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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Menu Mitologia Grega: Édipo e sua Herança Maldita

ÉDIPO E SUA HERANÇA MALDITA

A maldição que se abateu sobre Édipo teve início com seu pai Layo, filho de Lábdaco, sábio rei tebano que deu origem aos Labdácidas. Quando Lábdaco faleceu, Layo ainda era muito jovem para governar Tebas. Lico, o fiel conselheiro do rei, assumiu a regência do trono que seria restituído a Layo quando ele completasse a idade para governar. No entanto, os sobrinhos de Lico, Anfião e Zeto, tomaram-lhe o trono. 

Temendo por sua vida, Layo fugiu para a Élida sendo acolhido pelo Rei Pélops. Porém Layo se apaixonou por Crisipo, filho mais jovem e preferido do rei, e o raptou. Isso atraiu a fúria de Pelops. Ao fugir Crisipo se precipitou em um poço. Tomado de dor e ódio, Pélops lançou uma maldição sobre Layo que iria se abater sobre todas as suas gerações descendentes.

Layo reassumiu o trono de Tebas, casou-se com a bela Jocasta e se esqueceu da maldição que lhe fora lançada. O reino de Layo se tornou um dos mais prósperos da Grécia quando Jocasta anunciou a chegada do herdeiro. Feliz com a gravidez, Layo se debruçou sobre o ventre da mulher e repentinamente sentiu uma tristeza desconhecida e um estranho desespero.

Tomado pelo presságio, Layo decidiu consultar o Oráculo sobre o herdeiro que revelou uma terrível profecia: “ O filho matará o próprio pai e se tornará o soberano casando-se com a mãe; isto será a ruína de Tebas". Transtornado com tão trágica revelação, Layo revelou a profecia à sua esposa. Quando a criança nasceu, Jocasta viu o filho ser arrancado de seus braços pela força das profecias. Layo em silêncio, tomou a criança e partiu.

Longe do palácio, Layo seguiu ao lado de um escravo para o monte Citeron com a determinação de eliminar o filho. No meio do bosque, olhando para aquela inocência infantil, não teve coragem de matá-lo. Porém, determinado, perfurou os pés do recém-nascido, amarrou-os com uma corrente e pendurou numa árvore. Ali o deixou entregue ao seu próprio destino. 

Mas o Destino já decidira que a criança não morreria e que as palavras do Oráculo se cumpririam. Um pastor caminhava pelo bosque e ouviu o choro do pequeno. Compadecido, tomou-o e o levou para Corinto, entregando-o ao Rei Pólibo e sua esposa Mérope, que jamais poderia conceber um filho. Tomados de felicidade, deram-lhe o nome de Édipo, cujo nome significa "o de pés inchados". 

Édipo e seus destino 


Édipo cresceu feliz em Corinto e foi criado como legítimo filho dos rei Pólibo e sua esposa Mérope. Era admirado por todos, mas nunca lhe fora revelada a verdadeira origem. Porém na juventude, tornou-se inseguro e foi consultar o oráculo. Édipo jamais se fechava para as suas verdades e o oráculo foi cruel em suas palavras, dizendo ao jovem: “Hás de matar o teu pai e desposar a tua própria mãe.”

Diante da cruel profecia, desesperado abandonou Corinto fugindo pelas estradas gregas. Decidira jamais retornar para que não cumprisse a profecia de matar Pólibo e desposar Mérope. Seria eternamente errante, exilando-se de Corinto. Mas os deuses já tinham decidido que se cumpriria a profecia.

Errante pelas estradas, Édipo chegou à encruzilhada de Megas onde convergiam os caminhos de Dáulis e Tebas. Indeciso, não sabia por onde seguir, até que na estrada surgiu inesperadamente a comitiva de Layo comandada por seu arrogante servo Polifontes, exigindo que o forasteiro se retirasse para que o seu amo Layo pudesse passar. Diante das palavras rudes do servo, Édipo não se moveu mantendo-se impassível.

Irritado, o servo Polifontes investiu contra o jovem que, ao defender-se, desferiu um golpe mortal no agressor. Transtornado, Layo se atirou em luta contra o forasteiro. Édipo voltou-se para Layo fitando-o profundamente. Pai e filho não se reconheceram e atracados numa violenta luta, Layo tombou sob a espada de Édipo. Ao cair, banhado em sangue, olhou para o seu agressor acometido de uma estranha ternura, quando a morte o tomou. Apesar de ter cometido os crimes numa luta em defesa pessoal, Édipo sentiu-se estranho diante daqueles mortos.

Prosseguiu o seu caminho errante rumo a Tebas, onde os deuses reservavam para ele o total cumprimento da maldição que o acompanhava. Édipo chegou a Tebas e encontrou a cidade tomada pelo pânico, pois além da morte do rei, a Esfinge, um monstro metade mulher metade leão com cauda de dragão e asas de ave de rapina, lançava um terrível enigma a todos que passavam pela estrada sob a ameaça de devorar quem não soubesse a solução:

- “Qual o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três no entardecer?” Ninguém sabia a resposta, e como punição, ela devorava o viajante, fazendo a população refém do medo e do terror. Ao encontrar a Esfinge, Édipo aceitou-lhe o desafio. Ao ouvir o enigma, ele respondeu prontamente: “O homem: na infância arrasta-se sobre os pés e as mãos; na idade adulta, mantém-se sobre os dois pés; e na velhice precisa usar um bastão para andar.”

Diante da inteligência de Édipo, a Esfinge afligiu-se e propôs lançar-lhe um novo enigma: - “São duas irmãs, uma gera a outra, e a segunda é gerada pela primeira. Quem são elas?” Édipo respondeu sem hesitar: “A luz e a escuridão. A luz do dia clareia aberta no céu, gera a escuridão da noite, que, por sua vez, precede a luz do dia”. O jovem respondera a todos os enigmas da Esfinge. Com sabedoria, desvenda-lhe as artimanhas e sortilégios, e ela do alto do rochedo se atirou nas pedras.

A rainha Jocasta havia prometido casar-se com o homem que vencesse a Esfinge e Édipo foi aclamado pelo povo como o seu rei. Frente a frente, mãe e filho não se reconheceram, mas em seus sentimentos confusos, considerados como fruto da paixão, Édipo e Jocasta se tornaram marido e mulher. Por muitos anos Édipo viveu feliz ao lado de Jocasta, gerando com ela os filhos: Ismena, Antígona, Etéocles e Polinice. Tornou-se um soberano sábio e amado pela população tebana.

Édipo e o expurgo de seus pecados


Um dia Tebas foi assolada por uma terrível peste. Nos campos as plantas secavam, os vegetais morriam levando à fome a todos. Preocupado com a tragédia que se abatera sobre o seu reino, Édipo decidiu consultar o oráculo. Mais uma vez, o oráculo foi implacável: “A peste só findará quando o assassinato de Layo for vingado.”

Édipo iniciou uma contundente investigação para descobrir o assassino de Layo e consultou Tirésias, o velho adivinho cego. Capaz de ver na escuridão dos próprios olhos, o passado e o futuro, Tirésias revelou a Édipo que ele era o assassino de Layo. Pensando tratar-se de uma conspiração para tirá-lo do poder, Édipo expulsou Tirésias do seu reino, mas ainda persistia em busca da verdade. 

Ao contar a previsão para Jocasta ela o tranquilizou e lhe contou que o Oráculo havia previsto que Layo seria morto pelo próprio filho, porém o filho que tivera havia sido morto no Monte Cinteron. Além disso, Layo havia sido morto numa disputa numa encruzilhada.

Angustiado, Édipo juntava as coincidências quando chegou um mensageiro de Corinto anunciando a morte do Rei Pólibo, que ele ainda julgava ser seu pai. Édipo se sentia triste porém aliviado de que a profecia falhara, quando dissera que seu pai morreria pelas suas mãos. Mas antes que respirasse seu alivio, o mensageiro fêz a revelação de que ele não era filho de Pólibo, e que havia sido recolhido por um pastor no Monte Cinteron.

Ao ouvir a revelação do mensageiro de Corinto, Édipo e Jocasta entenderam a verdade. O homem a quem Jocasta amara e com quem concebera quatro filhos, era ele, o herdeiro maldito. Desesperada, a rainha fugiu para os seus aposentos, e tomada pela indignidade de ter sido a amante do próprio filho, a bela Jocasta enforcou-se. Finalmente Édipo decifrou o seu próprio enigma; era filho de Layo, a quem matara e de Jocasta, a quem desposara. 

Desesperado diante da revelação, Édipo correu para os aposentos da rainha esperando o perdão pelo erro do destino, mas encontrou a rainha sem vida. Diante do espelho das suas verdades, Édipo decidiu não mais ver o mundo. Em um ato de desespero, justiça e de punição, ele arrancou os próprios olhos, mergulhando para sempre no mundo da escuridão.

Banido, cego, mendigo e esquálido, Édipo partiu pelas estradas da Grécia a expiar a sua culpa e maldição. Na sua caminhada, Édipo foi sempre conduzido pela filha Antígona, que jamais abandonou o pai. Depois de permanecer andarilho por várias terras, Édipo chegou na Ática. Ali refugiou-se onde finalmente sentiu um alívio para a sua culpa, descansando na felicidade dos justos.

Velho e mendigo, Édipo havia perdido tudo o que pode perder um homem, a juventude, a mãe e esposa, o trono, a riqueza e a visão. Restara-lhe o amor incondicional da filha Antígona. Após ver Édipo errar e a viver o castigo que impusera para si mesmo, Apolo, o deus que sempre profetizara a sua miséria através das armadilhas do Destino, compadeceu de seu sofrimento. O deus da luz confortou-o nos últimos anos de vida, atraindo a benção do Olimpo para o lugar que lhe serviria de sepultura.

Já velho e cansado, Édipo caminhou até a beira de um precipício, ali se sentou em uma pedra, vestindo-se com uma mortalha. Ouviu-se um grande estrondo no céu. A terra abriu-se suavemente, recebendo o corpo sofrido e expurgado de Édipo. O local da tumba do mais famoso rei de Tebas jamais foi revelado. Sabe-se apenas que está na Ática, e por isto, aquele solo é abençoado pelos deuses do Olimpo.

Édipo e o final da maldição

A maldição sobre a descendência de Layo não se encerrou na tragédia de Édipo. Após a morte do seu pai, Antígona retornou a Tebas, para juntar-se aos irmãos, Ismena, Etéocles e Polinice, únicos parentes que lhe restaram no mundo. Os irmãos Etéocles e Polinice estavam em uma acirrada disputa pelo trono e em um confronto, os dois irmãos envolveram-se em uma luta sangrenta e fatal. O resultado foi a morte de ambos.

Creonte, irmão de Jocasta, herdou o trono de Tebas. Etéocles era o sobrinho preferido de Creonte, por isso ele o enterrou com todas as honras, deixando o corpo de Polinice abandonado onde tombara morto, proibindo sob pena de morte, qualquer pessoa de enterrá-lo. Antígona não se conformou com a sorte de Polinice, tentou sob todos os argumentos, convencer o tio a deixar que o irmão fosse sepultado, pois sabia que sem os rituais fúnebres o malogrado príncipe seria condenado a vagar por cem anos pelas margens do rio dos mortos. 

Diante da indiferença de Creonte, Antígona desobedeceu às suas ordens e enterrou Polinice com as próprias mãos. Como castigo, o soberano condenou-a a ser enterrada viva. Mesmo diante das súplicas de Ismena, a mais bondosa filha de Édipo foi cruelmente enterrada viva pelos arautos de Creonte. Ismena, a última sobrevivente dos filhos de Édipo e Jocasta, seria morta mais tarde pelo guerreiro Tideu. Ao atingir a terceira geração, estava concretizada a maldição lançada por Pélops sobre os Labdácidas. 

Agora vamos refletir sobre o mito:

A mitologia grega é constituída por uma vasta e rica galeria de personagens, dividida em deuses, semideuses e heróis. O mito de Édipo é o mais humano de todos, uma síntese da visão grega antiga diante da miséria e tragédia humana. Retratado como viril e inteligente, seu mito foge dos heróis tradicionais, como Aquiles, que têm a força guerreira como essência da virilidade e das aventuras épicas. 

Édipo tem a inteligência como aliada que o faz justo, decifrador dos enigmas humanos e dos deuses, tornando-o, através da sabedoria, líder e vencedor do seu povo. Mas justamente o maior enigma que rege a sua própria vida, será o ponto de busca de Édipo. Preso ao emaranhado das suas verdades e nos atos que praticou, o destino decidiria a sua tragédia. Ele não foi induzido ao erro para que se concretizasse a maldição lançada sobre seu pai Layo; ele se colocou nas mãos do destino. 

Édipo é sinônimo da maior tragédia do teatro grego, ponto fundamental da sua essência. É o maior personagem humano criado pela genialidade imaginativa da cultura da Grécia antiga. Uma das características das religiões politeístas é de que o homem nasce e vive já com a determinação do destino, entidade maior e soberana aos deuses. Os monoteístas afirmam que é o homem quem, através do livre arbítrio, determina o seu destino. 

O mito de Édipo alinha as contradições pois ele herdou a maldição lançada sobre as gerações da sua família. A vitória sobre a esfinge, a vontade de triunfar sobre a maldição dos deuses, o assassinato do pai, o casamento com a própria mãe e a necessidade inquietante de descobrir as verdades da alma humana, fazem de Édipo o mais vulnerável dos homens diante do espelho, assim como é a humanidade diante das suas próprias verdades. 

Édipo é a chave entre a verdade e a mentira. Ao descobrir quem é, não suporta a imagem do mundo e de si mesmo, e arranca os próprios olhos. Édipo, dentro da sua tragédia, é a mais perfeita concepção humana da criação mitológica, a visão que foge do herói e dos deuses, esboçando o retrato universal da psicologia da mente do homem e da sua eterna luta contra os deuses criados para justificar a solidão da alma. No auge do poder e da sua felicidade, Édipo é confrontado com as verdades dos seus atos. Fato a fato, desvenda-se a mais cruel das verdades. 

O mito representa a luta do homem contra o cego destino que o aguarda. Édipo é inocente perante o destino, mas carrega a culpa por seus atos e suas escolhas. Édipo se viu diante de muitas escolhas que poderiam ter determinado outro destino, talvez livre de tantos infortúnios para si e para outros. Ele tinha indícios suficientes para evitar tão dramáticas consequências. O que Édipo poderia ter feito? 
Nunca matar, assim evitaria de assasinar acidentalmente o pai.
Nunca casar-se com uma mulher mais velha do que ele, pois evitaria de casar-se com sua mãe.

Nunca achar-se tão sábio e contentar-se em saber que pouco sabe diante da soberba sabedoria que rege o universo. 
Porém Édipo julgou com sua racionalidade, sem considerar os elementos subjetivos que tinha em mãos. Quando projetamos nossos problemas nos outros, estamos dando aos outros o poder de decidir o nosso destino. Quando assumimos a responsabilidade por nossos atos e atitudes, na verdade estamos tomando as rédeas do nosso destino.

A vida nos traz inquietações e nos faz buscar respostas, mesmo que para isso precisemos tomar novos rumos e enfrentar novos desafios. Assim como Édipo, cada ser humano tem a liberdade de ir em busca da sua felicidade, porém o mais importante é ter dentro de si o equilibrio interior e estar em harmonia consigo mesmo, pois só dentro de si é que encontrará sustentação para viver. 

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