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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Menu Mitologia: A lenda do Pequi

A LENDA DO PEQUI



Conta uma lenda indígena que Tainá-racan era uma linda índia da Amazônia brasileira. Tinha os olhos cor de noite estrelada e seus cabelos eram como fios de seda negra. O andar, elegante como o de uma deusa passeando por entre as flores.

Um jovem e formoso guerreiro de uma tribo vizinha – Maluá -, assim que a viu, sentiu forte fogo no corpo e o coração saltando no peito: “Ela é linda como a estrela da manhã. Hei de amá-la enquanto durar a minha vida!”. Pouco tempo depois, estavam casados.

A vida deles era bela e alegre como o ipê florido. Todas as manhãs, Maluá saía para caçar e pescar, enquanto Tainá-racan sentava-se na porta de sua oca, tecendo colares e esteiras, moqueando o peixe e preparando o calugi, para ofertar ao seu amado, quando voltasse.

Ao seu lado, sempre se deitava um jacaré, lhe fazendo companhia e conversando, pois, nessa época, os bichos também falavam.

O tempo foi passando…. Caíram as flores. Os cajueiros arcaram de fartura e beleza seus galhos com frutos vermelhos. As castanhas escondiam-se no seio da terra boa. As cigarras enchiam as matas com sua forte sinfonia.

pequiApós três anos de casamento, numa noite bonita, deitados numa pedra grande à beira do rio calmo, Maluá encostou a cabeça no peito de Tainá-racan e apertou-a com ternura.

– Está triste, amado meu?
– Sim. Você sabe que eu estou triste e você também está. Nossa dor é a mesma.
– Onde está nosso filho, que Cananxiué não quer mandar? – disse Tainá-racan.

Maluá alisou com carinho o ventre da formosa esposa, dizendo: “E o nosso filho não vem”, murmurou.

Dois pequeninos rios de lágrimas deslizaram pelas faces coradas de Tainá-racan. Um vento forte fez balançar as árvores da floresta e arrepiou as águas do rio. Uma nuvem escura cobriu a lua. Trovões reboaram ao longe. Maluá abraçou Tainá-racan e amou-a.

– Nosso filho virá, sim. Cananxiué também o quer – disse ele.

Luas depois, quando os ipês voltaram a florir, numa madrugada alegre, nasceu Uadi, o Arco-Íris. Era lindo, gordinho, tinha os olhos cor de noite estrelada, como os da mãe, e era forte como o pai.

Mas havia nele algo diferente, que espantou o pai, a mãe, a tribo inteira: Uadi tinha os cabelos dourados como as flores do ipê amarelo.

Ainda assim, Maluá recebeu o nascimento do filho com alegria. E, para explicar a sua diferença, espalhou pela tribo que Uadi era filho de Cananxiué.

Mas os próprios índios de sua tribo zombavam-no, dizendo que Uadi era filho do jacaré.

Alheio às piadas maldosas, o menino crescia cheio de encanto, alegria, e com uma inteligência incomum. Fascinava a mãe, o pai, a tribo toda. Com rapidez incrível, aprendeu o nome das coisas e dos bichos. Com sua mãe, aprendeu a cantar as baladas tristes e alegres de seu povo. Era a alegria da tribo.

Um dia, Maluá, com outros guerreiros, foi chamado para uma guerra. Os olhos pretos de Tainá-racan encheram-se de lágrimas. O rostinho alegre de Uadi se entristeceu. À despedida, seus bracinhos agarram-se ao pescoço do pai, e ele falou: “Papai, também estou indo embora. Vou pra casa de minha mãe, lá no céu”. E, com o dedinho, apontou para o alto.

O corpo do guerreiro se estremeceu. Seus lábios moveram-se, mas as palavras não saíam. Ele apertou o menino nos braços, com força, e, por fim, falou: “Que é isso, filhinho, você não vai a lugar nenhum. Ninguém arrancará você de mim. A sua casa é aqui na Terra. Se for preciso, não partirei para a guerra. Ficarei com vocês”.

Nesse momento, Cananxuié, o senhor de todas as matas, de todos os animais, de todos os montes, de todas as águas e de todas as flores, desceu do céu sob a forma de Andrerura – a arara vermelha – e gritou um grito forte: “Vim buscar meu filho!”, e o agarrou e o levou pelos ares.
Tainá-racan e Maluá caíram de joelhos. O guerreiro abriu os braços gritando: “O filho é nosso, sua casa é a de sua mãe, Tainá-racan, aqui na Terra!

Devolve meu filho”! O grito de Maluá ecoou pela mata, ferindo de dor o silêncio. O peito do guerreiro sofria como uma aroeira ferida pelo machado.

O velho chefe guerreiro aproximou-se, bateu-lhe no ombro e bradou: “Maior que sua dor é sua honra de guerreiro e a glória de nossa tribo! Cananxiué buscou o que você disse que era dele. Muitos outros filhos ele vai lhe dar. Tainá-racan é jovem. Você é jovem. Vai, guerreiro, não deixe a dor matar sua coragem!”

Maluá partiu. Tainá-racan chorou três dias e três noites na sua oca. E o jacaré, seu amigo, que veio da mata ao escutar os seus gritos de dor, ficava deitado à sua porta, dia e noite, tomando conta dela.

Uma noite, o jacaré implorou a Cananxiué que tivesse piedade dela, prometendo ir embora para sempre, nunca mais falar com os humanos e morar somente nas margens dos rios, se a fizesse novamente feliz.

Ouvindo-o, Cananxiué tomou novamente o corpo de uma arara vermelha e voltou à Terra, dizendo a Tainá-racan:

– Das suas lágrimas nascerá uma planta, que crescerá como uma árvore copada. Ela dará flores cheirosas que as pacas, veados, capivaras e os lobos virão comer nas noites de luar. Depois, nascerão frutos. Dentro da casca verde, os frutos serão dourados como os cabelos de Uadi. Mas a semente será cheia de espinhos, como os espinhos da dor de seu coração de mãe. Seu aroma será tão tentador e inesquecível, como você o será sempre para o seu amigo jacaré. E aquele que o provar, jamais o esquecerá.
Tainá-racan ergue o olhar e lhe pergunta:

– Cananxiué, meu deus, e como se chamará esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com o jacaré e meu filhinho?
– Chamar-se-á Tamauó, minha filha.

Tainá-racan sorriu. E imediatamente viu nascer uma planta, que chamou de Tamauó. A mesma que os índios mehinako, do Xingu, conhecem como akain; e que os homens brancos, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste chamam de Pequi.

E, quando Maluá voltou, encontrou uma linda, grande e frondosa árvore, cheia de frutos, chamada de pequizeiro. Ele pegou alguns no chão, partiu, tirou os caroços dourados e os comeu, com farinha, junto com Tainá-racan. E depois, se amaram muito, ali mesmo à sombra do pequizeiro.

Assim foi que, durante muitos anos a seguir, sempre que os ipês e os cajueiros voltavam a florir nas matas e os pequizeiros também deixavam seus frutos maduros cair na terra, servindo de alimentos para todos, Tainá-racan e Maluá eram abençoados com mais filhos. E, a cada filho que nascia, plantavam mais um pequizeiro. E eles tiveram muitos filhos. E viveram felizes para sempre.

O FRUTO DO AMOR


Ainda hoje, muitos índios plantam mudas de pequizeiros ao nascimento de cada bebê; e fazem também grande festa na época da colheita dos frutos – Mapulawache, a Festa do Pequi, cheia de brincadeiras provocativas e que despertam a sexualidade entre jovens indígenas, homens e mulheres. E, muito alegres e brincalhões, dizem que o cheiro do pequi lembra o sexo das índias, por isso, quem os come, se enche de amor e tem muitos filhos.

Mantendo a tradição da lenda indígena, também os jovens brancos que moram nos sertões goiano e tocantinense gostam de passear nas matas do Cerrado, depois que começam as chuvas, levando uma cuia com farinha, pra comer com o pequi maduro que colhem do chão, dizendo que, se o fruto for tirado ainda verde, fica amargo. E, nove meses depois, muitas crianças nascem no sertão, criando uma nova lenda do poder afrodisíaco do fruto do amor.

Texto adaptado com base no conto “Os Frutos Dourados do Pequizeiro”, de Marieta Teles Machado, Editora UCG, 1986; no filme Mapulawache: Festa do Pequi, dirigido pelo indígena xinguano Aiuruá; nas lendas dos índios Mehinako, do Alto Xingu; e nos costumes e lendas dos povos do Cerrado.

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