Bem Vindos

Ola amigos bem vindos a Arcanoteca um espaço para RPG, mitologia, contos e curiosidades, esperamos que gostem do nosso conteúdo e nos visitem com frequência. (amigos nós não temos pop ups por favor deixem o seu ADblock desativado para nosso site pois isso nos ajuda muito a manter a Arcanoteca)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Menu Alquimia: Fernando Pessoa e a filosofia Hermética.

FERNANDO PESSOA E A FILOSOFIA HERMÉTICA

A filosofia hermética assume-se como uma das facetas mais importantes do pensamento de Fernando Pessoa. Se é verdade que é na obra poética que se dá a grande realização de Fernando Pessoa, não é menos verdade que a contínua reflexão filosófica e religiosa, é uma faceta igualmente importante que convém revelar.
Em certos poemas de Alexander Search, o heterónimo juvenil, revela-se já o interesse pelo ocultismo.
O ocultismo é precisamente uma das chaves da pluralidade de que ele se reclama.
“Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais”. (Textos Filosóficos I).
Um dos seus projectos de conto, arquivado no espólio, tem precisamente por título O Filósofo Hermético. Aqui define o oculto “como o interno, a outra face das coisas”, e diz ainda que o oculto “significa o que não é presente, o que não é actual… o que já passou, o que virá a ser e também o que é, mas nós não o conhecemos”.
A criação literária é para Fernando Pessoa, uma das faces do mistério iniciático. Mistério que se encontra subjacente na Mensagem, na heteronímia, no diálogo entre os vários poetas.
A iniciação única e sempre a mesma, que se encontra no pensamento filosófico, como na actividade literária é a do desdobramento que na criação se verifica desde o primeiro ser. Desdobramento, multiplicação, que depois de assumidos e esgotados permitem a unidade pela transcendência.
Em Essay of Initiation ele identifica transcendência com a fusão de toda a poesia lírica, épica e dramática: “O meu destino pertence a outra lei…”, escreve numa carta a Ofélia.
A perfeição, para os gnósticos supõe a androginia, o regresso ao estado de pureza original do Eden.
A energia sexual deve ser canalizada para outros tipos de actividades. No poema Eros e Psique (1934) apontará uma via e uma revelação (com uma epígrafe tirada do Ritual do Grande Mestre do Átrio da Ordem Templária de Portugal).
Este gnosticismo, explica talvez parte da dificilmente explicável filosofia de Pessoa, que é hermética, mas numa multiplicidade de sentidos, apenas comparáveis aos múltiplos da heteronímia.
Explica também a recusa do casamento e a ausência da mulher na sua obra. “Sentir tudo de todas as maneiras” é um elo bem explícito, entre a filosofia hermética e a prática dos heterónimos, a maneira que tem de se entregar à multiplicidade até chegar à unidade, ao não-diferenciado.
A visão do mundo do poeta é altamente sincrética. A busca, como a iniciação, diz respeito a três ordens de coisas – 1- A verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte; 2- A verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las; 3- A verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da criação do mundo (Esp. 54-97).
Fernando Pessoa revela-se venerador de um Deus-Mundo, de um Deus-Homem e um Deus-Deus-Reflexo do Espírito Santo, do Filho e de Si Mesmo “manifestação de si mesmo a si mesmo, hermafrodita espírito-matéria”, segundo diz num apontamento sobre a Kabala (Esp. 54 A-20).
Assim, o simultaneismo da heteronimia é, um verdadeiro exercício espiritual não confessado: “Organiza a tua vida como uma obra literária, pondo nela toda a unidade que fôr possível” (Esp. 28-43).
A Ordem do Subsolo organiza-se à volta de um projecto, a criação de uma ordem interior “Ordem da Emoção”, com os seus graus próprios. Os textos apresentados não passam de fragmentos ou projectos semi-alinhavados de ensaios que o poeta não chegou a acabar.
Faz a distinção entre “Ordem Interna” e “Ordem Externa”, estabelecendo esquemas e correspondências entre duas ordens.
Faz também alusão a uma ordem de ciência ou de sabedoria que é a da emoção: “Há três ordens de scª: a da vontade, a da inteligência, a da emoção. A intuição é a inteligência da emoção. Mas a emoção pura – eis a ciência”.
Mais adiante escreve: “O mistério (que é tudo) não é comprehensível se não há emoção. A inteligência não pode compreender o mistério”.
O Subsolo parece ser o esboço de uma estrutura simbólica servindo de suporte às ordens iniciáticas conhecidas, uma espécie de “assinatura”, de “fundamento” de todas as que o poeta procurasse organizar. Ordem simbólica, para o seu entendimento contribui o texto em que se indica a gradação dos vários sentidos dos símbolo, literal, alegórico, moral, espiritual e divino. Para concluir que “numa cadeia racional, tudo é um” (Esp. 54-91).
Encontramo-nos em plena filosofia hermética .
São vários os documentos em que Fernando Pessoa se ocupa da Ordem do Templo, de que se disse filiado, afirmando que ela se encontra em “dormência” desde 1888 (data do seu nascimento). Herdeira da Ordem do Templo, surge em Portugal a Ordem de Cristo, cujo ideário é o mesmo.
No “documento 54 A-29 do Espólio, Fernando Pessoa refere-se ao celebrado Pymandro de Hermes: O que está em baixo é como o que está em cima. Por esta citação se estabelece o elo (que ele deseja ser relacional, mas que não precisa de o ser, quando se trata do oculto) do Subsolo ao Átrio.
Pessoa diz que a organização das chamadas Baixas Ordens copia “guardadas as diferenças obrigatórias” a organização das Altas Ordens.
As Ordens do Átrio iniciam por meio de símbolos as Ordens do Claustro, superiores às primeiras, por meio de chaves herméticas, e as Ordens do Templo “iniciam plenariamente – isto é, dizendo e explicando os mystérios” (Esp. 54 A-95).
Ao adepto são pedidas várias vitórias: a vitória sobre o Mundo, a vitória sobre a Carne, a vitória sobre o Diabo (Esp. 53-59/60). Mas no fim do caminho, descobre que “terá o que sempre teve”, isto é, que nada lhe é dado exteriormente que ele já não possua primeiro interiormente.
Este é o sentido místico de toda a iniciação. Dá-se “no Ego Íntimo” (Esp. 53-78), em quem morrer o mundo, a carne, o diabo (a tentação de ambos) e que ressurge para uma vida nova, esclarecida, iluminada.
Para Pessoa “a vida é uma symbolologia confusa” (Esp. 53 B-79) e nada deve ser tomado como definitivamente conhecido. Existe sempre o perigo do erro e da ilusão.
Desenvolve ainda a ideia de que a iniciação tem a ver com alma, sendo “uma espécie de nova região por onde a alma se transforma” (Esp. 53 B-83).

Nenhum comentário:

Postar um comentário