mas que em um momento de desespero podem parecer uma boa idéia. Já vi acontecer antes e a ultima vez que vi a pessoa que o fez ela estava pendurada e com uma gravata bem apertada. O ultimo grito de uma alma sem voz que se arrependera, mas perdido em meus pensamentos meu olhos encontram algo ao horizonte.
Um deles anda perdido há três quadras de distância, abaixo-me e o observo. Tenho certeza de que não me viu, por um instante acreditei que poderia não ser um deles, mas é pouco provável. Ele caminha de forma pausada, compassada e em minha direção. A única coisa a fazer já que não tenho mais posse de minha arma é dar o fora daqui e é em momentos assim que tenho medo, jamais abandonaria Fernanda e Joe, mas me sinto como em um daqueles desenhos animados onde o capetinha instiga o personagem a fazer a coisa errada. Tenho que entrar no mercado. Abro a porta lentamente, o maldito ainda se encontra longe, mas é melhor prevenir do que remediar. Saio devagar e deixo a porta entreaberta.
Vejo-o caminhando em minha direção, não me viu, corro em direção ao mercado e a cada passo dado tenho a gigantesca impressão de que ele me vira e meus pés ordenam que eu acelere. Uma bomba parece armada dentro de meu peito. Chego à porta do mercado, limpo o suor de meu rosto e olho na direção do zumbi que continua a caminhar normalmente.
Agora que me encontro aqui penso na razão de o porquê eu não estacionei o carro mais perto. Coisas assim me fazem ficar irado, mas não é hora. Olho para dentro do supermercado e está bastante escuro, também era de se esperar, não há janelas.
Entro devagar, olho para todos os lados, mas não encontro nem Fernanda e nem Joe. Da forma como o lugar se encontra não restam duvidas de que os vermes fizeram um enorme estrago por aqui. Coisas espalhadas pelo chão ensanguentado, uma prateleira derrubada com vários produtos ao seu redor, mas nenhum corpo.
Resolvo não chamar por eles, não sei o que pode ter acontecido. Só espero que a resposta seja nada. O calor ainda incomoda, continuo dando passos curtos e assumo que começo a ter medo. Meus olhos ainda não se acostumaram com a escuridão e veemente parece que vi algo, mas não tenho certeza. Entro pelo primeiro corredor a direita, troco olhares com o escuro, por entre as prateleiras meus olhos parecem querer me pregar uma peça.
O suor escorre pelo meu rosto e ainda sem ver nada continuo. Ao fim do corredor encontro tudo destruído e nada de corpos, não sei se isso é tranquilizador ou não. Passo para o próximo corredor, nada dos dois, parece estar tudo bem, mas as aparências enganam.
-Joe, Fernanda – os chamo baixinho mudando de idéia.
Nenhuma resposta é dada. Sigo me aproximando da porta até quase o começo do corredor, subidamente ouço algo atrás de mim.
Viro-me assustado e emitindo um rugido alto que ecoa por todo o supermercado um deles pula sobre mim, não há como desviar, seus braços não me alcançam, nem sua mordida. Vinha tão rápido que no impacto além de acertar o corpo contra meu ombro ele cai sobre uma prateleira e a derruba. Caio no chão, sinto minha cabeça girar.
Grito de dor, meu ombro dói insuportavelmente. Olho na direção do zumbi que já começa a se levantar. Há produtos espalhados por toda parte. Ele grita novamente enquanto se livra de alguns que caíram sobre ele.
Com a mão no ombro e sentindo muita dor, agora em pânico tento me levantar, mas não consigo somente agora me dei conta de que há algo derramado no chão e é escorregadio.
Ele finalmente se ergue e olha para mim.
-Me ajuda! – grito em uma tentativa desesperada – Socorro! Alguém me ajuda!
Sinto que não há nenhum socorro a caminho, o maldito também briga para se manter de pé. Arrasto-me e bato com a cabeça contra outra prateleira. Talvez simplesmente chegara minha hora. Encontro algumas garrafas de algo perto de mim, arremesso contra ele, mas o cotovelo que mantinha de apoio escorrega e acabo errando.
Agora posso sentir, minha alma grita por descanso, meu corpo parece ceder à tentação e o medo é a única coisa a meu favor.
O maldito corre em minha direção. Fecho meus olhos e um som estrondoso faz com que eu aperte as pupilas fortemente, encolho meus ombros e largo o corpo contra o chão. Com certeza foi um tiro.
Abro os olhos ainda em pânico, olho para a entrada e vejo duas pessoas, não consigo enxergar seus rostos.
-Você ta bem? Foi mordido? – pergunta uma voz que me é familiar, mas não tenho certeza.
Um deles aponta a arma em minha direção e se aproxima, tento me levantar, mas falho novamente.
-Felipe é você cara?
...
Dia 27 de Janeiro de 2009, 11h48m - Loja de Artigos Esportivos

O barulho baixo da caneta que Felipe girava caindo no chão chama atenção de Joe que rapidamente volta a limpar sua arma. Felipe pega a caneta novamente e recomeça a girá-la, com os olhos vidrados no que faz se assusta ao ouvir o grito de Fernanda que dormia.
-O que aconteceu? – pergunta Felipe com os olhos arregalados.
Fernanda ofegante e tão assustada quanto os outros leva a mão a boca. Ainda tenta entender o que acontecera.
-Pesadelo? – pergunta Joe.
Fernanda se levanta, perde o equilíbrio e se senta novamente.
O grito de um zumbi é ouvido, Joe começar a montar sua arma rapidamente. Felipe deixa a caneta de lado e busca a sua no chão. Fernanda entra em desespero e o medo só aumenta após o zumbi bater contra a porta.
-Droga, e agora? - pergunta Felipe.
-Fiquem calmos, talvez ele vá embora – responde Joe terminando de montar sua arma.
O zumbi grita ferozmente enquanto bate contra a porta com uma força surpreendente, o barulho é quase ensurdecedor.
-Acho que não, se continuar assim só irá atrair mais deles - acrescenta Felipe.
-E fazemos o que? – pergunta Fernanda aos prantos.
-Abrimos a porta e matamos ele – responde Felipe destravando a arma.
-Não, não – diz Joe – é muito arriscado.
-Ele vai abrir a porta – grita Fernanda se afastando.
Joe aponta a arma para a porta, Felipe o observa imóvel, o zumbi conseguira amassar a porta e parece mais determinado a cada segundo.
Joe fecha um olho, mira a porta tentando adivinhar onde se encontra o zumbi e dispara.
O barulho do tiro é seguido de segundos de silêncio que se passam lentamente até que e o som do corpo caindo ao chão é ouvido, Felipe sorri enquanto Joe permanece imóvel e Fernanda tenta se acalmar.
-Você conseguiu cara – diz Felipe esboçando felicidade.
Joe faz um sinal com o dedo para que não falem nada, se aproxima da porta lentamente e observa pelo buraco feito pela bala.
Fernanda se aproxima e se senta, observa Joe com os olhos arregalados.
-Ta vendo algum deles? – pergunta ela sussurrando.
Joe faz novamente um sinal com o dedo respondendo que não. Felipe continua a sorrir enquanto trava sua arma e procura sua caneta. Fernanda esfrega as mãos no rosto e em seguida arruma o cabelo todo bagunçado.
Joe se vira pedindo silencio novamente e se senta, Fernanda se retira e o silencia reina.
Após alguns minutos Fernanda retorna em silencio, parece ter medo, caminha lentamente até o banco em que estava antes e se senta. Olha para Felipe que ainda gira sua caneta nos dedos. Em seguida para Joe que também a olha, percebendo que é observada rapidamente desvia o olhar.
Observa o chão enquanto pensa no que fizera, age como se estivesse em transe.
-Fernanda – sussurra Joe a chamando.
Ela se assusta.
-O..., oi – responde ela.
-O aconteceu? – pergunta Joe novamente enquanto Felipe somente observa.
Ela hesita ao responder, retira o cabelo do rosto e enfim o faz.
-Eu tive um pesadelo – responde ela ainda olhando para o chão.
Felipe tenta dizer algo, mas é interrompido por ela.
-Eu tava em um lugar todo branco, me sentia feliz e de repente alguém saiu do nada e começou a vir em minha direção – diz ela sussurrando – quanto mais perto ela chegava de mim mais eu ficava triste, era um sentimento horrível. E quando chegou bem perto de mim eu vi que essa pessoa era eu mesma. Estava toda machucada, mas sorria, eu entrei em pânico e tentei falar algo, mas não consegui. As palavras não saiam, tentei gritar e também não consegui. Eu fiquei assustada, vendo eu ali parada na minha frente. Ela continuava sorrindo para mim e começou a vomitar sangue, gritava e seus olhos ficaram como os deles, ainda vindo na minha direção eu tentei correr e também não consegui, não conseguia fazer nada só sentia medo e via eu mesma me tornando um zumbi e quando ela estava bem perto de mim eu acordei.
Todos ficam em silêncio.
-Olha eu sei que foi minha culpa, mas eu não pude fazer nada – diz ela ainda com a cabeça baixa.
-Não fala isso Fernanda – diz Joe – não seria justo de nossa parte te culpar, afinal, ninguém tem controle sobre seus sonhos e tudo isso não faz bem a ninguém.
-Ele ta certo Fernanda – diz Felipe – e agora já passou, estamos seguros.
Ela levanta a cabeça e sorri Joe e Felipe também o fazem, em seguida voltam a fazer o que faziam antes.
Olhares perdidos no tempo, a chama da esperança que arde em seus corações talvez não seja grande, mas é o suficiente para que continuem a viver, para que não desistam, para que sejam felizes, para dar ao homem uma ultima chance.

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